24.3.16

Capítulo 8 - Sensações

Geralmente no final de Junho havia sol e calor em Nova York, às pessoas andavam pelas ruas com roupas de verão, óculos de sol e abusavam dos sorvetes e picolés. Porém naquele dia as nuvens do céu estavam escuras apesar de ainda ser exatamente uma hora da tarde, o sol pouco brilhava e tudo parecia muito errado. O tempo simplesmente parecia que nunca iria passar, para que o ponteiro do relógio desse um giro completo marcando um minuto a mais demorava séculos! Lá fora tudo estava chato, monótono demais para ser Nova York. O sentimento era tão agonizante, a cabeça das duas mulheres que estavam em silêncio há tempo demais parecia latejar, ninguém sabia o que pensar, o que fazer.. Era só a dor viva as consumindo aos poucos.

Morto. Jason Gyllenhaal estava morto.

Os olhos inchados e avermelhados. A angustia tomando todo o peito, Selena estava deitada no sofá de Demi quieta demais, a ponta do nariz estava vermelha e os pés e as mãos gelados. Demi tinha a cabeça escorada no batente da janela de vidro da sala, suspirava vez ou outra, os olhos ardiam, a cabeça doía e as lágrimas vinham quando a sua memória a obrigava a se lembrar do sorriso de Jason, de como ele era gentil e generoso, de como havia a acolhido como um verdadeiro pai. Quem seria capaz de fazer tal atrocidade com um homem como Jason? Demi estava tão aterrorizada, o nervoso havia a sufocado quando Selena contou o motivo de tantas lágrimas. O seu amigo estava morto. Era inacreditável, as palavras de Jason ainda tão frescas em sua mente:

“Você é muito jovem. Nem sempre você e a sua mãe vão se entender, será assim com ela e com muitas outras pessoas. Só não vale a pena ficar triste, tudo bem? Gaste o seu tempo sorrindo e sendo feliz, aproveite o máximo de tudo que você tem e das pessoas que te cercam porque nem todos que você ama estarão aqui para sempre, ok? – Demi assentiu sorrindo e de coração apertado por saber que Jason falava da esposa e dos tantas pessoas amadas que já tinha perdido. Era por isso que ela adorava conversar com ele. – Agora vá mocinha, quero o seu departamento trabalhando a todo vapor. – Demi riu e fez questão de caminhar até Jason para se despedir com um caloroso abraço logo sendo expulsa do escritório do chefe pelo mesmo.”

Mentira! Mentira! Ele não está morto! Uma voz gritou em sua mente e o coração apertou no peito. Não era mentira, a morte de Jason era o principal assunto dos noticiários e na internet. O mundo estava um caos e todos assustados. Aliás? Quem queria tirar Jason da linha? A pergunta fez Demi franzir o cenho. Jason não tinha inimigos, não que era de seu conhecimento.. O que havia acontecido? Quem iria matá-lo com um tiro certeiro no peito? O medo a assombrou e novas lágrimas rolaram molhando o rosto delicado. Seja lá o que tenha acontecido, Jason não merecia um fim como aquele, ninguém merecia.


   - Selena? – Chamou limpando as lágrimas e caminhando até o sofá onde a amiga estava deitada e de olhos assustados fitando o teto. – Nós.. Nós não almoçamos. – Disse engolindo em seco secando as lágrimas que continuavam a rolar pelo rosto e Selena também derramou as lágrimas dela. – Você não está com fome? – Perguntou respirando fundo tentando ser forte por ela e Selena, mas não conseguia.

   - Desculpe Dem. – Murmurou Selena se erguendo e limpando as lágrimas que molhavam o seu rosto. – Eu definitivamente estou sem fome. – Respondeu arrumando as mechas do cabelo atrás das orelhas.

   - Eu também. – Demi limpou novamente as lágrimas nas mangas de sua jaqueta jeans. – Mas nós deveríamos comer alguma coisa. – Disse fitando os olhos de Selena tão carregados de dor quantos os seus.

   - Quase coloquei pra fora o meu café da manhã.. – Resmungou Selena. – Hum.. Você não comeu hoje? – Selena olhou para a amiga e franziu o cenho. – Você não passou a noite em casa, certo?

   - Ontem foi um desastre. – Disse sentindo a cabeça doer ainda mais ao se lembrar de Dianna. – Ela só queria dinheiro, enfim, eu acabei encontrando o Jake quando saí do restaurante, ele me ajudou a esquecê-la mais uma vez, nós conversamos e comemos hambúrguer. Ele me pediu para passar a noite com ele.

   - Eu sinto muito por tudo Dem. – Demi não esperava por um abraço de Selena, mas sentiu a esperança que tudo acabaria bem quando Selena a abraçou. – Não vamos deixar que ela destrua tudo o que você lutou para ter, tudo bem? – Apesar de ser triste, o sorriso de Selena aqueceu o coração de Demi. – Vamos preparar alguma coisa para você comer? Não quero que o meu bebê fique de estômago vazio. – Demi revirou os olhos com tanta vontade que Selena não pode deixar de rir e apertar as bochechas da amiga.

   - Eu juro que eu queria saber o que eu fiz de errado para ter duas mães malucas. – Por um momento elas riram como se uma tragédia não tivesse acontecido naquele dia. Mas também foi só por aquele momento, o silêncio na cozinha seria sufocante para qualquer um que estivesse ali com Demi e Selena, não para as duas que estavam envolvidas nos próprios pensamentos enquanto comiam em silêncio a macarronada que prepararam.

   - O que nós vamos fazer? – A voz de Selena quebrou o silêncio da cozinha e Demi olhou para a amiga engolindo em seco. Selena nunca perguntava, pois era ela quem sempre coordenava situações chatas como aquela.

   - Eu não sei. – Respondeu e bebericou o suco de uva concentrado. – Acho que nós teremos que esperar. – Comentou desviando o olhar de Selena e respirou fundo. – O.. O corpo deve estar sendo examinado.. Eu não sei. – Disse contra a vontade e se levantou para levar o prato a pia já que não tinha mais fome. – Por que você não liga para o Ed? Ele deve saber de alguma coisa. – Selena franziu o cenho cogitando a ideia de ligar para Ed, um dos assistentes do pessoal da administração que resolvia todos os problemas de todos os departamentos e que inclusive vivia tentando flertar com ela.

