17.12.17

Capítulo 54

Quatro dias depois...

Quem geralmente ficava mal-humorado era Joe, não Demi. O que a incomodava era o braço machucado e os dedos brutalmente mordidos, razão que a colocava num nível completamente dependente de outra pessoa em determinadas situações.

Depois de quatro dias do ocorrido com Mary, era a primeira vez que Demi conseguia tomar banho sozinha. Deu muito trabalho e ardeu quando, acidentalmente, o shampoo entrou em contato com os dedos que ela até mesmo tinha medo de mover, mas por recomendação dos médicos, fazia-o sutilmente. Vestir a roupa não foi trabalhoso, mas quando terminou de se vestir e fitou-se no espelho, Demi lembrou que tinha que pentear o cabelo molhado e um pouco embaraçado.

   - Não é tão ruim. – Disse para si mesma ainda se olhando no espelho. Os arranhões tinham sido superficiais, então já não existia mais rastro deles pelo rosto. Fitando-se atentamente, Demi suspirou e franziu o cenho. Talvez o real motivo para tanto mal humor era a ansiedade para o que aconteceria naquela noite. Demi mal tinha conseguido dormir e nem parado de pensar no que poderia conversar com as irmãs. Ela finalmente iria conhece-las, todas elas! Só de pensar que às oito horas da noite em ponto ela estaria na casa de Inácio, o frio na barriga a deixava zonza e o coração acelerava.

Inácio não a deixou em paz por um minuto, e Demi tinha que confessar que estava adorando ter a atenção do pai. Ele ligava para saber como ela estava, tinha ido ao apartamento de Joe para vê-la e no primeiro dia levou flores e chocolate. Inácio se importava, e era muito bom receber carinho e proteção.

Como não iria conseguir pentear o cabelo sozinha, Demi respirou fundo e abriu a porta do banheiro. Conviver com Joe não era fácil, principalmente quando tudo sobre ele a levava a pensar sobre sexo. Ter aqueles olhos verdes hipnotizantes com o olhar fixo aos dela era demais. Demi umedeceu o lábio inferior e engoliu em seco juntando coragem para se sentar a cama. Eram quatro dias terríveis e desgastantes! O pior de tudo era ter a companhia de Joe. Pior porque ele a seduzia até quando perguntava se ela estava se sentindo bem, e diabos! Ele não tinha cedido a nenhuma tentativa dela de esquentar as coisas. Agora deitado e vestindo aquele suéter verde que combinava com os olhos dele, Joe conseguia ser absurdamente quente só pelo fato de estar lendo um livro.

   - Hum, o que foi gatinha? – Demi gemeu baixinho manhosa porque ela queria agarra-lo. Joe era bonito demais! E ela amava quando ele a chamava de gatinha e sorria.

   - Eu preciso de ajuda para pentear o cabelo. – Ronronou se sentando a cama ainda bagunçada com cobertas e travesseiros. – Você pode me ajudar? – Perguntou e fechou os olhos quando o namorado a abraçou por trás com força e suspirou no pescoço causando arrepios por todo corpo.

   - É claro que posso. – Joe sorriu gentilmente e se levantou para buscar por um pente no banheiro. Demi o olhou toda apaixonada. Ela gostava muito de quando ele vestia jeans e calçava botas. – Você está se sentindo bem? – Era a terceira vez que ele fazia aquela pergunta desde que tinham acordado, e Demi assentiu levando a mão direita ao joelho de Joe quando ele se sentou ao lado dela para começar a pentear o cabelo.

   - Eu estou ansiosa. – Disse fitando os olhos bonitos dele. Joe estava concentrado deslizando com cuidado o pente pelo cabelo úmido. – Você tem certeza que não quer ir comigo? – Ela o beijou no queixo barbado e Joe guiou os lábios para os dela começando um beijo calmo e delicado.

   - Amor, eu acho que você precisa fazer isso sozinha. – Ele disse fitando os olhos e os lábios dela. – Na próxima vez que vocês se encontrarem, eu prometo que vou, mas só se o seu pai me convidar. – Pai. Demi ainda o chamava de Inácio mesmo com todos se referindo a ele como o pai dela.

   - Eu não sei se vai ter uma próxima vez. – Comentou tensa. – Tem a possibilidade delas não gostarem de mim. – Disse e Joe arqueou uma sobrancelha.

