1.3.16

Capítulo 5 - Jantar


Dormir era tão bom, não era à toa que o sono era considerado uma das melhores coisas do mundo. Era recarregar a bateria para que o corpo pudesse trabalhar novamente. Apesar da cabeça pesada, dos olhos inchados e da mente confusa, Demi havia tido uma boa noite de sono. Apagou nos braços de Selena por toda a noite e os sonhos não foram ruins, porém também não foram bons. Na maioria das vezes os sonhos de Demi eram uma terrível confusão, nada que a deixasse com a pulga atrás da orelha. Agora estava acordada fitando a parede do quarto como se ela fosse a coisa mais interessante de todo o mundo. Os pensamentos pareciam congelados e absolutamente nada lhe passou pela cabeça enquanto fitava a parede, até que o barulho do relógio sobre a mesa despertou a sua atenção. O relógio sempre fazia barulho quando marcava uma hora inteira ou quando faltava meia hora para um próximo horário. Cinco e meia da manhã. Deveria ser a primeira vez que Demi acordava naquele horário, um verdadeiro milagre. Geralmente o despertador tocava às sete da manhã e Demi só se levantava as sete e quarenta e cinco. Mas lá estava ela acordada às cinco e meia da manhã. Faltava uma hora e meia para o despertador começar perturbá-la. Agora uma hora e vinte e nove minutos.. Demi fechou os olhos e tentou dormir, mas não conseguiu, não quando Selena respirou fundo e ela tomou um susto ao perceber que tinha a cabeça deitada no colo da amiga. Pobre Selena! Deitada sentada, Selena estava sentada sobre a mão esquerda e a direita estava próxima ao ombro direito de Demi. O corpo estava gelado por conta da baixa temperatura da madrugada e Sel suspirava vez ou outra.

   - Sel. – Chamou se erguendo e a cabeça pesou tanto que Demi franziu o cenho. – Selena. – Chamou mais uma vez e a amiga acordou assustada.

   - Dem? O que foi? Você está bem? – Perguntou Selena ainda sonolenta olhando para a amiga.

   - Estou bem. – Limitou-se a dizer. – Só deite direito. – Pulando para fora da cama, Demi caminhou em direção ao closet à busca de um travesseiro e um cobertor.

   - Obrigada. – Disse Selena assim que Demi lhe entregou o travesseiro e o cobertor que havia buscado no closet. – Você está bem? – Tornou a perguntar quando Demi se deitou ao seu lado abraçando o travesseiro e se cobriu com o cobertor.

   - Só estou cansada e minha cabeça está muito pesada. – Disse fitando os próprios dedos. – Vamos dormir, ok? Nós temos trabalho mais tarde. – Selena assentiu se acomodando a cama de Demi. Agora estava explicado o porquê que a amiga tinha uma tremenda dificuldade para acordar. A cama era macia e muito confortável. Quando Selena se esticou pronta para voltar a dormir e fechou os olhos, Demi fez o mesmo, porém quem disse que ela tinha sono? Deus! Eram cinco da manhã! Ela tinha que dormir mesmo que não tivesse sono, caso contrário seria horrível passar o dia com sono e mal humorada. Resmungando, Demi se virou, abraçou o travesseiro e fechou os olhos. Tudo bem, ela era uma verdadeira mestre em dormir, mas porque não estava funcionando? Desistindo dez minutos mais tarde, Demi levou a mão ao criado-mudo ao lado da cama à busca do celular. Uma porrada de snaps e muitos likes masculinos no instagram. Quando a Gyllenhaal lançava os seus produtos no mercado, eles montavam uma premie e quem palestrava a respeito dos produtos era Demi acompanhada de Jason. Juntos, os dois davam um verdadeiro show, muito divertido e engraçado, para as pessoas que os assistiam e a maioria dessas pessoas eram homens, garotos e garotas fanáticos por tecnologia. E como Demi era bonita demais e tão fanática por games, design, séries e entendia muito de outras áreas daquele mundo, segundo os homens, ela era perfeita demais para existir. Ao menos em alguma coisa ela era boa..

   - Não consegue dormir? – Perguntou Selena a assustando quando repousou o queixo em seu ombro.

   - Definitivamente não. – Demi respirou fundo gostando do carinho que a mão de Selena fazia em sua barriga e ela abriu a nova mensagem de Jake do dia passado.

“Hm.. O que você está fazendo? Estou tão entediado e sozinho. O programa de culinária é tão chato, ao menos aprendi a preparar um macarrão incrível. Topa experimentar o melhor macarrão do mundo – juro que não vou decepcioná-la – e tomar um delicioso vinho comigo? Estou ansioso para encontrá-la. Jake.”

   - Não vai respondê-lo? – Perguntou Selena sorrindo ao ver o pequeno sorriso de Demi. – Ele está muito interessado. Nenhum cara costuma enviar mensagem, e você já recebeu duas mensagens dele. – Demi ponderou a ideia de responder a mensagem de Jake, mas então pensou em que não seria uma boa ideia, primeiro porque ela não estava à procura de um relacionamento, se apaixonar e todas as coias que vinham com um cara como Jake e segundo: ela não sentia vontade de estar com ninguém, não sentia vontade de viver, de casar, ter filhos e traumatizá-los como tinha acontecido com ela.

   - Eu não sei. – Disse num suspiro. Ela não podia suportar a ideia de ter um relacionamento por mais que quisesse muito um. Alguns homens, sem generalizar, mentiam, traiam e usavam as mulheres como o homem que a gerou fez com Dianna, e pior, eles abusavam de suas parceiras mesmo num relacionamento. E se Jake fosse como um desses homens? Talvez fosse exagero pensar tamanho absurdo dele, ele tinha sido fantástico na noite passada, havia a salvado do rapaz que queria abusá-la, tinha bebido com ela e tinha sido um dos melhores caras com quem Demi já tinha compartilhado a cama. Mas um relacionamento era algo muito grande.. E o que Jake pensaria quando ela contasse a ele tudo sobre a vida?

   - Demi, você está bem? – Selena perguntou se erguendo e Demi se virou ficando deitada de barriga para cima.

   - Sinceramente? Eu não sei. – Disse fitando o teto. – Até o domingo antes dela aparecer a única coisa que eu queria era dormir com um cara muito gostoso que enviaria mensagem no dia seguinte perguntando se a gente podia fazer alguma coisa. Então o nosso relacionamento cresceria ao poucos, sabe? Com alguns meses a gente se apaixonaria, brigaria por bobeiras, transaria apaixonadamente nos lugares mais improváveis e finalmente eu diria a ele que o amava e ele diria que também me amava. A gente se casaria, nada muito exagerado, teria uma lua de mel muito divertida e com muito sexo, alguns anos depois eu descobria que tinha um pequeno ser crescendo no meu ventre, nós duas surtaríamos com típicos gritos e danças ridículas, o meu bebê nasceria assim como muitos outros. Nós viveríamos numa casa bem grande com muitas crianças bonitas e cães. – A lágrima solitária rolou pelo rosto bonito de Demi e o coração dela se espremeu no peito com dor. – Mas eu não sei administrar toda essa situação.. O Jake é maravilhoso, ele me salvou de um cara que tentou me drogar no pub. Mas eu não posso usá-lo e depois descartá-lo como um objeto. É claro que ele quer mais que sexo, eu só não sei se eu posso dar a ele mais que isso e se há espaço na minha vida agora para ele, não depois de tudo. – Demi nunca conheceu um homem que não mentisse ou um que não tentasse enganá-la. A prova disso eram os namoros mal sucedidos por conta de mentiras e traições e agora o único homem que ela tinha esperanças de amá-la de verdade era um monstro. Jake estava em sua vida não tinha mais que quarenta e oito horas e ele tinha sido o melhor de todos. Não a julgou quando a viu beber, não a queria como uma propriedade, não a tratou como uma pobre menina indefesa que não podia se comportar como alguém livre e com vontades, em momento algum ele a criticou ou a ridicularizou, ele a fez se sentir livre e protegida.

   - Você está certa, você não pode usá-lo. – Disse Selena olhando para os olhos da amiga. – Mas você precisa organizar os seus sentimentos e os seus objetivos, você é tão jovem e inteligente, há tantas coisas ainda para viver. Nós vamos superar essa história juntas, você não tem culpa Dem, não tem e eu prometo que tudo vai ficar bem. – Automaticamente as duas se abraçaram e Selena sorriu ao ver o sorriso lindo da amiga nos lábios.

   - Você fala como se você fosse uma velhinha. – As lágrimas rolaram mesmo com o sorriso em seus lábios, Demi ainda se sentia péssima, mas saber que Selena estava ao seu lado eliminava uma boa parte da tristeza que a consumia.

   - Sou vinte e nove dias mais velha que você e a única que tem juízo. – Selena tinha Demi nos braços e sorria observando os olhos marrons da amiga tão brincalhões quanto os seus.

   - Você é muito chata, isso sim! – Demi riu, mostrou língua e tornou a abraçar Selena como se nela encontrasse forças e apoio e novamente as lágrimas estavam lá molhando o seu rosto e a camisa de Selena.

   - O Jake, como ele te fez sentir? – Perguntou Selena dez minutos mais tarde enquanto brincava com os cabelos lisos de Demi que estava quase dormindo adorando o carinho que recebia.