   - Não acho que seja uma boa ideia. – Resmungou Selena levando a louça suja que estava sobre a mesa para a pia. – Como foi com o Jake? – Selena buscou por uma toalha para secar a louça quando Demi começou a lavá-la.

   - Nós transamos de novo, foi muito bom. – As bochechas de Demi nunca coravam à toa.. Os olhos nunca ganhavam aquele brilho especial.. Selena a analisou e grunhiu baixinho. Mais um cara não! Demi era um imã de caras estúpidos.

   - Você está se prevenindo? - Perguntou Selena sem ousar desviar o olhar do de Demi.

   - Estou. – Murmurou Demi desviando o olhar de Selena. – Ele está saudável. – Comentou brevemente.

   - Eu sou nova demais para ser titia. – As duas acabaram rindo por alguns instantes e Demi ficou a pensar em um bebê. Deus! Como ela havia pensando dias atrás que não queria ter um bebê por medo de tornar a vida sentimental dele tão frustrada quanto a sua? Ela iria amá-lo com todo o seu coração, moveria céu e terra para garantir a felicidade do filho.

   - Você não acha errado que eu esteja dormindo com o Jake? – A perguntou foi de repente, Demi tinha acabado de lavar a louça e Selena guardava o último prato no armário.

   - Errado? – Perguntou de cenho franzido e Demi assentiu se recostando na bancada. – Acho que uma mulher solteira pode dormir com quem ela quiser. Sem julgamentos, ora não tem nada de errado em fazer sexo. – Selena prendeu o cabelo longo num coque despojado e desfez do blazer que usava já que não iria trabalhar.

   - É estranho, o Jake me deixa de pernas bambas. – O comentário lhe causou calor em lugares sensíveis e Selena não deixou de perceber e riu das feições da amiga.

   - Está na hora da gente marcar um almoço, você só fica com ele se eu aprovar. – Demi revirou os olhos e as duas começaram a velha brincadeira estúpida de adolescente se empurrando enquanto caminhavam para a sala.

  - Está na hora da gente marcar um almoço, você só fica com ele se eu aprovar. – Imitou a amiga. - Você é tão chata! – Resmungou Demi empurrando Selena que a empurrou de volta.

   - Você é tão chata! – Selena também a imitou e as duas trocaram olhares ameaçadores quando se olharam. Mas antes que a pirraça prosseguisse, o celular de Demi começou a tocar dentro da bolsa jogada no sofá e Demi mostrou língua para Selena e correu para pegar o celular dentro da bolsa. – Demi? – Ela conhecia muito bem aquele olhar de menina assustada que Demi lhe lançou e quando Sel se sentou ao lado de Demi não pode deixar de escutar a pessoa do outro lado falar:

   - Demetria! Você por acaso está me achando com cara de palhaça? Fui ao banco duas vezes e o dinheiro não está lá. – Era Dianna, Selena percebeu ao fitar Demi de cenho franzido e com o olhar perdido em tristeza.

   - O dinheiro estará na sua conta até o final do dia. – Disse Demi respirando fundo vez ou outra para não perder o controle e descontar tudo em Dianna. – Estamos com problemas na empresa, o meu chefe foi assa.. assassinado na noite passada, então eu vou depositar apenas o suficiente para pagar as contas e comprar comida, nós compramos algumas roupas novas depois. – Dianna não reclamou, não depois de escutar que a filha lhe compraria roupas novas.

   - Estou esperando. – Então a ligação foi encerrada e Demi amoleceu no sofá sentindo a tensão se esvaziar do seu corpo.

   - Ela é tão grossa! – Comentou Selena distraída e só deu conta do que havia dito segundos depois. – Desculpe, não quis ofendê-la. – Murmurou e Demi a olhou.

   - Não, ela é realmente grossa, mas por mais grossa e interesseira que ela seja, eu ainda a amo tanto. – Selena assentiu e confortou a amiga com um abraço. – Eu queria poder arrancar esse amor de dentro de mim, Sel. Mas eu não consigo.

   - Tudo vai ficar bem, tenha fé. – O beijo que Selena depositou no topo de sua cabeça a fez respirar fundo e se envolver mais no abraço. - É melhor a gente ligar para o Ed para saber como as coisas estão. – Disse minutos mais tarde quebrando o silêncio entre elas.

   - Tudo bem, eu preciso de um banho. – Resmungou Demi se levantando e caminhando para o quarto sendo seguida por Selena.

O banho de Demi foi longo e libertador, ao menos a água morna que lhe lavava o corpo dos pés a cabeça levou todos os problemas ralo a baixo. O que estava acontecendo? Dentro de uma semana ela tinha descoberto quem era o pai, tinha se decepcionado com a mãe mais uma vez e Jason estava morto. Poderia ficar pior? Sua vida estava definitivamente de cabeça para baixo!

   - Você está com uma cara péssima. – Selena respirou fundo e seguiu a amiga em direção ao closet. – O que o Ed disse? – Perguntou Demi procurando por suas roupas íntimas e as vestiu quando Selena se sentou no puff de costas para ela.

   - Eles examinaram o corpo, não há nenhum sinal de violência ou algo do tipo, um tiro o acertou no peito e ele não resistiu, sofreu paradas cardiorrespiratórias e morreu.. – Disse Selena de cenho franzido. – O assassino não deixou muitas pistas, o único material que a polícia tem é das câmeras de segurança, e pelo que o Ed disse foram dois homens. – Seja lá o que tinha acontecido, Jason não merecia morrer daquele jeito. Demi suspirou se lembrando do sorriso do velho amigo, sentiria tanta falta dos seus abraços calorosos e dos seus conselhos de pai. – O enterro será agora à tarde já que o corpo foi liberado.

   - Pensei que demoraria mais.. – Murmurou Demi.