   - Anna, Isabella e Hannah estavam preocupada com você. – Demi corou bruscamente. Quando ela teve alta, o plano era sair o mais rápido possível daquele hospital justamente para não acabar se esbarrando com as irmãs, e infelizmente aconteceu o que ela tanto temia quando as três a visitaram brevemente antes dela ir embora corada e constrangida.

   - Joe, preocupação é diferente de gostar. – Murmurou e Joe riu a beijando na bochecha.

   - Eu não fico preocupado com uma pessoa que não gosto, você fica? – Demi revirou os olhos e acertou um tapa no braço do namorado, que riu. – Já disse que você está linda? – O abraço que ele a envolveu foi desjeitoso e acabou os derrubando no colchão, o que fez Demi resmungar por conta do braço, mas também sorrir.

   - Eu te amo, bobão. – Ela sorria o olhando nos olhos e Joe também sorria intrigado com a beleza dela. Ele deslizou a ponta dos dedos no queixo, tocou as sardas e perdeu o fôlego quando fitou os olhos marrons.

   - Eu te amo. – Disse roçando o nariz ao dela para depois beija-la na boca. – Desculpa por te derrubar, você machucou bebê? – Perguntou todo carinhoso e Demi assentiu mais interessada em fitar os olhos dele. – Onde? – O rosto dele tinha até perdido a cor, e Demi arregalou os olhos e negou balançando a cabeça.

   - Não machuquei. – Disse. Sempre acontecia, era porque ela estava tão apaixonada por ele a ponto de perder o raciocínio. – Joe, eu quero você. – Disse o olhando nos olhos.

   - Dem.. – Era claro o dilema que Joe enfrentava. Demi franziu o cenho e levou a mão ao rosto dele para acaricia-lo na barba e atrás da orelha puxando as mechas de cabelo com carinho. – Eu também quero você. – Ele disse se curvando para beija-la na boca e assim que o vez, fitou os olhos marrons. – Você está mesmo bem? Não quero machuca-la. – Disse a tocando com muito cuidado no braço esquerdo e Demi assentiu tensa, mas aos poucos relaxou com o toque sutil.

   - Estou. Você só terá que ser um pouquinho paciente comigo. – Demi sustentou o olhar de Joe até que ele assentiu umedecendo os lábios.

   - Só vamos terminar de pentear o seu cabelo, tudo bem? – Disse e ela assentiu se erguendo ficando tão próxima a ele. Joe a abraçou e a beijou na boca. – Linda. – Sussurrou guiando os beijos para o pescoço para depois olha-la nos olhos. – Eu gosto muito do seu cabelo, a cor combina com os seus olhos.

   - Eu também gosto da cor do meu cabelo. – Ela disse observando uma mecha que caía pelo ombro já com as pontas secas. – O seu cabelo também é bonito, amor.

   - Dem, eu estou muito cabeludo. – Ele murmurou e Demi riu levando a mão boa para acaricia-lo no cabelo. – Mas você gosta, gatinha. – Ela assentiu e Joe sorriu gostando do carinho que recebia.

   - Você não está muito cabeludo, mas se quiser cortar as pontinhas, não tem problema.

   - Você quer ir comigo hoje? – E como ela tinha ensinado, Joe partiu o cabelo dela de lado e sorriu quando fitou os olhos da namorada revelados assim que ele penteou o cabelo que caía na face para trás da orelha.

   - Para onde você quiser. – Finalmente ele tinha terminado! O pente e a toalha foram jogados para fora da cama quando Demi pôs-se de joelhos para que pudesse beijar Joe e abraça-lo contra o corpo. – Eu senti sua falta. – Disse de olhos fechados porque Joe a beijava no tórax ainda coberto pelo moletom.

   - Eu também, mais do que você imagina. – Demi engoliu em seco quando os lábios dele beijaram abaixo do umbigo, e conforme o moletom era erguido, Joe distribuía beijos na pele que era revelada. – Preto? Fica muito sexy em você. – Dava para ver nos olhos dele que Joe não mentia apreciando o sutiã rendado de cor preta. – Me ajuda a tirar o seu moletom, gatinha? – De tão bom que era ter os lábios dele a beijando na barriga, costelas e abaixo do umbigo, quando Demi ergueu os braços, ela ofegou fechando os olhos nem se lembrando que o braço esquerdo estava machucado porque os carinhos de Joe eram o suficiente para fazê-la esquecer.