   - Ele me fez gozar muito. – Brincou, mas logo estava séria sentindo como seria duro confiar novamente em um homem. – Não fui ao pub encontrar um cara, eu só queria esquecer de alguma forma. Beber e dançar pareciam boas opções, beijei alguns caras e confesso que não tenho ideia do porque eu o fiz. Então ele apareceu. – Disse num suspiro. – Tinha um estrangeiro, britânico eu acho, conversando comigo, ele era simpático e tinha um bom papo. O Jake estava sentado em um dos bancos do bar e eu senti o olhar dele sobre mim durante toda a noite. John, acho que esse era o nome do rapaz, ou era Johnny, tentou colocar alguma coisa na minha bebida durante a nossa conversa, mas o Jake não deixou, ele apareceu do nada e me salvou. – Selena capturou o pequeno sorriso de Demi e sorriu também. Ela mal havia visto esse tal de Jake, mas já gostava muito do rapaz só porque ele fazia Demi sorrir. – Eu me senti segura com ele por mais que eu tenha sido uma idiota e não o agradeci como deveria. Geralmente os barmans deixam que caras nojentos como o Jorge drogar mulheres inocentes, até mesmo outros homens e mulheres contribuem para essa.. coisa. Mas o Jake. – Outro suspiro e Selena soube que a possibilidade de Demi gostar do rapaz era muito grande. – Ele me salvou, me ajudou a distrair e fez amor comigo a noite to..

   - Quem é Jorge? – Interrompeu Selena de cenho franzido.

   - John, Johnny ou Jorge, sei lá. – Resmungou Demi. – Eu só dormi com o Jake por isso Sel, de alguma forma eu senti que podia confiar nele e o deixei se aproximar, e aconteceu. – Selena assentiu pegando o celular de Demi para ler mais uma vez as mensagens de Jake.

   - Quem sabe ele não é diferente? – Disse depois que leu a primeira mensagem e depois a outra. – E eu já disse: você é uma mulher muito especial. O que aconteceu no passado não tem como consertar Dem, mas você pode fazer tudo de um jeito diferente na sua vida. O que importa não é o que fizeram com você, é como você vai aplicar isso na sua vida. Pense melhor, e se for preciso talvez até.. – Selena a olhou de cenho franzido e suspirou não acreditando no que diria. – Converse com a sua m..mãe, reflita sobre tudo que você viveu até esse último segundo, e não se culpe independente do que a Dianna disser, você é tão vítima quanto ela. – Curvando-se, Selena depositou um beijo carinhoso na testa da amiga e limpou as novas lágrimas que rolavam pelo rosto bonito de Demi. – Quem sabe o Jake seja o cara? Só cabe a você, minha menina bonita, a decidir a sua felicidade, eu te amo Dem. – Trocando olhares confidentes como as irmãs de vida inseparáveis que Selena e Demi eram, as duas se abraçaram e em meio a muita brincadeira boba por mais triste e desanimada que Demi estivesse, elas acabaram dormindo pelo resto de tempo que tinham até que o despertador de Demi começou a maratona de sons irritantes até que elas estavam de pé.


***


“Mil desculpas por não respondê-lo na noite passada, acabei dormindo, estava muito, muito – culpa sua – cansada. Sim! Eu..”. Quieta na cadeira giratória, o que era um milagre, Demi tinha o celular em mãos e estava a mais de meia hora tentando escrever alguma mensagem para Jake, porém sem sucesso. Jake queria que ela o encontrasse, mas ela não sabia se poderia encontrá-lo e receber todos os beijos deliciosos dele, o abraço reconfortante, os bonitos olhos azuis fitando os seus.

“Mil desculpas por não respondê-lo na noite passada, acabei dormindo. Eu estava muito, muito – culpa sua – cansada. Sim! Eu adoraria comer o seu maravilhoso macarrão e tomar uma pequena quantidade de vinho visto que eu, juro, que nunca mais vou beber novamente. Ou nós podemos marcar outra coisa se você.. hum.. já fez o seu “maravilhoso” macarrão e descobriu que ele não é comestível, foi você quem disse que não sabia cozinhar! Estou brincando, eu adoraria encontrá-lo Jake, a nossa noite foi realmente muito boa, não mais que a sua companhia. Demi”.

Era só clicar em enviar. Demi comprimiu a boca numa linha e o rosto assumiu a expressão raramente séria. E se ela estivesse se metendo numa enorme furada? Não era melhor deixá-lo para lá quieto e entediado nas férias que ela sonhava em ter? Eram tantos problemas e tantas coisas na cabeça, a tarde sentada a cadeira giratória tinha sido dura, Demi havia trabalhado em tantos relatórios, e aquelas malditas pastas que Selena havia deixado em seu escritório no dia passado estavam carregadas de problemas que só alguém como ela dentro da empresa poderia resolver, o que era uma verdadeira dor de cabeça já que Demi tinha que fazer uma série infinita de ligações e mandar muitos, muitos mesmo, emails para clientes e fornecedores.

   - Essa cara.. – Disse Selena a estudando assim que adentrou o escritório da amiga sem bater à porta. – Você tem certeza que o Jake te fez gozar muito? – Disse apenas para provocá-la como elas sempre faziam. – E por que você não está girando como um menino selvagem lambão nessa cadeira idiota? Pelo visto a minha irmã melhor amiga vinte e nove dias mais nova que eu amadureceu. – Selena se aproximou esperando Demi atacá-la com alguns tapas e respostas afiadas, mas tudo que ela fez foi suspirar. – Nossa, você está realmente muito chata. – Dessa vez foi Selena quem suspirou frustrada. – Dem.. – Começou a dizer puxando uma cadeira para que pudesse sentar ao lado da amiga. – Eu sei que essa história dos seus pais é muito séria, mas não adianta ficar se remoendo de tristeza. – Demi a olhou pela primeira vez desde que a amiga pisou em seu escritório e observou como os cabelos de Selena lisos com lindas curvas e castanhos ficavam ainda mais bonitos com toda a luz do sol que adentrava a sala. Selena era um pouco mais alta que ela, era magra, morena e dona de olhos castanhos hipnotizantes.

   - Eu sei, Sel. – Disse colocando uma mexa do cabelo castanho atrás da orelha. – É que eu me sinto tão mal, como uma carga indesejada. – Comentou rapidamente fechando os olhos e cobrindo o rosto com as mãos. – Eu não sei como responder a mensagem do Jake. – Disse rápido demais e Selena pegou o celular sobre a mesa.

   - Eu amo você, olhe pelo lado bom. – Tudo bem, Selena sabia que as tentativas para arrancar sorrisos de Demi estavam indo de mal a muito, definitivamente muito, pior. – Eu não estou ajudando. – Murmurou deitando a cabeça no ombro de Demi, que assentiu forçando um pequeno sorriso. – Ao menos você sorriu. – Disse Selena começando a ler a mensagem de Demi para Jake.

   - Eu não me sinto segura com você. – Disse Demi do nada e Selena se levantou num pulo. – Own, você é fofa, mas eu suspeito que você seja pelo menos noventa por cento lésbica. – Selena fez careta e revirou os olhos se agarrando mais a amiga para terminar de ler a mensagem.

   - Talvez eu só goste muito de você, chata. – Resmungou observando que Demi ainda não tinha enviado a mensagem para Jake. – Dem, você não vai enviar? – Perguntou Selena a olhando e Demi fez careta.

   - Eu não sei. – Murmurou entre dentes. – Eu estou traumatizada o suficiente para não querer um relacionamento com um cara, os chifres pensam Selena. – Resmungou com desgosto e Selena riu desacreditada. – Pensei que eu poderia transar com ele, tipo o Justin Timberlake e a menina lá que eu esqueci o nome em amizade colorida, claro, sem a parte que eles se apaixonam e a Time Square. – Selena a analisou dos pés a cabeça mesmo sentada e Demi arqueou as sobrancelhas a olhando.

   - Você vai precisar de um bom bronzeado para parecer a Natalie Portman, você está mais para o Gasparzinho. – Demi cerrou os olhos e os revirou com vontade porque sabia que Selena odiava quando ela fazia aquilo e cantarolou mentalmente “Keep, keep bleeding luv”.

   - Não é a Natalie Portaman! – Disse Demi como se fosse o maior absurdo. – É a Mila Kunis. – As duas reviraram os olhos e Demi se permitiu rir. – Enfim, eu pensei que eu poderia encontrar um cara legal, mas Sel, acredite ou não, eu não me sinto a vontade com a ideia de transar. – Selena mordeu o lábio inferior, franziu o cenho e fitou os olhos marrons de Demi que carregavam culpa e medo.

   - Uau, você não querer transar é a coisa mais estranha do mundo. – Comentou Selena com certo espanto fitando a mesa de vidro sempre organizada de Demi com blocos de notas coloridos, uma caneca branca com estampa de corações cheia de canetas coloridas, lápis e marca-textos, o notebook ligado com o projeto atual que Demi trabalhava e à direita, alinhado ao notebook, estava uma pilha de documentos que certamente Demi estudaria mais tarde. – Talvez.. – Ponderou pensativa. – Não há nada demais na sua mensagem, Dem. Vocês podem se encontrar, conversar um pouco, distrair sem necessariamente ter sexo envolvido. Quando aconteceu tinha álcool em suas veias e nas dele, agora é diferente. Não acho que fará algum mal a você, e é até bom, as meninas estão comentando que você está diferente, e realmente, toda vez que te espio pelas persianas você está distante, séria e triste. – Selena observou os longos e espessos cílios de Demi tremerem quando a dona deles piscou repetidas vezes e lançou o olhar para baixo brincando com os dedos nas pulseiras que usava no pulso esquerdo.