   - Eu também. – Disse Selena se virando para fitar a amiga que estava vestida apenas de calcinha e sutiã a procura de uma roupa. – Mas ele foi assassinado ontem à noite. – Os suspiros das duas foram pesados e a conversa encerrou ali. Selena ajudou Demi a secar o cabelo e escolher roupas de cor preta, tudo feito em silêncio com pouquíssimos comentários. Acabou que Demi estava pronta vestida em sua saia, camisa e blazer preto calçada em seu scarpin também preto.
O clima continuou carregado e triste. A cidade estava tão monótona e o tempo parecia que nunca iria passar no interior do carro de Selena. Tudo estava terrivelmente sem graça, sem cor e vida, o céu continuava carregado de nuvens escuras que denunciavam a futura chuva que deveria cair no final da tarde.

   - Quer passar no banco? – Perguntou Selena ao se lembrar que tinha uma agência bancária um quarteirão de onde estavam.

   - Prefiro fazer a transferência online, não estou com muita paciência para enfrentar uma fila enorme. – Assentindo, Selena continuou a dirigir e logo estava destrancando a porta de casa com Demi a sua cola.

   - Selena? – A mãe de Selena, Mandy, assustou-se a deparar com a filha e Demi com aquelas carinhas desamparadas e os olhares tristes. – Eu vi na TV, o Jason era um bom homem e não merecia morrer assim. – Mandy abraçou Selena e deu um abraço apertado em Demi. – Você nunca mais veio aqui, nós sentimos a sua falta no domingo! – Demi corou sem saber o que falar a Mandy, pois o domingo que ela se referia era o domingo em que Dianna tinha dito coisas horríveis a ela.

   - Mãe, deixa a Dem. – Resmungou Selena descalçando os sapatos de salto que usaria para trabalhar naquela manhã.

   - Está tudo bem Sel. – Disse Demi sorrindo sem graça. – Eu só não estava muito disposta, obrigada pelo convite. – Selena percebeu o quanto Demi estava nervosa quando a viu mordeu o lábio inferior e colocar uma mexa do cabelo atrás da orelha. Deus! Aquela semana deveria estar sendo péssima para Demi.

   - Me ajuda a escolher uma roupa? – Demi não recusou ajudar a amiga e a seguiu em direção ao quarto de Selena e Mandy prometeu que prepararia o lanche da tarde para as suas meninas mesmo contra a vontade delas. – Eu não contei a ela. – Disse Selena assim que fechou a porta do quarto. – Tudo bem? – Disse assim que se virou e fitou os olhos de Demi.

   - Não tem problema, é só a verdade. – Selena franziu o cenho em uma careta ao ver o sorriso triste de Demi, odiava vê-la daquele jeito.

   - Você sabe que eu te amo, não sabe? – Demi assentiu emocionada e abraçou Selena calorosamente dizendo que também a amava.

Enquanto Selena tomava banho Demi estava sentada a cama da amiga e sorria para a imagem do porta-retratos em suas mãos. Quanto tempo àquela foto tinha? Deveria ser de pelo menos seis anos atrás. Deus! Ela e Selena ainda estavam no colegial, eram tão meninas e inocentes. Aquele dia tinha sido tão divertido, a escola levaria os alunos para conhecer uma das maiores industriais de agricultura do país. Depois do passeio, Mandy e Selena levaram Demi para casa, mas ao encontrar Dianna bêbada e com um homem aparentemente perigoso, Mandy achou melhor que a amiga de Selena passasse a noite segura sobre o seu teto.

   - Demi? – A mão de Selena a tocando no ombro foi o suficiente para que Demi arregalasse os olhos em susto. – Desculpe, mas eu já estou parada aqui há pelo menos três minutos te chamando. – Demi respirou fundo e colocou o porta-retratos em seu lugar no criado-mudo.

   - É melhor a gente se apressar, eu quero me despedir dele. – Selena assentiu com pesar. O fato de Jason estar morto ainda não era aceitável para nenhuma delas.

***


Entrar naquela floricultura não tinha sido fácil. Não quando aquele lugar significava um dia que tinha acontecido há dois anos e poucos meses. Um dia terrível e infeliz que parecia que nunca iria acabar. Demi ainda se lembrava da textura das pétalas do buquê de lírios em suas mãos. Os olhos estavam inchados de tanto chorar, o coração doente de tristeza só de olhar para a Dianna. A mulher estava irreconhecível, devastada e fora de controle. Os gritos eram insuportáveis, Dianna havia tirado toda a paz daquele ambiente com o seu egocentrismo e a sua dor. Amélia estava morta e dentro de um caixão esperando para que a filha e a neta se despedissem dela. Apenas as duas. A jovem Demi queria abraçar a mãe e dizer com todas as letras que a amava e que tudo ficaria bem, ao menos ela tentaria. Mas Dianna não permitia, não dava espaço para a menina, mal a olhava, mal direcionava a palavra a ela, mal tentava consolar a filha que também estava triste pela perda.. Tudo que a mulher egoísta fez naquele final de dia foi marcar o rosto da filha com um tapa que doeu na alma quando a menina tentou abraçá-la.

   - Perdão Srta. com licença, preciso levar essas flores antes que o sol acabe com tudo. – Selena que percebia a confusão de Demi, pediu desculpas para o rapaz que carregava um carrinho pesado de terra e flores e puxou Demi sutilmente envolvendo o braço ao dela.

   - Se quiser a gente pode ir embora. – Disse quando viu a amiga tirar os óculos de sol os colocando na blusa. – Você não está bem, não adianta mentir. – Demi massageou as têmporas e respirou fundo se controlando.

   - Não estou. – Disse fitando os olhos de Selena. – A vovó está enterrada aqui, e eu não consigo parar de pensar naquele dia. – Selena assentiu entendendo o que Demi queria dizer. Ela conhecia muito bem aquela história e imaginava como deve ter sido traumatizante para Demi ter que lhe dar com Dianna naquele estado.

   - Eu não importaria de ter ficado, mas você insistiu para que eu fosse embora. – Comentou Selena.

   - Você não merecia ser humilhada por ela. – Demi engoliu em seco e arrumou as mechas do cabelo quando o vento as bagunçou.

   - O que vai comprar? – Perguntou finalmente adentrando a loja tentando bloquear as lembranças do enterro de Amélia que insistiam em assombrá-la.