   - Joseph. – Chamou de cenho franzido e olhos entreabertos porque ela ainda tinha os braços erguidos e tudo que Joe fazia era beija-la e chupa-la abaixo do umbigo de uma forma tão provocante que só restava gemer. – Joe. – Demi umedeceu os lábios, mas nem deu tempo de repreender Joe por deixa-la de castigo. A mão grande e quente dele adentrou a calça de moletom e facilmente driblou o tecido de algodão da calcinha. Os dedos a tocaram a sondando e os lábios moldaram-se aos dela num beijo exigente e intenso.

   - Desculpa amor, eu não queria você esperasse tanto. – Se fosse para tê-lo, Demi esperaria todo o tempo do mundo. – Você está tão quente. – Ele disse a beijando do umbigo até o queixo e com muito cuidado tirou o moletom que ela vestia.

   - Eu odeio o fato dessa droga de braço estar machucado. – Resmungou o abraçando apenas com o braço direito e Joe sorriu envolvendo a cintura dela com os braços tendo todo o cuidado para não fazer movimentos bruscos que afetariam o braço esquerdo.

   - Nós vamos dar um jeito de ser gostoso para você. – Sempre era. Demi fechou os olhos para sentir os beijos que recebia no pescoço e o carinho nas costas nuas a arrepiou da cabeça aos pés.

   - Por que eu sempre tenho que ficar nua primeiro? – Perguntou sorrindo quando Joe abaixou a calça que ela vestia junto com a calcinha e a guiou para fora da cama para que pudesse terminar de despi-la.

   - Você ainda está de sutiã. – Joe sorriu a olhando enquanto se livrava do suéter. – Tira minha calça.

Primeiro ela o acariciou no abdômen deslizando as pontas dos dedos em cada pedacinho de pele estudando como o músculo era trabalhado e os pelinhos escuros um detalhe sexy e único. Os lábios foram selados acima do peito esquerdo e Demi levou as mãos para o peito de Joe para depois leva-las para o rosto dele tendo que erguer a cabeça para olha-lo nos olhos.

Os olhos dele eram lindos, de um verde puro e encantador. Demi umedeceu os lábios quando os dedos da mão esquerda foram cuidadosamente beijados. Ela queria fechar os olhos, mas não conseguia desviar o olhar do dele. O sorriso tímido nos lábios de Joe também a fez sorrir, e se esforçando para ficar na ponta dos pés, Demi conseguiu alcançar os lábios dele e sela-los.

O momento que compartilharam naquela manhã fortaleceu ainda mais o que um sentia pelo outro. Foram suspiros, beijos e tantos olhares marcantes. Quando se deitaram, aconteceu como sempre: Joe puxou a coberta pesada para sobre o corpo e fixou o olhar ao da namorada conforme se movia no interior dela que o abraçava apenas com o braço direito e não ousava em desviar o olhar do dele por nada.

   - Vai dormir? – Joe se ergueu para olhar Demi e sorriu porque ela estava deitada com a cabeça encostada no peito dele de olhos fechados e também deslizando a ponta dos dedos abaixo do umbigo brincando com os pelinhos que tinham ali.

   - Não, eu só estou pensando. – Disse e o beijou na peito logo se aninhando a ele da melhor forma que podia. – Se você fizer carinho no meu cabelo, eu vou dormir. – Ronronou manhosa quando sentiu os dedos dele acaricia-la no cabelo da nuca e atrás da orelha.

   - Dem, eu estava pensando. – Disse chamando a atenção dela que o olhou atentamente nos olhos. E foi tão bonito vê-la nua, com o cabelo um pouco bagunçado e lábios avermelhados olhá-lo com atenção com aqueles lindos olhos marrons. – Deus, eu amo suas sardas. – Sussurrou de cenho franzido fitando as sardas dela e acabou deslizando o dedo pela bochecha direita fazendo Demi sorrir lindamente só para ele.

   - Eu amo seus olhos. – Retribuiu o elogio e Joe sorriu sem jeito quando ela se ergueu com certo cuidado revelando os seios nus apenas para conseguir beijá-lo na boca.