   - Eu só estou confusa. – Disse levantando o rosto para fitar os olhos da amiga. – Muita coisa mudou na minha cabeça, estou tentando me acostumar, mas não é fácil. – Sem se importar se ficaria numa posição desconfortável, Selena envolveu Demi com os braços e a beijou no alto da cabeça sussurrando palavras doces.

   - Imagino que sim Dem. – Selena tornou a beijá-la no topo da cabeça e levantou arrumando a saia lápis no corpo. – Não quero que você pense mais nessa história por hoje, responda o rapaz e termine o seu trabalho mocinha, ainda faltam muitas horas para as cinco e meia. – Demi assentiu esboçando um pequeno sorriso e quando Selena a deixou sozinha, ela tornou a ler a mensagem e finalmente a enviou.


***


   - Não é um encontro. – A noite finalmente tinha chegado e Demi corria da cozinha para a sala, da sala para a cozinha de seu apartamento, e claro, Selena estava ao celular acompanhando mesmo de longe a agonia da amiga.

   - “Então porque você está arrumando a casa? Você nunca arruma a casa quando eu vou visitá-la.” – Questionou Selena do outro lado da linha enquanto Demi verificava se tinha tudo que precisaria na geladeira para preparar o jantar.

   - Você praticamente mora aqui, não preciso arrumar a casa para recebê-la. – Imaginando a careta engraçada da amiga, Demi colocou o celular sobre o balcão da cozinha colocando a ligação no viva-voz já que acabaria se machucando se continuasse a sustentar o celular com o ombro e a se mover agilmente pela casa. – E eu não estou arrumando a casa, só estou verificando se tenho tudo para o jantar. – Justificou-se finalmente fechando a porta da geladeira. Jake havia respondido a mensagem que ela havia enviado e eles passaram boa parte da tarde conversando via mensagens e como o rapaz queria muito encontrá-la, Demi não viu um por que para não convidá-lo para jantar em seu apartamento naquela noite. O que era bom já que Demi mal tinha tempo para pensar em Dianna e no homem que a gerou.

   - “Ele deve estar chegando, já são quase sete e meia.”. – Disse Selena indiferente e Demi riu pegando o celular para levá-lo para o quarto.

   - Nós podemos fazer uma noite do pijama aqui em casa, prometo que vou arrumar a casa para recebê-la. – Demi riu e tagarelou com Selena por exatos vinte minutos, o tempo em que decidia se ficaria com a roupa que havia vestido depois do banho ou se escolhia um de seus vestidos, mas como ela tinha combinado com Jake que seria um jantar em que os dois ficariam super a vontade, havia escolhido uma típica blusa, calças jeans e sapatos de salto. – Sel, ele chegou, vou desligar. – Disse assim que a campainha soou e quando pegou o celular viu que eram sete e meia da noite, hora que ela e Jake combinaram.

   - “Boa sorte Dem, divirta-se e qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você pode me ligar. Até amanhã, amo você.” – Despedindo-se de Selena, Demi guardou o celular no bolso, verificou o visual no espelho do closet e correu para abrir a porta um pouco nervosa.

   - Tudo bem. – Disse a si mesma respirando fundo e então destrancou a porta e a abriu. Uau. Jake era sem dúvida o cara mais bonito com quem Demi já tinha ficado. O suéter azul escuro abraçava todos os músculos do torso forte e os braços musculosos. As calças eram pretas e os sapatos também, o perfume dele era inebriante e o sorriso de tirar o fôlego.

   - Oi. – Automaticamente Demi mordeu o lábio inferior e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. Ele era demais para ela!

   - Oi! – Dando espaço para que Jake adentrasse o apartamento, Demi fechou a porta a trancando e com o coração a mil se virou. – Você está linda. – Demi pôs-se na ponta dos pés e levou as mãos à nuca de Jake para brincar com os fios de cabelo daquela região quando o braço forte dele rodeou sua cintura.

   - Você também, Jake. – Demi sorriu para ele, e ele sorriu para ela. Trocaram olhares intensos e finalmente se beijaram cheios de saudade um do outro. – Jake! – Ela ronronou entre o beijo ao sentir algo gelado tocando a sua cintura. – O que é isso? – Perguntou curiosa e Jake a soltou de seu abraço.

   - Vinho e chocolate. – Ele disse piscando para ela e Demi novamente ficou na ponta dos pés para beijá-lo na boca sussurrando nos lábios dele “obrigada”. – O seu apartamento é muito bonito. – Demi sorriu assentindo. Gostava do apartamento, tinha o seu gosto estampado e era muito confortável e espaçoso. – Você mora sozinha? – Perguntou enlaçando os dedos aos dela quando Demi o puxou em direção a cozinha.

   - Moro. – Puxando um banco para que Jake se sentasse, Demi foi à busca das duas taças que havia separado mais cedo e sorriu para o homem bonito que a olhava com admiração. – Está preparado para cozinhar o nosso jantar? – Perguntou repousando as taças sobre o balcão junto ao vinho e foi nesse mesmo instante que Jake a puxou para os braços.

   - É claro que sim! Você vai ter a honra de comer o melhor macarrão de todo o mundo. – Demi arqueou as sobrancelhas e riu de toda a animação de Jake que a segurava gentilmente pela cintura.

   - Você ao menos já cozinhou alguma vez na vida? – Perguntou Demi naquele velho e divertido tom brincalhão repousando as mãos nos ombros dele os massageando brevemente.

   - Bem.. – De sobrancelhas arqueadas novamente, Demi fechou os olhos ao receber beijos quentes em seu pescoço quando Jake a puxou mais para si. – Uma vez o macarrão instantâneo queimou, mas fora isso eu sei cozinhar muito bem. – Macarrão instantâneo. Demi se lembrou dos seus tempos de faculdade e do pequeno apartamento que dividia com Selena, por muitos meses elas se alimentaram daquele tipo de comida instantânea e nada saudável, mas com o passar do tempo e com as visitas da mãe de Sel, as duas pegaram o jeito com a cozinha e se tornaram mulheres de mão cheia, ao menos Demi já que Selena não levava muito jeito com o fogão.

   - Jake! – Ela riu ao olhá-lo fingindo estar pensativo. – Nós não vamos passar fome essa noite, eu estou apostando que o seu macarrão ficará uma delícia. – Disse os servindo com o vinho super gelado que Jake havia a presenteado.

   - Tudo bem, prometo que será o melhor macarrão que você já comeu em toda a sua vida. – Demi riu e não só naquele momento. Jake era uma verdadeira graça, havia a feito rir durante toda a noite enquanto preparavam o tal macarrão maravilhoso e ele era bom, sim, Jake, apesar de muito atrapalhado na cozinha, tinha memorizado todos os ingredientes e preparado um molho excepcional enquanto abraçava Demi por trás e cantarolava versos de várias canções americanas bebericando vinho, beliscando pequenos pedaços de chocolate e roubando beijos de tirar todo o fôlego de Demi.

   - Ficou realmente muito bom. – Sentados à mesa de jantar, Jake tinha acabado de servir Demi com o fantástico macarrão que por um pouco queimaria se Demi não desligasse a chama do fogo interrompendo o beijo caloroso que Jake e ela trocavam. – Admita, eu tive que dar um pequeno e sutil empurrão. – Comentou Demi depois de uma garfada e outra do macarrão para provocar o rapaz que sorriu para ela depois de bebericar o vinho.

   - Você só desligou a chama do fogão. – Ele disse como se fosse a coisa mais simples do mundo e Demi riu deixando que ele enlaçasse os dedos da mão direita aos da sua mão esquerda. – Eu estou adorando o nosso jantar Demi. – As bochechas inevitavelmente assumiram um leve rosado e Demi teve que bebericar sutilmente o vinho antes de olhar para Jake.

   - Eu também Jake. – Ela disse esboçando um lindo sorriso para ele vez fitando os olhos azuis hipnotizantes vez fitando os lábios bonitos. O jantar transcorreu em um agradável silêncio em que Demi e Jake trocavam olhares e pequenos sorrisos enquanto se deliciavam do macarrão. – Espere um minuto, eu já volto. – Disse Demi se levantando e organizando a louça suja para levá-la para a pia.

   - Deixe-me ajudá-la. – Jake interveio se levantando para ajudar a Demi com a louça.

   - Ei, não, espere aqui. – Aproveitando que ela estava perto dele, Demi roubou um beijo de Jake pondo-se na ponta dos pés e caminhou direto para a cozinha levando os pratos e talheres. – Você é muito teimoso. – Disse assim que topou com Jake pelo menos cinco minutos mais tarde quando ela caminhava de volta para a sala para buscar a travessa de vidro, mas Jake já a levava para a cozinha.

   - Não tem problema Demi, posso ajudá-la com a louça, eu não sou tão terrível assim na cozinha. – Demi fez careta, recebeu um beijo quente e lento nos lábios e assentiu. Não seria tão ruim ter a ajuda de Jake, ela arrumaria sozinha a bagunça da cozinha num piscar de olhos, e agora com ajuda seria mais rápido ainda.


   - Separei alguns filmes ou se você quiser nós podemos conversar. – Comentou Demi um pouco tensa puxando Jake pela mão de volta a sala depois que eles arrumaram a cozinha.