   - Rosas para o Jason e tulipas para a vovó. – Selena assentiu de coração partido algo flagrar o olhar distante e vazio de Demi, mas não disse nada, juntas elas escolheram as flores e dez minutos depois estavam caminhando em direção à capela do cemitério onde o corpo de Jason estava sendo velado.

O local estava tão cheio. Eram fãs, paparazzi, os funcionários da Gyllenhaal mais próximos e Demi não sabia se havia algum parente de Jason, na verdade ela estava tão perturbada com os últimos acontecimentos que não havia respondido as perguntas que várias pessoas faziam a ela por conta da sua amizade com Jason. Deus! Jason estava morto! Morto! A ficha caiu assim que ela o viu pálido e como se estivesse dormindo profundamente. As lágrimas rolaram grossas e rápidas molhando o rosto delicado, Demi agarrou o braço de Selena e deitou a cabeça no ombro da amiga sendo abraçada calorosamente pela mesma.

   - Ele está num lugar bem melhor Dem. – Selena sussurrou chorosa tentando ser forte por ela e por Demi. Sempre era daquele jeito, Demi desabava e Selena a amparava.

   - Selena? Você está bem? – Havia um bom tempo em que Selena abraçava Demi que já não chorava tanto, ambas estavam quietas e perdidas em seus pensamentos. Selena olhou para o lado e assentiu com pesar ao fitar os olhos verdes de Ed. Se fosse em outra ocasião ela o ignoraria como sempre fazia, mas ele era tão doce e parecia realmente se importar com ela. – Você precisa de alguma coisa? – O rapaz perguntou sem conseguir desviar o olhar do de Sel, e Demi, que desfez o abraço de Selena se sentindo extremamente tonta e fraca, flagrou o jeito como Selena olhava para Ed.

   - Eu vou caminhar um pouco, preciso de ar. – Demi não deu tempo para Selena responder, caminhou o mais rápido possível para fora daquele lugar sufocante. Caso ela ficasse ali mais um segundo sequer cairia dura no chão.

Demi estava tão atordoada, tentava passar pela multidão que cercava a capela sem sucesso algum, eram tantas pessoas e ela estava mentalmente distante daquele lugar que nem percebeu quando esbarrou em um homem que deveria ter pelo menos vinte centímetros há mais de altura que ela. Demi só não imaginava que aquele era Jake tão atordoado quanto ela.

   - Respira Demi. – Disse para si mesma caminhando sem pressa alguma pelo cemitério. Aquele lugar era tão cheio de paz ao mesmo tempo em que era triste. Demi fitou as pétalas da rosa vermelha em sua mão e deixou uma lágrima rolar. Não estava sendo fácil viver naqueles últimos dias, não quando o mundo estava simplesmente desabando sobre a sua cabeça. As pernas pareciam ter vida própria e a guiava por aquela imensidão onde havia milhares de pessoas enterradas, Demi só foi se dar conta de onde estava quando parou em frente a sepultura de Amélia. – Vovó. – Sussurrou umedecendo os lábios com a língua e automaticamente ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. – Agora eu entendo.. E eu.. eu sinto tanta a sua falta. – Disse derramando as incansáveis lágrimas. – Queria que tudo fosse diferente entre a gente, mas.. Deus sabe o que faz. – Demi fechou os olhos e pode se lembrar da feição enigmática de Amélia sempre que a olhava.

– Eu estou com medo. – O ursinho de pelúcia estava envolto pelos braços da garotinha espremido contra o peito dela. Os olhos castanhos cheios de vida e inocência fitavam a mulher loira sentada ao sofá nos braços de um homem moreno e forte que sorria sugestivamente para a mulher. – Mamãe, eu estou com medo. – A voz indefesa da pequena Demi soou pela sala despertando a atenção dos dois adultos. Dianna se levantou num pulo, os olhos bem delineados estavam cerrados e a feição da mulher não era nada boa. – Está chovendo. – Sussurrou Demi como se justificasse o fato de estar acordada àquela hora da noite e ainda por cima implorando por um pouco de carinho da mãe.

   - O que você está fazendo fora da cama? – Esbravejou Dianna largando o copo de whisky e caminhando furiosamente na direção da pobre menina. – Eu já disse que não é para você me perturbar pestinha. – O rosto ardeu como uma queimadura quando os dedos de Dianna se chocaram contra o rosto delicado, a gargalhada masculina preencheu a sala e o pequeno coração da menininha saltou no peito.

   - Dianna! – Por um pouco o outro lado do rosto de Demi não ficou vermelho. Amélia, que havia acabado de chegar, segurou o braço da filha e lançou a ela um olhar severo que a pequena Demi não entendeu, mas foi o suficiente para que ela agarrasse a perna da avó e olhasse para cima com os seus olhos encantadores de menina completamente marejados. – É só uma criança. – Disse Amélia engolindo em seco ao ver a aquela criaturinha encolhida em sua perna. – Você não quer perder um dos seus melhores clientes. – Disse a Dianna que assentiu respirando fundo e lançando um olhar mortal a Demi. – Vou levá-la para a cama, faça o que for necessário, nós precisamos de dinheiro. – A pequenina não soube o que fazer quando a avó lhe ofereceu a mão, estava apenas assustada com a repentina atenção que havia recebido em pouco mais de cinco minutos, mas acabou agarrando a mão da avó que a guiou para longe daquele cômodo.

   - É o papai? – Perguntou a menina se lembrando de flagrar a mãe sorrir para o homem e beijá-lo antes de Amélia levá-la para o quarto.

   - Você tem que dormir, a escola começa amanhã cedo. – A menina franziu o cenho e bocejou cansada e assustada demais para insistir em perguntar sobre o pai. A escola tinha sido um sonho para a pequena Demi que iria se realizar na manhã seguinte graças a Amélia que tinha um amigo que havia conseguido encaixar a pequenina na primeira classe infantil... Claro, Demi não podia ficar sem estudar e a vizinha assistente social infantil estava de olho em Dianna desde que a adorável Demi havia sido flagrada com algumas manchas roxas pelo corpo enquanto brincava no playground com as outras crianças. Amélia e  Dianna não precisavam de mais problemas.