   - Nós podemos fazer os dois. – Demi assentiu e se soltou de Jake para ligar a televisão e o aparelho de DVD com o filme que havia escolhido mais cedo.

  - Pipoca, chocolate ou biscoitos? – Perguntou Demi tirando os sapatos de salto e Jake fez o mesmo a observando.

   - Não obrigada, eu estou bem. – Apagando as luzes, a sala ficou completamente escura exceção à luz da televisão, Demi puxou Jake pela mão para caminhar sobre o tapete e finalmente chegaram ao sofá confortável.

   - Fique à vontade Jake. – Ela disse rindo quando ele se sentou no sofá completamente desconfortável e sem jeito. – À vontade Jake! – Ainda rindo, Demi o empurrou e o homem grande caiu de lado deitado no sofá. Demi o olhou e sorriu quando ele também o fez. Será que ela estava sendo precipitada demais? Eles tinham cozinhado juntos, jantaram trocando sorrisos e olhares significativos, lavaram a louça e agora estavam deitados no sofá para assistir ao filme que começaria quando ela desse play no menu inicial. Aquilo era programa para namorados! A consciência a avisou e Demi não fez nada mais além de se deitar ao lado de Jake e dar play no filme. – Se comporte. – Avisou se virando para olhá-lo e os dois acabaram rindo.

   - Prometo que vou ser um bom menino. – Os olhos dele estavam fixos aos dela, Demi levou a mão ao rosto do rapaz e o acariciou, acariciou o lábio inferior com os dedos e os juntou aos seus num beijo rápido.

   - Vamos assistir ao filme. – Afetada com a forma que Jake a olhava e desconfortável por estar nos braços de um homem, Demi se virou e focou a atenção no filme que tinha acabado de começar. 

O que estava acontecendo com ela? Jake não a machucaria como o homem que machucou Dianna, era apenas um jantar, apenas um cara que ela possivelmente "gostava". Ela tinha que trabalhar para seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Não era como se saber que tinha sido fruto de um estupro mudaria as coisas. Ela sempre seria aquela Demi apaixonada demais, que se doava demais, que se importava demais. Dianna nunca a amaria. O homem que a gerou nunca a amaria se é que ele sabia que ela existia.. Ela tinha Selena, um apartamento bacana, um bom emprego que não deixava que absolutamente nada faltasse dentro de casa e se ela tivesse um pouquinho de sorte e não fosse estúpida, ela poderia ter Jake na sua vida. Quem sabe ele poderia amá-la, casar-se com ela e juntos eles poderiam construir um lar e enchê-lo de bebês que ela poderia e lutaria para amar da forma que ela queria que Dianna a amasse.

   - Demi? – Jake a chamou cinquenta minutos mais tarde quando o filme já estava previsível demais. – Pensei que estivesse dormindo. – Ele disse quando Demi se virou para olhá-lo.

   - Não está gostando do filme? – Ela perguntou acariciando o peito dele sobre o suéter azul marinho e fitando os olhos de Jake.

   - Estou, e você? – Quando ela assentiu, Jake colou os lábios aos dela num beijo rápido. – Você sempre frequenta o Cafe? – Perguntou deslizando e subindo a mão pela silhueta do quadril de Demi.

   - Às vezes, a primeira vez que eu estive lá foi há seis anos. Eu tinha dezesseis anos e o André me levou para conhecer o lugar junto com a Sel, foi o primeiro pub que a gente conheceu. – Demi sorriu ao se lembrar de André, o entregador de pizza sexy, como ela e Selena o chamavam. Céus! Onde ele estava? Ele tinha sido um dos seus poucos namorados que não a traiu e o mais gentil de todos.

   - Deixe-me adivinhar, ele era o seu namorado. – Demi assentiu rindo da careta de Jake. – Vocês beberam muito? – Jake perguntou esboçando um sorriso esperto ao subir mais a caricia que fazia no quadril de Demi para a costela esquerda, mas Demi revirou os olhos e levou a mão dele para o seu quadril já imaginando onde seria a próxima estadia se ela permitisse que ele subisse mais a mão.

   - Não muito, mas a gente tinha identidades falsas. – Disse sorrindo ao se lembrar daquela noite.

   - Ele foi o seu primeiro namorado? – Jake perguntou e Demi assentiu sorrindo ao se lembrar das suas loucas aventuras com André no cômodo debaixo da escada do apartamento que morava com a mãe e a avó.

   - Não exatamente, mas o primeiro sério. – Jake assentiu entendendo o que Demi queria dizer e roubou um longo beijo.

   - Por que vocês terminaram? – Demi arrumou algumas mechas do cabelo atrás da orelha e fixou os olhos aos de Jake, ele parecia tão interessado em saber mais sobre o seu relacionamento com André.

   - Ficamos um ano e meio juntos, a gente se entendia, mas eu tinha o meu objetivo e ele tinha o dele. Terminamos quando eu fui aceita na faculdade, ele morava no outro lado da cidade e trabalhava o dia inteiro e entregava pizzas à noite, nós ainda tentamos, mas não deu certo. – Terminar com André tinha sido um golpe duro, mas foi graças ao relacionamento com o jovem entregador de pizza que Demi amadureceu e aprendeu que o amor não era um conto de fadas e que nem sempre as coisas eram fáceis como acontecia nos filmes. – E você? Quando foi o seu primeiro relacionamento sério? – Perguntou sem se cansar de acariciar o rosto de Jake na ponta de seus dedos e ela depositou um beijinho demorado nos lábios dele.

   - Bem.. – Ele começou a dizer rindo repousando a mão na lateral do quadril feminino. – Eu tinha quatorze anos, e não foi bem um relacionamento sério. – Demi revirou os olhos, mas riu. – A gente estudava na mesma escola, mas não foi nada mais que uma noite.

   - Homens! – Ela disse revirando os olhos e se surpreendeu quando Jake a beijou 
calorosamente.

   - Vocês mulheres não vivem sem a gente. – Ele disse depositando um beijo na bochecha 
dela e Demi se aconchegou ao abraço de Jake quando se virou.

   - E nem vocês. – Retrucou Demi fechando os olhos. No trabalho tinha sido tão cansativo e havia sido o primeiro dia de todos os anos que Demi trabalhava na Gyllenhaal e que ela tinha odiado estar trancada no escritório e trabalhando sem pausa alguma. Era o que acontecia quando ela não tinha uma boa noite de sono.

   - Você deve estar cansada. – Disse Jake vinte minutos depois. Demi lutava para ficar acordada, os olhos piscavam declarando a luta dela e tudo que ela dizia era “Humrum” sem ao menos processar o que Jake havia dito. – Demi? Vou levá-la para cama, tudo bem? – Demi franziu o cenho e se ergueu bocejando.

   - Droga. – Murmurou envergonhada. – Eu estou bem. – Jake riu da cara de sono dela e Demi pensou que ela era uma completa idiota. Eles haviam jantado juntos e Jake deveria estar esperando algo a mais.

   - De qualquer forma está tarde. – Verificou a hora no relógio de pulso e os olhos azuis se arregalaram. – Muito tarde, e você tem que trabalhar amanhã cedo. – Disse calçando os sapatos e Demi assentiu chateada consigo mesma também calçando os sapatos de salto.

   - Se bem que esse filme não ajudou em nada. – Comentou se levantando junto com Jake para acompanhá-lo.

   - Tudo foi perfeito. – Disse Jake quando Demi abriu a porta do apartamento. – Ei, não precisa descer comigo, você está cansada e quente, aqui fora está frio.

   - Está tudo bem, só quero acompanhá-lo. – Demi trancou a porta do apartamento guardando a chave do bolso da calça e abraçou Jake pela cintura gostando de forma absurda de como os braços dele ficavam bem envolvendo a sua cintura.

   - Você é simplesmente linda. – Elogiou quando eles já estavam dentro do elevador em completo silêncio. Demi olhou para cima e sorriu encontrando os olhos dele sobre ela, aconchegou-se mais nos braços de Jake e o sorriso se alargou quando ele a apertou nos braços e a beijou na bochecha. – Tem certeza que quer ir lá fora? Está frio. – O elevador tinha acabado de chegar ao hall do prédio.

   - Não tem problema. – Demi engoliu o riso ao ver o casal homossexual que se preparava para adentrar o elevador olharem-na de cima a baixo como eles sempre faziam e comentarem algo a respeito certamente de Jake.

   - Demi. – A rua geralmente movimentada durante o dia estava deserta àquela hora da noite, poucos eram os carros que transitavam por ali e fazia um pouco de frio. Demi fitou Jake a sua frente, pelo menos vinte centímetros mais alto que ela, respirar fundo e olhá-la sorrindo. – Eu realmente adorei o nosso jantar. – Disse arrumando as mechas do cabelo dela que o vento havia bagunçado atrás das orelhas quentes por conta do recente cochilo. – Adorei cozinhar, conversar e assistir aquele filme que eu nem sei o nome abraçado a você. – Os dois riram e se encaixaram perfeitamente um nos braços do outro. Quando trocar olhares intensos já não era o suficiente, beijaram-se calorosamente, ofegaram e trocaram outro beijo.

   - Obrigada pela noite, Jake. – Sem jeito, Demi o beijou na bochecha e sorriu sem graça aproveitando para espalmar o peito dele. – E desculpe por cochilar, definitivamente não fazia parte dos meus planos. – Jake riu assentindo e a beijou mais uma vez.

   - Quando nós podemos nos encontrar? – Perguntou deslizando as pontas dos dedos pelo rosto de Demi que secretamente estava surpresa. Um novo encontro denunciava um grande interesse da parte dele. – Que tal para almoçar? Você tem algum horário livre?

   - Claro, nós podemos combinar. – Disse esboçando um tímido sorriso ao olhá-lo nos olhos.

   - Podemos. Tenha uma boa noite, Demi. – Jake segurou gentilmente o rosto dela e 
beijou-lhe os lábios com carinho se despedindo. – Eu realmente quero que isso aconteça entre a gente.  Ele disse quando já estava a pelo menos dois passos longe dela e Demi assentiu engolindo em seco e forçando um sorriso.


   - Tenha uma boa noite, Jake. – Acenando, ela o viu partir em direção ao carro preto estacionado no outro lado da rua. Será que ele valia a pena?

Continua... Oi! Então, como vocês estão? Eu estou bem! Gente! E ai? O que vocês estão achando da história? O Jake, cara! Ele está muito amorzinho, não? Estão notando alguma coisa? u.u E calma gente, o Joe vai aparecer... Um abraço para vocês, obrigada pelos comentários, respostas: Aqui e Aqui 

25.2.16

Capítulo 4 - Culpa

Gyllenhaal Enterprise, Nova York – Estados Unidos – 6:17PM


Da janela do escritório no penúltimo andar do prédio de quarenta pavilhões, Demi aproveitava para admirar o pôr do sol fantástico no horizonte da cidade à praticamente 50 metros de altura do solo e quando o sol já não brilhava mais no céu que se alternava entre o azul claro e o azul forte, o movimento daquela rua lhe chamou a atenção. As pessoas não paravam por um segundo apressadas para atravessar a rua, entrar em táxis ou sair com seus carros. E os carros que saiam das garagens subterrâneas causaram o pequeno engarrafamento que começava com o sinal vermelho onde tinha pelo menos cinco carros amarelos um atrás do outro. Deveriam ser táxis, suspeitou Demi. 

O engarrafamento seguia até a garagem do prédio da frente, todos pareciam tão impacientes e loucos para descansar em casa depois de uma segunda-feira quente e carregada de trabalho. Com ela não era diferente. Quando chegou a Gyllenhaal as três e pouca da tarde, Jason a recebeu com um abraço apertado, o que a deixou intrigada. Não por Jason ter a abraçado, aquilo era mais que normal. O que a intrigou foi a forma como ele a tratou como um pai preocupado e não o chefe de um império do mundo das empresas de tecnologia e informação. Então ela deu continuidade ao projeto do comercial da empresa que havia começado na noite passada. 

Estava tão concentrada, a imaginação a mil e a sua equipe de mulheres não a decepcionou, bem pelo contrário, Selena a ajudava com as cores já que aquela não era bem a sua área, Linda, uma estagiária mais nova tanto no quesito idade quanto no tempo que trabalhava junto no setor deu algumas dicas de como ela poderia melhorar ainda mais os personagens e Demi ouviu todas as outras três mulheres e acrescentou ao projeto os detalhes que fariam daquele comercial um dos mais famosos de todo o país. O dia tinha sido cansativo, mas muito proveitoso. Pensou respirando fundo. O que era bom, o excesso de trabalho não a permitiu pensar nem por um segundo na bomba que Dianna havia jogado em suas mãos na noite passada, nem mesmo a noite quente com Jake, houve tempo para Demi pensar.


   - Demi? Nossa eu estou morta. – Demi se virou quando escutou a voz de Selena e o som que os sapatos de salto dela faziam contra o porcelanato assim que a amiga adentrou o escritório carregando consigo uma pilha de pastas e a bolsa grande de couro negro debaixo do braço direito. – Vamos passar na Rocco’s para comprar cannolis, depois passamos na minha casa, preciso de roupas para passar a noite na sua casa. – Selena colocou as pastas sobre a mesa de Demi e caminhou até estar ao lado da amiga. – Também está cansada? – Perguntou Selena apoiando os cotovelos no batente da janela.

   - Estou. – Demi suspirou e forçou um sorriso para Selena. Cansada era pouco, ela pretendia dormir cedo para ajudar o psicológico esgotado a se recuperar para o dia seguinte.

   - Ah Dem, eu odeio te ver quieta desse jeito. – Murmurou Selena de cara feia. Se tinha algo que estava errado, era todo aquele silêncio de Demi. Ela costumava ser tão comunicativa que às vezes chegava a ser muito irritante.

   - É só o cansaço Sel. – Murmurou como Selena imitando a cara feia da amiga, o que as fez rir. – Ao menos o projeto está quase pronto, quero trabalhar em outros. – Selena assentiu sorrindo quando Demi a abraçou de lado.

   - O que nós estamos mesmo fazendo aqui? Todos já estão em casa. – Demi riu assentindo e buscou pela bolsa em uma das divisórias da prateleira. O escritório não era muito grande, porém nem muito pequeno. Havia a mesa de vidro onde Demi realmente trabalhava, uma cadeira confortável e giratória, a estante carregada de livros e todos os assessórios que eram necessários para a sobrevivência de uma mulher, e um pequeno sofá branco e confortável onde podia discutir os seus objetivos com os colegas de trabalho ou escutar os clientes.


   - Você tem roupas no meu apartamento. – Disse Demi trancando a porta do escritório.

   - Não quer ir lá em casa? – Perguntou Selena caminhando pelo corredor cheio de minissalas onde trabalhava um esquadrão de mulheres e homens.


   - Não é isso, eu só estou cansada e louca para tomar um banho. – Demi chamou pelo elevador no final do corredor e não demorou muito para o mesmo chegar. – A sua casa é longe, são quase seis e meia da tarde. Imagina o trânsito como não deve estar. – Desculpou-se quando a amiga a olhou franzindo o cenho. Demi adorava visitar a casa de Selena e passar a noite conversando com os pais dela quando elas faziam noite do pijama, e agora não queria ir a casa de Selena? Estranho.


   - Você está literalmente estranha. – Disse Selena ainda a olhando como se ela fosse um ser de outro planeta e Demi engoliu em seco bloqueando os pensamentos das lembranças do dia passado. O elevador ainda estava no trigésimo sétimo andar e o silêncio entre elas marcava presença. Selena se olhava no enorme espelho e Demi cochilava em pé cansada, mais alguns andares a baixo e a porta do elevador se abriu para pegar passageiros do oitavo andar.


   - Boa noite meninas. – A voz suave e masculina do magnata assustou Demi que tinha os olhos fechados, mas assim que os abriu sorriu ao ver Jason, o dono da Gyllenhaal. – O que fazem aqui há essa hora? – Perguntou o homem elegante mais velho olhando diretamente para os olhos de Demi, que franziu o cenho tendo a impressão de ver olhos tão azuis como os de Jason em outra pessoa. Pareciam tão familiares..


   - Tive um pequeno problema para imprimir alguns documentos, mas já está tudo em ordem e no escritório da Srta. Lovato. – Disse Selena apontando para a amiga. – Vou tomar conta dessa criança essa noite. – Brincou e Jason riu fitando admirado as duas amigas.


   - Nós ficamos preocupados! – Disse Jason lançando a Demi um olhar preocupado. – Não nos deixe sem noticiais como aconteceu hoje. – Demi assentiu um pouco envergonhada e engoliu em seco. Não tinha sido uma opção deixar que aquilo acontecesse, só estava cansada psicologicamente e a noite com Jake não aliviou o cansaço, bem pelo contrário.


   - Obrigada por se preocupar, não acontecerá novamente. – Quando o elevador pousou no hall do prédio, Jason se despediu com um beijo na testa de Selena e de Demi e cada um seguiu o seu caminho. – Prometa que não vai demorar na Rocco’s. – Resmungou Demi assim que fechou a porta do carona e Selena deu partida no carro.


   - Quem sempre fica indecisa é você. – Disse sem olhá-la e Demi revirou os olhos fivelando o cinto de segurança.


   - Até parece que você também não fica indecisa. – Retrucou arrumando a bolsa no colo relaxando o corpo no banco do carro.


   - Eu sempre me resolvo primeiro, você fica enrolando e até a composição dos alimentos você lê. – Resmungou Selena e Demi revirou os olhos mais uma vez.


   - Lógico, não quero correr risco de vida ou sei lá, nunca se sabe o que pode ter num delicioso cannoli. – Selena aproveitou o sinal vermelho para lançar um olhar incrédulo a Demi. – Só não enrola Sel, quero ir para casa descansar. – Descansando a cabeça no vidro da janela do carro, Demi sentiu o celular vibrar dentro da bolsa e não demorou nada para que ele estivesse em suas mãos.


“Está anoitecendo e a nossa noite maravilhosa não saí da minha da minha cabeça, aliás, nem você e nem ela. Nosso encontro ainda está de pé? Espero encontrá-la o mais breve possível, sinto saudade do seu beijo e dos seus olhos marrons. Adoraria acordar por muitas manhãs ao seu lado, receber um beijo como o que você me deu assim que acordou linda, manhosa e preguiçosa e desfrutar dos seus dotes culinários. Tenha uma excelente noite Demi. Jake.”.