   - Eu estou com medo. – Disse a menina quando Amélia a cobriu com a coberta e caminhou em direção ao interruptor da luz. – Porque a mamãe não dorme comigo, vovó? Eu estou com medo, está chovendo. – O coração quase saiu pela boca da pequenina quando o quarto de repente ficou escuro e a porta foi fechada.

   - Prometa que você vai ficar quietinha que eu passo a noite com você. – O sorriso nasceu no rosto da menina que assentiu balançando a cabeça quando a luz do abajur foi acesa e a avó se sentou a cama perto o suficiente para que Demi a abraçasse calorosamente e erguesse o seu rosto redondo cheio de sardas fofinhas.

   - Eu te amo vovó. – Mesmo a olhando com os olhos castanhos brilhando, Amélia não teve corajem de dizer que também a amava, abraçou a garotinha um tanto sem jeito, beijou-lhe a testa e lançou o seu olhar mais doce à pequena Demi que esboçou o sorriso mais lindo mesmo que faltasse um dentinho.

   - Eu também. – Sussurrou quando a menina já estava de olhos fechados e dormia serenamente.

A lembrança daquela noite foi um golpe duro. Demi pôs-se de joelhos diante do tumulo da avó e chorou descontroladamente, chorou tanto que a maquiagem negra de seus olhos derreteu e a ponta de seu nariz estava vermelha. Se havia alguém no mundo que ela desejava abraçar esse alguém era Amélia. Sentia tanta falta daquela mulher que havia sido uma péssima mentirosa durante todos os dias que lhe lançava olhares rudes e palavras negativas. Demi a amava porque sabia que por baixo daquele tanto de rancor e egoísmo Amélia a amava de verdade, caso não a amasse não teria a olhado daquele jeito tão doce como havia feito naquela noite.

   - Eu sinto tanta saudade vovó. – Disse num fio de voz limpando as lágrimas e se levantando. – Nunca vou deixar de amá-la. – As tulipas cor-de-rosa, as favoritas de Amélia, foram colocadas delicadamente ao lado do nome da mesma. – Prometo vir mais vezes. – Esboçando um sorriso triste, Demi limpou mais algumas lágrimas e começou a caminhar pela grama despreocupadamente vez fitando o céu nublado e as rosas em sua mão.

   - Demi! – A voz de Selena a despertou de seus pensamentos, Demi limpou as poucas lágrimas e alcançou à amiga e Ed que estavam a bons metros de onde ela estava.

   - Eu precisava visitar a vovó. – Disse assim que estava ao lado de Selena.

   - Tudo bem. – Selena a abraçou de lado e Demi retribuiu o abraço se sentindo mais calma e segura só por estar nos braços da amiga. – Está na hora de despedir do Jason. – Demi engoliu em seco ao entender o que Selena dizia. O coração quase saiu pela boca em desespero.

   - Não está tudo acontecendo muito rápido? – Comentou desvinculando do abraço de Selena para olhar para Ed.

   - Não há muito que fazer, o corpo foi examinado e a polícia já tem tudo que precisa. – Disse o rapaz fitando os olhos de Demi. – E o neto do Jason prefere assim. – Demi assentiu. Ela nem sequer podia imaginar como era perder uma pessoa amada para um assassino, mas ainda sim não entedia o porquê de tanta pressa.

   - Você está bem? Parece distante. – Perguntou Selena quando já se aproximavam do local onde Jason seria enterrado.

   - Não estou bem. E você? – Selena respirou fundo e negou balançando a cabeça. Não havia como estar bem, não depois de Jason ser assassinado e tudo estar uma bagunça na vida de Demi.
A pior parte estava simplesmente por vir. O silêncio era absoluto entre a multidão, apenas a voz do pastor quebrava o clima pesado e triste daquela tarde nublada nova-iorquina. Demi estava cabisbaixo ao lado de Selena, preferia estar perdida em seus próprios pensamentos a deixar a tristeza consumi-la. Logo que o pastor encerrou o discurso, as pessoas se aproximaram para jogar as suas flores para Jason e dizer as suas últimas palavras. Demi o fez tímida e quieta demais, jogou as suas rosas e disse adeus a Jason prometendo a ele que nunca se esqueceria de como ele tinha sido um amigo maravilhoso para ela. A pressa e a agonia eram tão grandes para sair dali que Demi puxou Selena pelo braço assim que a amiga se despediu de Jason, engraçado foi que nesse exato momento Jake Gyllenhaal começava o seu discurso, mas Demi já estava longe o suficiente para saber que o neto de Jason era o homem com que ela havia compartilhado a cama por duas vezes naquela mesma semana.


Hospital Central de Austin, Texas, 07:15PM.

   - Oh meu menininho.  – A voz embolada da velhinha soou. Quem olhasse para a pele branca e enrugada de Clara, pensaria que ela não passava de uma simpática e rude senhora de pouco mais de setenta anos de cabelo grisalho e que usava saiões. Mas Joseph sabia muito bem que a aparência não dizia um por cento do que as pessoas eram. O rapaz estava pálido, os lábios esbranquiçados e os olhos verdes não tinham o típico brilho inocente de sempre. Tudo fruto das vertigens de mais cedo. Joseph havia feito muito esforço enquanto trabalhava no celeiro da avó polindo as selas dos cavalos e limpando todo o feno. Agora ele estava deitado na cama de um hospital de Austin sobre os cuidados de médicos e da avó. – Como você se sente? – O rapaz fitou os olhos verdes da avó e esboçou um pequeno sorriso quando a velha Clara lhe segurou as mãos.

   - Eu estou bem. – Ele disse baixinho e tímido como sempre. Joseph sempre foi o mais tímido e isolado da família, ninguém sabia o que lhe passava na cabeça, a não ser Clara, quem o criou desde os pais do rapaz faleceram num terrível acidente rodoviário. Havia sobrado apenas o pequeno e assustado Joseph enrolado numa manta branca entre as ferragens do carro. Nem mesmo estando assustado o pequeno chorou, havia ficado quietinho nos braços de um bombeiro até que Clara e o falecido avô Marcus chegaram desesperados e arrasados com a notícia da morte da filha e de Antônio, o pai de Joseph.