Demi mordeu o lábio inferior, mas não conseguiu conter o sorriso que insistiu em nascer nos seus lábios. Encontro! Existiam tantas palavras que poderiam substituir aquela.. Encontro! Encontro na cabeça de uma mulher era uma palavra perigosa e a chave fundamental para um futuro relacionamento. Então porque Jake a usou? Ele tinha sido gentil e fofo? Pelo que a mensagem deixava claro, ele queria encontrá-la não só uma vez. O coração bateu forte cogitando a possibilidade. Será?


   - Nome, endereço, idade, profissão. – Selena a assustou, mas ela riu ainda não acreditando que Jake havia mandado uma mensagem como aquela.


   - Não me lembro exatamente do endereço, mas não é muito longe do meu apartamento. Vinte e oito anos. Hum.. Eu não sei com o que ele trabalha, mas ele está de férias e quer muito me encontrar. – Selena franziu o cenho, desviou os olhos por uma fração de segundos da rua a sua frente para fitar Demi que relia a mensagem.


   - Vocês.. Hum.. Transaram? – Perguntou mesmo sabendo a resposta.


   - Selena! – Demi automaticamente corou e sorriu sem graça fitando a tela do celular ainda na mensagem de Jake pensando no que ela poderia escrever. – Jake. Ele é bonito, engraçado e muito inteligente. – Comentou se lembrando da conversa animada com Jake no pub barulhento. Tinha sido tão engraçado um cochichando no ouvido do outro frases bobas e sem muito sentido. – E sim, a gente transou.. A noite foi muito quente! – As duas riram quando trocaram olhares mal intencionados.


   - Muito quente? – Selena perguntou quando estacionou o carro na primeira vaga da rua da Rocco’s.


   - Muito quente. – As delicias da Rocco’s eram de deixar qualquer ser humano com água na boca. Tudo era tão caprichado e Selena e Demi já tinham comprovado que cada um daqueles alimentos era um sonho de sabor. Uma verdadeira tentação, na verdade. Comprar apenas os cannolis foi um obstáculo para as duas amigas que desejavam levar também um belo pedaço de cada bolo de encher os olhos, as rosquinhas, os biscoitos que tinham acabado de sair do forno que cheiravam absurdamente bem e as outras delicias que enfeitavam o balcão. – Toda vez que nós saímos daqui, eu me sinto pelo menos dez quilos mais pesada. – Comentou Demi se abanando e suspirando por várias vezes.


   - Eu pensei que era só comigo. – Selena gargalhou quando a amiga mordeu o lábio inferior quando elas adentraram o carro. – Eu sei! Eles são tão gatos. – Disse concluindo a linha de raciocínio de Demi. Elas não iam a Rocco’s praticamente todos os dias depois do trabalho só porque o lugar vendia as melhores deliciais da cidade. Os irmãos Rocco, ah! Um era o padeiro sexy de olhos castanhos, cabelos negros e o rapaz era muito alto e forte. Esse era o mais velho e ele se chamava Mike Rocco. Já o mais novo, Johnny, era da mesma estatura do irmão e forte, tinha olhos castanho claros, um sorriso meigo e uma bunda tão redonda que toda mulher gostaria de apertar.


   - Ah Sel! Eles são tão gostosos, eu juro que se eu pudesse escolher entre o Mike e o Johnny, eu ficaria com os dois. – Selena tornou a gargalhar e assentiu. Não havia como escolher um daqueles dois. – Eles ainda sabem cozinhar! Não tem como ter algum defeito. – Murmurou pensativa.


   - Só se.. – Indagou Selena e as duas riram. – E eu pensei que você estava com o Jake, Lovato. Deixa de ser egoísta! – Demi revirou os olhos e mostrou língua para a amiga.


   - Tamanho não é documento, e eu poderia ficar com os três. O Jake também não fica para trás. – A conversa seguiu animada entre risadas moderadas e gargalhadas exageradas. Aquela era simplesmente uma das melhores partes de ser amiga de Selena, ela a fazia se esquecer dos problemas sempre com um sorriso na face e com muito bom humor. E naquela curta viagem ao apartamento de Demi não foi diferente, o que era bom já que a lembrança que queria vir à tona não a perturbou por momento algum.


(...)


A lua brilhava no céu escuro e estrelado, no interior do apartamento de Demi, as luzes estavam apagadas e na sala o silêncio entre as duas amigas era absoluto. Por mais cansada que Demi estivesse, a ideia de assistir algum filme qualquer na TV a animou, e Selena adorou quando a amiga apareceu na sala com uma bacia cheinha de pipoca, dois hambúrgueres, os cannolis e suco natural.


   - Dem? – Selena chamou quando o filme acabou e como sempre acontecia quando assistia a um filme de terror, Selena estava morrendo de medo.


   - O que foi Sel? – Perguntou Demi lançando um rápido olhar a amiga enquanto recolhia os copos, pratos e a bacia de pipoca. – Vampiros não existem. – Disse a Selena quando percebeu que a amiga a seguia apressadamente até a cozinha.


   - Você sabe que eu sou paranoica. – Selena automaticamente buscou pela toalha para secar a louça quando Demi começou a lavá-la.


   - Eu sei que é. – Demi lavou e Selena secou, tudo feito em silêncio.


   - Dem? – Selena tornou a chamá-la se sentindo terrivelmente desconfortável com o comportamento diferente da amiga. – Eu estou preocupada com você. – Disse de cenho franzido e o coração apertou no peito no momento em que Demi a olhou como uma menina assustada e desviou o olhar para um ponto qualquer não podendo suportar toda a dor acumulada em seu peito que ela insistia em ignorar. – O que ela fez? – Os olhos castanhos de Demi se arregalaram e as lágrimas rolaram molhando o rosto bonito e a camisa que Selena usava. – O que aquela filha da mãe fez? – Tornou Selena a perguntar abraçando forte a amiga contra o peito. Ela simplesmente odiava como Dianna era insensível, falsa e uma terrível mãe. Como aqueles malditos homens sempre machucavam a sua melhor amiga. Eles não enxergavam como Demi era especial? Como ela precisava ser amada e como ela amava a todos de todo o coração mesmo que eles não merecessem? Quando a conheceu há muitos anos atrás, Demi preencheu o lugar da irmã que Selena nunca teve. E ninguém iria machucá-la, não enquanto Selena estivesse ali para protegê-la. – Meu Deus, não chora Demi. – Pediu de coração partido.


Sem muita dificuldade Selena levou Demi aos prantos para o quarto. Pensar em Dianna machucava o coração de Demi. E quando Selena perguntou o que a mãe tinha feito, a noite passada veio a mente em borrões e tudo que ela ouvia era a voz da mãe constantemente naquelas palavras que destruía tudo o que ela era. O sentimento era tão forte e doloroso. Nunca teria o amor de Dianna e do homem que a gerou da pior forma que um homem pode agredir uma mulher. Ela sempre seria aquela garotinha sozinha e sem afeto.


   - O seu porteiro me contou que ela esteve aqui ontem. – Disse Selena acariciando os cabelos da amiga que tinha a cabeça apoiada em seu colo e quando Demi, que já não chorava mais como há uma hora, a agarrou assustada e de olhos arregalados, Selena comprovou a teoria de que Dianna tinha aprontado alguma coisa grave demais. – Você está parecendo uma criança assustada. – Comentou puxando o cobertor para cobri-las da melhor forma que podia. – Não guarde tudo para si mesma, não fará bem. – Demi fechou os olhos respirando fundo por diversas vezes, segurou a mão de Selena e tornou a desabar em choro quando abriu os olhos e fitou os de Selena. Era tão duro e sufocante. Jamais tinha imaginado em toda a vida que o pai, o homem que nem mesmo conhecia, mas que nutria amor, era um monstro que destruiu a vida de Dianna e que agora, mesmo adulta, a traumatizou severamente.


   - Sel. – O apelido carinhoso saiu por seus lábios num sussurro. Selena derramou as suas primeiras lágrimas sentindo o coração apertado por saber que a amiga sofria e a abraçou confortando-a.


   - Odeio quando você chora assim. – Disse de cenho franzido lutando contra as lágrimas teimosas. – Está melhor? – Perguntou quinze minutos mais tarde e Demi não disse nada, estava devastada por dentro e Selena não podia fazer nada.


   - Eu.. – Começou a dizer escondendo o rosto com as mãos. – A minha mãe.. A minha mãe esteve aqui ontem. – Demi respirou fundo, apertou as pálpebras e tentou organizar os pensamentos sem muito sucesso. – Ela queria que eu me encontrasse com um dos clientes dela, nós discutimos e.. – Uma lágrima solitária rolou pelo rosto de Demi e aquele velho aperto que a incomodava desde o dia passado veio com tanta força envolvendo o seu coração que Demi pensou que morreria naquele mesmo instante. – Ela disse que deveria ter interrompido a gravidez enquanto ainda era tempo. – Os olhos de Selena se arregalaram de pavor e os de Demi tornavam a derramar lágrimas grossas e incontroláveis. – Eu.. Eu disse que ele não permitiria, mas.. mas.. Ele a estuprou. Eu sou fruto de um estupro. – Selena a abraçou forte contra o peito completamente assustada. Tinha que ser mais uma das mentiras de Dianna, não era possível... Admitir em alto e bom som foi ainda pior, Demi se deixou ser abraçada por Selena enquanto chorava silenciosamente se sentindo como um nada.


   - Eu aposto que ela está mentindo. – Disse Selena a beijando na testa. Uma vez Dianna havia mentido sobre o pai de Demi para tentar convencê-la a se encontrar com homens que estavam “apaixonados” pela filha, mas não era mais que uma mentira suja, o que não demorou muito para Demi descobrir e novamente ficar no escuro a respeito do pai.


   - Não está. – Disse Demi limpando as próprias lágrimas que rolavam pelo rosto. – O jeito que ela me olhou e disse que.. que ele a estuprou e a espancou no chão frio de um banheiro. Eu nunca a vi com tanto ódio nos olhos, ela parecia tão quebrada e vulnerável. – Quando se ergueu recostando as costas na cabeceira da cama, Demi gemeu de dor. A cabeça estava pesada e o corpo reclamava de cansaço.


   - Você bebeu e passou a noite com o Jake para esquecê-la, não foi? – Demi assentiu abraçando os joelhos com os braços fitando um ponto qualquer do seu cobertor. Estava tão envolvida naquela história e com a cabeça a ponto de explodir que acabou não respondendo a mensagem de Jake.


   - Eu me sinto doente. – Disse se abraçando com mais força. – Agora eu entendo porque ela nunca me deu carinho, porque ela preferiu passar mais tempo fora de casa a minha companhia. O jeito que a vovó me olhava e me tratava como se eu fosse um grande problema. – As lembranças das noites sozinhas encolhida na cama ainda quando era pequena, as reuniões de pais e professores que Dianna sempre faltava, os aniversários que passaram em branco, a confusão que ficava a mente da pequena Demi ao encontrar um homem diferente em casa a cada dois dias e quando questionava a mãe se aquele era o seu pai,  dormia assustada com a bronca que ganhava da avó ou com o rosto dolorido dos tapas que ganhava da mãe. – Seria tão melhor se ela tivesse acabado com isso enquanto ainda tinha tempo.. Ninguém sofreria, seria apenas uma lembrança ruim, eu não seria um fardo pesado na vida dela e não me sentiria como um lixo. – Selena engoliu em seco completamente em estado de choque, abraçou a amiga de lado rezando para que aquela história fosse apenas um pesadelo.


   - Não diga bobagens. – Disse secando a lágrima que rolava pelo rosto de Demi. – Se você está aqui é porque Deus tem um propósito, não se culpe Dem. Ninguém nesse planeta tem o direito de te tirar a vida ou te culpar só porque as coisas não aconteceram como deveriam. Você é uma mulher incrível com um coração tão grande, não um fardo pesado. Ninguém é. – Demi fitou os olhos de Selena carregados de amor e tanta bondade. Sabia que Sel estava certa, mas doía tanto, era tudo confuso e embaraçoso.


   - Do que adianta? Eu não fui desejada e muito menos amada durante todos esses anos, eu destruí a vida dela. Isso me machuca tanto, eu a amo Selena. Sei que ela nunca gostou muito de mim ou sei lá, mas eu tinha esperanças que fosse apenas o jeito dela, que chegando ao fundo do poço ela me amasse como uma mãe ama a filha, mas como ela pode me amar? Ela era só uma menina de dezessete anos quando ele a.. a machucou. Dezessete anos. – Repetiu imaginando Dianna uma jovem bonita e assustada carregando no ventre um bebê que não desejava. – Todos os sonhos dela foram destruídos, a adolescência roubada por um monstro e um bebê.


   - Você não tem culpa. – Abraçando-a contra o peito, Selena deixou que Demi chorasse em seu colo por toda a noite até que a amiga finalmente adormeceu cansada.


Continua... Oi! Estou passando aqui rapidinho só para postar para vocês. Obrigada pelos comentários do capítulo passado, vou respondê-los no próximo capítulo. ps. Gente! O Joe já vai aparecer, só tenham calma.. essa parte da história com o Jake é muito importante, beijos! 

18.2.16

Capítulo 3




          O corpo reclamava de cansaço, a cama não ajudava nenhum pouco a despertá-la e contribuía generosamente para a preguiçosa que a dominava. A cabeça parecia que iria explodir, a dor de cabeça era tão forte e insuportável. Remexendo-se, Demi agarrou o travesseiro e murmurou alguma coisa sentindo algo deslizar em suas costas nuas. A noite tinha sido longa e muito divertida, o que era ótimo em meio aos últimos acontecimentos do dia passado. Sentindo novamente algo deslizar por suas costas, Demi abriu os olhos e os fechou novamente por conta da claridade do quarto.

   - Bom dia preguiçosa. – A voz grossa no tom brincalhão soou. As lembranças falhas da noite passada vieram como flashes e Demi sorriu timidamente abrindo os olhos. Jake era realmente um gato. Moreno claro, forte com direito a um peito largo acompanhando de um abdômen cheio de gominhos e abraços fortes, os olhos eram azuis como o céu de uma tarde quente, os cabelos, como ela pensou na noite anterior, eram lisos e loiros escuros. Ele era simplesmente lindo! – Além de preguiçosa também é manhosa? – Sorrindo sem jeito, Demi recebeu um selinho nos lábios e resmungou quando ele a puxou debaixo do lençol branco que os cobriam para cima dele.

   - Bom dia. – Pela manhã Demi era tímida. Principalmente quando acordava na cama de um cara depois de uma noite extremamente quente e prazerosa. Era a única parte do dia e uma das poucas situações que a timidez a pegava de jeito.

   - Você é ainda mais linda pela manhã. – Jake disse deslizando as mãos pelo rosto dela e a abraçou contra o peito nos braços fortes. Ele não mentia. Demi parecia tão delicada e menina, os olhos marrons ternos, os cabelos castanhos macios em mechas pouco onduladas e as sardas do rosto. A pele clara e as curvas que o enlouqueceram na noite passada..

   - Você também. – Ela sussurrou corando por sentir o corpo dele quente e nu debaixo do dela. O silêncio pairou sobre eles e Demi fechou os olhos novamente gostando daquela sensação boa que era estar com Jake, mesmo que ela estivesse completamente machucada e confusa por dentro. Pensar em Dianna fez com que o  coração se encolhesse de angústia e medo.

 Será que era realmente verdade o que ela havia dito na noite passada? Dianna já tinha mentido tantas vezes e Demi não se surpreenderia se ela o fizesse mais uma vez.. A lembrança se repetiu como um vídeo no replay, as palavras duras e amargas, os olhos frios carregados de dor. Era mesmo verdade, ninguém conseguiria interpretar tão bem uma cena como aquela, nem mesmo Dianna.

   - O que acha da gente tomar banho e café da manhã? – A voz profunda de Jake a despertou do transe e Demi assentiu o beijando no queixo. Jake era um cara legal, ela deveria focar nele e se esquecer de Dianna e todos os problemas que vinham junto com ela.

Juntos tomaram banho conversando vez ou outra sobre as coisas que os interessavam. Demi às vezes estranhava o homem grande ao seu lado, ele era um completo estranho que tinha a ajudado por uma noite a esquecer  um enorme problema, mas no fundo gostava de Jake e sentia que podia confiar nele por mais que algo dissesse para que ela ficasse longe dele.

   - Que tal uma aspirina e um copo d’água? A minha cabeça está doendo e a sua também deve estar. – Saindo do closet vestida com uma camisa grande demais que pertencia a Jake e a calçinha da noite passada, Demi foi guiada pelo homem que a puxava pela mão até à cozinha do apartamento onde se sentou em um dos bancos da bancada de mármore. Tudo era tão luxuoso e impecável, que um nó formou-se na garganta de Demi. Ela simplesmente odiava aqueles lugares cheios de coisas caras. – Você está tão quieta. – Disse Jake a observando enquanto pegava a cartela de comprimidos e dois copos limpos no armário. – Tem algo de errado? Não se lembra da noite passada? Ou é comprometida? – Perguntou enchendo um copo com água purificada e logo o fez com o outro.

   - Não.. Não sou comprometida. – Demi forçou um sorriso e agradeceu quando o rapaz lhe entregou o copo cheio d’água e o comprimido. – Só a minha cabeça que parece que vai explodir. – Disse desanimada. Beber nunca tinha sido o forte. E nunca a ajudava como acontecia com as outras pessoas. Parecia que o álcool não funcionava com ela, aliás, ele só ajudava a deixá-la um pouco mais solta que o normal, o que nunca acabava bem.

   - Você exagerou na bebida. – Jake a deixou completamente tonta quando a puxou para os braços e a beijou no pescoço. – Nós podemos descer para tomar café da manhã ou podemos preparar alguma coisa. – Ele disse a olhando com desejo. – Sou uma tragédia na cozinha. – Murmurou colando os lábios aos de Demi se esfregando a ela de maneira insinuosa.

   - Posso preparar o café. – Demi embrenhou os dedos aos cabelos de Jake analisando a consistência dos fios macios e o abraçou repousando a cabeça no ombro do rapaz também sendo abraçada. Era estranho trocar aquele tipo de carinho com o cara que ela conhecia tinha apenas uma noite, mas ao mesmo tempo era maravilhosa a sensação de ser abraçada por ele.

   - Você cozinha? – Indagou surpreso. Demi o olhou e deu de ombros assentindo.