   - Quero você longe do trabalho da fazenda, os seus primos cuidarão de toda aquela bagunça. – Ralhou a velha franzindo o cenho. – E nada de ficar naquele computador até mais tarde, você descansará durante toda a semana Joseph! – Ele queria responder a avó dizendo que não poderia ficar de repouso, pois ele tinha um voo marcado ainda para aquela noite em direção a Nova York, até porque não era todos os dias que alguém como ele conseguia ser chamado para trabalhar na Gyllenhaal Enterprise depois de quase seis meses de espera, mas Joseph engoliu em seco e piscou algumas vezes envergonhado quando flagrou a doutora Harley olhá-lo sobre os óculos de grau e sorrir genuinamente. Controle-se, controle-se. Pediu a si mesmo mentalmente. Ele não era bom com as pessoas, definitivamente não era bom. Era tímido, ficava tão nervoso quando estava com algum desconhecido que começava a gaguejar e derrubava as coisas caso estivesse praticando alguma tarefa.

   - Foi apenas a pressão que estava alta demais, senhora Jonas. – A mulher disse caminhando sobre os seus sapatos de salto até que estava próxima de Clara e Joseph. – O nível de glicemia está normal, o senhor não está tomando os remédios para controlar a pressão? – Diabetes e a hipertensão faziam parte de Joe desde muito cedo. A hipertensão era herdada dos pais e a diabetes estava no gene e se desenvolveu na adolescência do rapaz.

   - Es..estou. – Ele disse envergonhado quando a médica se sentou na beirada da cama para lhe aferir a pressão. – Estava muito quente. – Joseph não havia gaguejado, mas o rosto estava quente e ele fitava o próprio braço sendo envolvido pelo manguito e as mãos delicadas da médica tocando os seus músculos.

   - Nessa época do ano os termômetros estão para explodir. – Comentou a médica olhando para Clara e assim que olhou para Joseph, ela tornou a sorrir encantada com a beleza do rapaz e voltou à atenção para verificar a pressão. Por conta da hipertensão e do diabetes, Joseph vivia uma vida limitada e seguida de regras. Não eram todos os alimentos que ele poderia comer, ele tinha que tomar insulina todos os dias e visitar o consultório médico frequentemente. A melhor parte eram as atividades físicas que ajudavam bastante a melhorar o aproveitamento na glicose nos músculos, diminuía a dose dos medicamentos e prevenia futuros problemas associados ao diabetes.

    - Está tudo normal? – A avó de Joseph perguntou preocupada e de orelha em pé em relação a aquela médica que não tirava os olhos de seu neto.

   - A pressão está voltando ao normal, você está liberado, mas se estiver se sentindo mal para passar essa noite em casa nós o manteremos aqui sobre observação. – A moça puxou o velcro do manguito liberando o braço do rapaz e o olhou profundamente quando Joseph ocasionalmente a olhou.

   - Ele está tão pálido, você prefere passar a noite aqui ou em casa Joseph? – Clara perguntou levando as mãos ao rosto do rapaz como quem verifica se há elevação de temperatura corporal.

   - Em casa. – Joe sorriu timidamente ao olhar para avó que o olhava toda preocupada.

   - Uma maçã fará mal? – Clara perguntou a médica.

   - Claro que não, frutas são sempre bem vindas. – Joe se viu completamente tenso quando a avó prometeu que buscaria uma maçã para ele e disse que quando voltasse arrumaria as coisas para levá-lo para casa. O problema era: porque a médica não acompanhou a sua doce avó para fora do quarto?

Com toda a coragem do mundo Joseph se levantou e mesmo envergonhado demais para fazê-lo, ele guardou os pertences dentro da mochila e corou ao buscar pelas peças de roupa que teria que vestir assim que descartasse a roupa do hospital.

   - A sua avó é um amor. – Umedecendo os lábios, o rapaz pegou os óculos de grau sobre o criado-mudo e assentiu sem saber como pediria licença para trocar de roupa. Por que as mulheres sempre agiam com ele daquela forma? Pareciam selvagens e descontroladas, já ele ficava nervoso e não sabia reagir a elas. – A gente podia marcar para sair, que tal amanhã à noite no meu apartamento? – Joe arregalou os olhos, coçou a nuca e quase derrubou o abajur de tão nervoso que estava. – Não precisa ficar nervoso, é só um jantar. – A doutora Harley era realmente bonita com seu cabelo loiro e olhos azuis, mas Joseph tinha sérios problemas em se relacionar com mulheres, nunca dava certo porque ele nem sequer se permitia tentar.

   - Eu.. eu.. Estou a caminho de Nova York. – Ele disse engolindo em seco e arrumando os óculos de grau ao rosto ao perceber a proximidade da mulher.

   - Quando você voltar, o que acha? – As mãos dela estavam no peito dele! Foi o suficiente para que o rapaz quase tivesse um colapso de nervos.

   - Eu não sei. – Joseph desviou a tempo dos lábios da doutora Harley selar os seus, o beijo acidentalmente acertou a bochecha do rapaz que se atrapalhou todo deixando a mochila cair no chão junto aos óculos de grau.

   - Joseph?– Clara surgiu no quarto trazendo consigo uma maçã e biscoitos integrais. – Você ainda não se vestiu? – Negando balançando a cabeça, Joseph pediu licença e caminhou para o banheiro do quarto a passos largos.

   - Oh meu Deus. – Ele sussurrou assim que fechou a porta do banheiro. Por que ele sempre ficava nervoso daquela forma? Deus! Ele era normal, bonito e tão inteligente. Franzindo o cenho e olhando-se no espelho o rapaz engoliu em seco e desfez da roupa do hospital para vestir as suas calças jeans desajeitas, a sua camisa xadrez larga demais e penteou o cabelo escuro e liso. Ele tinha vinte e dois anos e mal sabia conversar com uma mulher e nunca, nunca mesmo havia beijado uma. – Calma Joseph. – Respirou fundo algumas vezes e finalmente abriu a porta do banheiro para encontrar a avó sozinha no quarto.

   - Está tudo bem querido? – Clara perguntou quando o rapaz se aproximou aliviado.

   - Está, eu só quero ir para casa. – Disse Joe sem gaguejar ou qualquer constrangimento.

***

Fazenda Jonas, Marble Falls, Texas – USA, 10:30PM

Durante todo o caminho para a fazenda que ficava pouco mais de três horas e meia de Austin Joe preferiu ficar calado no banco do carona observando o céu escuro e as estrelas que brilhavam nele. Como ele explicaria para a avó que estava de partida para Nova York? Há dois dias havia recebido um email da Gyllenhaal que dizia que ele havia sido selecionado para trabalhar na empresa. E que ele queria muito ir para Nova York conhecer gente nova e quem sabe até se socializar com elas... Quando chegaram à fazenda, Joe foi estranhamente recebido com o calor da preocupação das tias que perguntavam a todo momento se ele estava bem e os seus primos não deixaram de zoá-lo e fazer piadas constrangedoras.

   - Joseph? – Debruçado sobre o parapeito da varanda do quarto, Joseph continuava a fitar o céu e admirar as três estrelas que brilhava mais entre todos aqueles pontinhos brilhantes. Ele sempre foi um grande fã das Três Marias porque a avó havia contado a ele que todas as noites Antônio, o seu falecido pai, o punha no colo e dizia que aquelas três estrelas representavam ele, o pequeno Joseph e Juliana, a sua mãe e que um dia elas representariam a família que ele formaria com a mulher que amasse. E desde então sempre que as olhava antes dormir Joseph pensava em seus pais e como ele queria que eles estivessem vivos.

   - O que foi Rose? – Ele perguntou sem sequer olhar para trás para encontrar a sua prima emprestada se aproximar e se debruçar como ele sobre o parapeito da varanda.

   - Eu fiquei preocupada. – Rose deitou a cabeça no ombro do rapaz e aproveitou para beijá-lo na bochecha sem despertar o Joseph atrapalhado e nervoso. Rose era seis anos mais nova que Joseph e completamente apaixonada por ele, porém o rapaz só a considerava como uma boa e velha amiga e a única mulher que não o deixava atrapalhado e constrangido.

   - Todos ficaram. – Joseph a olhou e beijou-lhe a testa demonstrando carinho e respeito.

   - Você está pensando nos seus pais? – Rose perguntou minutos mais tarde observando como Joseph era bonito e diferente de todos os homens que ela já havia conhecido, porém ele não a olhava, continuava a fitar as três estrelas como fazia todas as noites.

   - Também. – Tirando os óculos de grau, Joseph os limpou na barra da camisa de algodão e olhou para a prima.

   - Eles estão te protegendo. – Joseph assentiu engolindo em seco e abraçou a menina de lado. – Eu estava pensando.. Esse é o meu último ano no colegial. – Tomando coragem, Rose respirou fundo e fitou os olhos verdes com os seus negros. – Você quer ser o meu par no baile de formatura? – Joseph arqueou as sobrancelhas em surpresa e desviou o olhar da menina. – Tudo bem, você não quer, eu.. eu.. Eu vou perguntar ao Matt se ele quer ir comigo. – Rindo do desespero da prima que já desfazia do abraço, Joseph assentiu, mas Rose não viu pois estava ocupada demais pensando no porquê que Joe não a amava como ela queria.

   - Eu vou com você. – Ele disse para a surpresa da menina que sorriu de orelha a orelha e o abraçou.

   - Obrigada, obrigada! É por isso que eu te amo tanto, você é o melhor amigo que toda garota deveria ter. – No final das contas Rose corou, arrumou as mechas do cabelo escuro atrás das orelhas e a pele branca assumiu um leve tom rosado. – O que foi? Você não quer ir? – A menina perguntou quando percebeu que Joe parecia desanimado.

   - Eu vou para Nova York, Rose. – Joseph disse se sentindo culpado por ter que deixar a avó e Rose, ele sentiria tanta a falta delas.

   - Tudo bem, a formatura é daqui a seis ou cinto meses, você não vai ficar seis meses em Nova York Joseph. – Rose forçou uma risada, mas franziu o cenho diante da feição séria de Joseph.

   - Eu vou trabalhar lá, o meu voo é dentro de poucas horas.

   - Não é possível que Nova York te sobrecarregará a ponto de você não ter um dia livre para ficar comigo. – Resmungou a menina cruzando os braços sobre o peito. – Tem a faculdade, e as aulas de geometria? Você é o melhor professor substituto da escola. E eu pensei que você estava me ensinando a ordenhar o leite da Kelly, você definitivamente não pode ir para Nova York. – Joseph riu do drama da prima ao citar Kelly, uma das vacas da fazenda da qual usava para ensinar Rose a ordenhar o leite. Era uma pena que ele já havia descoberto que Rose já sabia ordenhar o leite de uma vaca há muito tempo e que ela fingia não entender nada do que ele estava falando só para que eles ficassem mais tempo juntos.

   - Os meus estágios acabaram e eu já tenho o meu diploma Rose. – Joseph sorriu ao ver a carranca da menina e a abraçou de lado. – O Derick pode te ajudar a ordenhar o leite da Kelly. – Ao escutar o nome de Derick, Rose cerrou os olhos e balançou a cabeça em descrença.

   - Você sabe que eu não o suporto! Nada contra homossexuais, mas o Derick é o mais chato que eu conheço de norte a sul, de leste a oeste. – O rapaz riu e sentiu o peito apertar de uma saudade completamente precipitada.

   - Você e ele são os meus melhores amigos, vou sentir tanta a falta de vocês. – Novamente Joseph fitou o céu e suspirou.

   - Amigos.. – Joseph fechou os olhos por alguns segundos e quando os abriu eles sustentavam o olhar intenso de Rose.

   - Um dia você vai encontrar um homem que vai te amar como você merece. – Ele disse sabendo que não poderia simplesmente ignorar os sentimentos de Rose como sempre tentava fazer.

   - Eu queria tanto que esse homem fosse você. – Disse a menina suspirando com pesar e abraçando o corpo de Joseph até que sentiu que o frio havia passado.

   - Eu te amo, mas não dessa forma Ro. – Joseph sorriu para a menina lhe acariciando as bochechas.

   - Por quê? Eu vou crescer e virar uma mulher. – Joseph arqueou as sobrancelhas, mas riu assentindo.