   - A minha avó gostava da minha comida. – Comentou brevemente sem olhá-lo. Amélia era um caso particular que Demi insistia em estudar mesmo sabendo que não deveria. A mulher nunca demonstrou nenhuma afeição por ela, exceto uma vez que Demi a flagrou a olhando com curiosidade e os olhos castanhos como os seus brilharam como se Amélia a amasse. – Selena não reclama, ela até.. – Os olhos castanhos se arregalaram de pânico ao se lembrar de Selena. Demi levou a mão à testa e procurou por algum relógio na bancada da cozinha. Dez minutos para as três horas da tarde. O sangue congelou nas veias. Duas e pouca da tarde significava que ela estava atrasada, aliás, muito atrasada! Ou despedida.

   - Você está bem? – Jake perguntou de cenho franzido e preocupado pronto para levá-la para o hospital.

   - Eu estou atrasada! – Ela literalmente disparou em direção ao quarto como um carro de corrida numa disputa importantíssima pelo título que poderia perder para o adversário a sua cola. Atrasada! Demi procurou pelo vestido, a bolsa e os sapatos de salto e os encontrou: os sapatos estavam alinhados à poltrona e o vestido cuidadosamente dobrado e posto sobre o braço do móvel assim como a bolsa de mão. Se ela não estivesse tão desesperada agradeceria Jake com um beijo ardente, mas tudo que fez foi tirar a camisa dele ficando apenas de calcinha e vestiu a peça da noite passada aos trancos e barrancos. – Você pode.. Hum.. Por favor, fechar para mim? – Pediu ao vê-lo sentado de braços cruzados na cama a olhando com curiosidade.

   - Você está atrasada. – Disse calmamente afastando os cabelos dela das costas os jogando na direção do ombro direito. – Vou levá-la para casa. Tudo bem? – Demi assentiu respirando fundo por várias vezes. Tinha alguma coisa naquele homem que a fazia perder o compasso, respirar sempre ficava mais difícil e os pensamentos não eram nada angelicais.

   - Obrigada, mas posso pegar um táxi. – A voz ainda soou nervosa e desesperada, Demi se enfiou aos sapatos de salto e pegou a bolsa de mão pronta para partir.

   - Vou levá-la. – Ele disse sério buscando as chaves do carro dentro da gaveta do criado-mudo e estendeu a mão para Demi que sem opção agarrou-a.

   - Não estou dando trabalho? – Perguntou Demi um tanto sem jeito caminhando ao lado de Jake em direção ao elevador no final do corredor.

   - Claro que não. – Jake esboçou um sorriso galã e enquanto esperavam o elevador, selou os lábios aos de Demi num beijo suave e rápido. – Você está me devendo um café da manhã, eu estou faminto. – O olhar intenso dele a fez corar. Também estava faminta e cansada por conta da noite longa e quente.

    - Nós podemos combinar. – Aquilo era estranho. Completamente estranho. Demi não esperava muito de Jake, principalmente que ele quisesse ficar mais tempo com ela, como insinuava, e a tratasse tão bem se oferecendo para levá-la para casa. Geralmente os caras que Demi dormia passavam a noite no apartamento dela e antes do dia amanhecer já estavam a caminho de casa ou qualquer outro lugar sem dar a mínima para a existência dela.

   - Estou com alguns dias de folga do trabalho. – Comentou o rapaz assim que adentraram o elevador vazio. – Estou solteiro e você também. Que tal marcar um cinema, teatro, qualquer coisa. – Demi o olhou surpresa e recebeu um sorriso amarelo. – Claro, se você quiser. – Ele completou e ela pensou em dar um desculpa qualquer, estava cansada de relacionamentos conturbados que sempre acabam mal e tinha o problema com Dianna, mas também esperava encontrar um bom homem que pudesse amar e ser igualmente amada. E se o cara fosse Jake? Ele era gentil, engraçado e muito bonito. Sem contar que era um ótimo amante, ótimo até demais para ser verdade. Como ela descobriria se batesse a porta na cara dele gritando um alto não? Por mais que temesse ser machucada mais uma vez, Demi sabia que seria um risco que correria.

   - Nós podemos combinar. – O sorriso tímido foi inevitável. Se Jake estava a chamando para sair era porque ele a considerava boa o suficiente para assumir o posto de namorada? As bochechas coraram. Ah não! Aquilo nunca era bom, ela não alimentaria falsas esperanças, era uma adulta independente que teve apenas uma transa com um cara. Talvez Jake só quisesse transar com ela novamente ou algo do tipo. Ele não era um príncipe encantado por mais que era idêntico a um. O mundo não era nem de perto o conto de fadas que toda garotinha sonhava, e Demi havia descoberto, das piores formas, que os príncipes encantados não existiam.

O silêncio não era constrangedor ou desagradável no interior do carro, vez ou outra Jake ou Demi comentava alguma coisa sobre a noite passada no pub, sobre como o lugar era legal e tinha sido palco para grandes cantores americanos. Nova York, como sempre, tinha as ruas movimentadas com todo o tipo de gente, uma grande fileira de carros pela avenida principal de Manhattan com direito a motoristas impacientes e quando chegaram a Times Square, foram contemplados com os telões enormes dos prédios com incríveis anúncios que chamou a atenção de Demi por alguns minutos. E não demorou muito para Jake chegar em frente ao prédio em que ela morava.

   - Está entregue. – O sorriso avassalador dele a deixou completamente sem graça. Como iria se despedir? Com um tchau? Um beijo na bochecha ou um na boca? Droga! Ela precisava pensar rápido, estava atrasada e numa enorme encrenca.

   - Obrigada pela carona Jake. – Geralmente quando estava nervosa e tímida Demi levava a mecha dos cabelos castanhos para trás da orelha e mordia o lábio inferior, uma velha mania que enlouqueceu todos os meninos do ensino médio. – Eu.. Eu tenho que ir. – Gesticulando a mão direita enquanto falava, Demi acabou apontando para a esquerda a apontar para a direta, onde ficava a entrada do prédio. Só Deus sabia como ela estava nervosa.

   - A noite foi maravilhosa Demi, espero que seja a primeira de muitas. – Por que os olhos dele tinham que ser tão intensos? O calor tomou conta do corpo dela quando os lábios deles se fundiram num beijo de tirar todo o fôlego, Jake segurava-lhe gentilmente o rosto. – O seu número. – Demi digitou o número no celular dele rapidamente ainda nervosa e com os hormônios a loucura, encostou os lábios nos dele para beijá-lo e logo que o fez, saiu do carro às pressas e acenou recebendo um lindo sorriso de Jake. Ela teria um ataque do coração se Jake insistisse em sorrir daquele jeito toda vez que a beijava.

   - Demi! Ai meu Deus! – Exagerada. Selena era muitíssimo exagerada. Assim que pisou no hall do prédio os olhos se arregalaram. Por que toda aquela recepção? Melhor, porque Selena andava de um lado para o outro na presença do sindico, do porteiro e do recepcionista? – Ela acabou de chegar. – Disse Selena ao telefone. – Muito obrigada, muito obrigada pela ajuda. Tenha um bom dia! – Que não fosse o que Demi pensava.. – Demetria! Eu estava tão preocupada com você! – Selena abraçou a amiga que ainda estava em estado de choque. O que diabos era aquilo? Ela já tinha passado mais de uma noite fora de casa sem dar notícias a ninguém, e Dianna ou Amélia nunca a recebeu da forma que Selena tinha o feito. Ela poderia ter só uma amiga, mas era melhor ter apenas uma e verdadeira, que muitas e falsas.

   - Sel, eu estou bem. – Disse a abraçando de volta. – Eu estou bem. – Afirmou mais uma vez quando Selena a olhou como se checasse se ela estava inteira.

   - Obrigada rapazes, nós vamos subir. – Agarradas, Demi cumprimentou os funcionários do prédio e foi arrastada por Selena para o elevador que por um milagre estava vazio. – A polícia estava a caminho. – Disse Selena e Demi estreitou os olhos.

   - Selena! A polícia? – Disse boquiaberta.

   - O que você queria? – Perguntou exaltada. – Você some desde a noite passada, não liga, não atende o celular e não vai trabalhar, já são duas da tarde! Óbvio que eu pensei no pior. Ainda saiu sozinha para Deus sabe onde! – Tudo bem, Selena podia ter razão. Mas tudo foi tão rápido e tão chocante que Demi não tinha pensado naqueles detalhes.

   - Eu estou viva. – Aquelas palavras pesaram tanto no coração e Demi engoliu o choro desviando o olhar da amiga. Estar com Jake a fez se esquecer, mas a noite tinha acabado e os fatos não iriam mudar. – Agora não, prometo que explico mais tarde. – Apressou-se a dizer quando a amiga a olhou daquele jeito que Demi bem conhecia. – Como estão as coisas na empresa? Fui despedida? – Perguntou respirando fundo para não começar a chorar.

   - Jason está preocupado com você, pediu para mantê-lo informado. – Demi assentiu aliviada. Podia não ter uma mãe e um pai que a amasse, mas havia encontrado poucas pessoas que gostavam dela de todo o coração.

   - Vou só trocar de roupa e nós partimos para o trabalho. – Demi ignorou o olhar preocupado de Selena e abriu a porta do apartamento quando o elevador chegou ao andar. Poderia estar esgotada, mas preferia passar mais algumas horas entretida com qualquer coisa que pensar na bagunça que o seu coração estava.


Continua... Oi! Espero que gostem desse capítulo, as coisas vão começar a acontecer... Beijos e se puder, comentem a opinião de vocês!! Tchau e até o próximo capítulo