   - Eu sou seis anos mais velho que você, eu te vi nascer e te segurei no colo quando você era bebê. – Rose suspirou e abraçou mais o corpo de Joseph. – Você é a irmã que eu nunca tive. – Ele concluiu abraçando a menina com todo carinho que tinha por ela.

   - Vou sentir a sua falta, esse lugar não será o mesmo sem você. – Tornando a olhá-la nos olhos, Joseph lhe beijou a testa e confortou a prima nos braços.

   - Rose, está na hora de ir para casa. – Apenas assentindo para a mãe de Rose, Joseph deixou que Rose o beijasse no rosto e o abraçasse calorosamente desejando a ele um boa sorte choroso.

   - Eu também vou sentir a sua falta. – Joseph disse assim que a prima o deixou sozinho com as estrelas, e quando ele fitou as três Marias, um sentimento forte lhe passou pelo peito como se algo bom fosse acontecer. Só era uma pena que Joseph não ligava a TV ou acessava a internet nas praticamente vinte e quatro horas em que Jason Gyllenhaal, o homem que o chamou para trabalhar, estava morto e enterrado.

***

Top of the Rock, Manhattan, Nova York – USA, 10:49PM

O dia não tinha sido nenhum pouco fácil para Demi. O enterro de Jason tinha sido tão desgastante, mas tudo poderia piorar, e foi o que aconteceu. Quando chegou ao apartamento complemente exausta debaixo da chuva violenta junto a Selena e Ed, Demi teve que enfrentar a fúria de Dianna que a esperava impacientemente. Havia estado tão envolvida que não tinha depositado o dinheiro da mãe, e estava tão nervosa que foram notas há mais para a conta de Dianna, mas não era nada que ela se importava, era melhor ter paz de espírito que alguns dólares.

   - Você sabe mesmo montar essa coisa? – Agora na cobertura do GE Building a toalha xadrez estava estendida com a cesta de piquenique estava sobre ela. Demi estava deitada de qualquer jeito sobre a toalha. Ora fitava o céu limpo depois da chuva da tarde, ora fitava o visor do Iphone e ora fitava Selena e Ed que montavam o telescópio que o rapaz trouxera.

   - É claro que sei Selena. – Disse Ed um pouco impaciente com as perguntas que Selena lhe fazia para tentar deixá-lo sem graça e ir embora. Demi que observa tudo riu sozinha apostando que Selena e Ed acabariam ficando juntos.

   - Tudo bem, você sabe de tudo Jesse Eden Metcalfe. – Ironizou Selena mal humorada deixando Ed sozinho para se deitar ao lado de Demi. – Por que a gente deixou esse cara vim para o nosso lugar? – Pelo tom de Sel, Demi apostava que ela estava entrando na fase da TPM.

   - Por quê? Olha só para ele. – Disse Demi e Selena ergueu a cabeça e franziu o cenho ao fitar Ed trabalhar na montagem do telescópio. – Dá uma chance para ele, ou ao menos nos deixe relaxar por algumas horas Sel, foi um dia difícil e tudo que eu quero é descansar sobre a luz das estrelas. – Selena assentiu a contra gosto e não criticou quando Ed disse que o telescópio estava pronto.

   - Demi, por que você não vem aqui ver que essa coisa funciona de verdade? – Demi riu da careta de Selena e se levantou depois de beijar a amiga na bochecha apenas para pirraçá-la. – Você poderia hum.. fingir que está envolvida demais com as estrelas? Eu queria um tempo com a Sel. – Demi arqueou as sobrancelhas e levou as mãos à cintura.


   - Ela está de TPM, se você tentar beijá-la é capaz dela fazer um escândalo. – Disse Demi esboçando um sorriso zombeteiro. – Estou brincando, ela é a minha irmã, se você pisar na bola com ela, eu vou te quebrar no meio, ouviu? – Demi não brincava, Ed lhe apertou a mão e ela o observou caminhar até Selena que revirou os olhos, mas não expulsou o rapaz da toalha xadrez. Tudo bem, ela não os vigiaria, Demi caminhou até onde o telescópio estava montado e olhou pela lente. A imagem era desfocada, mas aos poucos Demi conseguiu ajustá-la e sorriu emocionada ao ver as estrelas de um modo bem diferente. Parecia mágica ou algo do tipo, mas era apena a beleza do universo. Demi apontou para vários lugares do céu e sorriu maravilhada ao encontrar as três estrelas mais brilhante da constelação de órion. As três Marias. Eram tão bonitas e brilhantes, Demi não conseguiu deixar de fitá-las por bons minutos sentindo o coração acelerar.


Continua.. Para quem queria o Joe, olha ele ai a caminho de NY.. E teve um momento "Jemi", os dois estavam vendo as três marias ao mesmo tempo se quiserem saber... hehe. Gente, demorou para o Joe aparecer, mas foi necessário.. Espero que vocês gostem do capítulo e eu peço desculpas pela demora, confesso que eu não tinha muita ideia do que fazer, mas eu tive várias ideias enquanto escrevia a parte do Joe no começo dessa semana. Obrigada pelos comentários do capítulo passado, vou respondê-los no próximo post, beijos!

3 comentários:

  1. nossa coitada da demi, só sofre :(
    achei que ela ia descobrir que o Jake é neto só Jason fui otaria
    o ed eu achei que era o ed sheeran bsmsnsks
    esse enterro foi doloroso, estou sofrendo
    falando em sofrer eu sofri a semana toda esperando pelo capítulo
    eu amo a maneira que você escreve e da todos os detalhes, parabéns ❤
    poste logo, mocinha.
    bjsss

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  2. awnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn, que lindo... Amei o capítulo e estou ansiosa para o próximo

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  3. Aeeee Joe chegouuu sambando na cara da sociedade -yn ta parei jdjdjd
    Genteee só eu achei o Joe tão fofinho sendo tímido? Da vontade de guardar num potinho de taaaao amorzinho que ele ta aí *----*
    Concordo a Demi só sofre a coitada mas ela ainda vai ser muicho feliz eu espero
    Jasoooon se foi e agora como fica? :(
    Postaaa logo amando essa historia

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