   - Bem, eu estava pensando, linda. – Começou a dizer tocando a silhueta do corpo feminino com as mãos gostando de como as curvas eram perfeitas. – Que.. Eu não ainda não tenho um anel, nem uma casa e nem um carro, mas.. Acho que nós podemos dar o próximo passo. O que você acha, princesa? – Os dedos dele deslizavam com carinho na bochecha e no cabelo longo enquanto os olhos desfrutavam da beleza daquela mulher.

   - O que você está tentando dizer? – Demi perguntou sentindo o coração bater um pouquinho mais rápido.

   - Que eu quero que você seja minha esposa. – Ele sorriu de lado com o olhar surpreso dela. – Não é um pedido formal. Você quer casar comigo? – Demi se ergueu sorrindo, acariciou a bochecha de Joe e o beijou ternamente.

   - Quero. – Ela disse fitando os olhos dele sem conseguir parar de sorrir. – Quero tudo com você, meu amor.

   - Quero que você seja a mãe dos meus filhos. – Disse a deitando com cuidado. – Quero dormir todos os dias abraçado com você. – Joe sorriu quando roçou a ponta do nariz no de Demi que também sorriu acariciando o rosto dele com as mãos. – Fazer amor depois de um dia cansativo. Cuidar de você, gatinha.

   - Quantos filhos você quer ter, amor? – Ela perguntou o acolhendo entre as pernas e Joe se roçou a ela todo apaixonado.

   - A quantidade que nós pudermos. – Demi arqueou as sobrancelhas em surpresa, mas riu o ajudando a ficar da forma que ele queria. – Vamos encher a casa de crianças e vamos dar amor de sobra para todas elas. – Joe a abraçou por trás e como queria, colocou uma perna entre as de Demi e o guiou para o interior dela. – O que você acha, princesa? – Ele gemeu no ouvido dela quando começou a se mover devagar e quando Demi o olhou sobre o ombro, Joe a beijou na boca e acariciou os seios porque ela pediu.

   - Ficarei satisfeita com um casal com os seus traços, bebê. – Demi fechou os olhos levando a mão para apertar o antebraço de Joe até que os dedos envolveram os dele para que juntos pudessem acariciar o seio. – Eu te amo muito, querido. – Disse baixinho ainda de olhos fechados se entregando de corpo e alma ao momento.

   - Eu também amo você. – Ele a fez rir quando a beijou exageradamente e a abraçou apertado. – Hum, eu estou ficando um pouquinho cansado, nós podemos... – Demi arqueou uma sobrancelha quando o olhou. Ele estava corado e sem jeito.

   - Trocar de posição? ­– Perguntou e o beijou no queixo quando Joe assentiu todo corado. – Como você quer? – Sussurrou no ouvido dele logo o beijando no maxilar fazendo Joe sorrir de orelha a orelha. – Eu acho que o senhor não está cansado coisa nenhuma, Joseph. – O melhor de tudo era vê-lo sorrir envergonhado e todo corado. Ela tinha o expulsado do corpo e como Joe gostava, ficou: deitada de bruços. – Isso tudo é porque o senhor não tem coragem de falar que quer fazer amor comigo de quatro? ­– Demi riu alto e escondeu o rosto no travesseiro porque se ela fizesse muito barulho, Lucy abriria a porta do quarto a patadas para saber o que estava acontecendo, aí sim Joe ficaria mais vermelho de vergonha, quando acontecia, ele ficava todo sem jeito, puxava a coberta para se vestir e colocava a cadelinha para fora do quarto todo tímido.

   - Dem, você sabe que é a minha posição favorita. – Ela mostrou língua e ergueu o quadril quando Joe pegou um travesseiro para que ela pudesse empinar o bumbum para ele.

   - E por que você está demorando? – Perguntou Demi quando começou a sentir frio porque Joe nada fazia. – Joseph! – Ela franziu o cenho quando o olhou. Ele estava de joelhos fitando o corpo dela com atenção, e quando a olhou nos olhos, sorriu tímido.

   - Eu só estou admirando. – Disse um pouco corado, e Demi riu o achando fofo. – Não é fazer amor de quatro, é de bruços. – Resmungou puxando a coberta para as pernas quando ele se deitou cuidadosamente sobre ela.

   - Nós dois sabemos que você fica maluco quando eu fico de quatro. – Demi adorava pirraça-lo, e o resultado sempre era as bochechas de Joe coradas.

   - Na verdade, eu fico maluco quando estou com você. – Disse a beijando atrás da orelha e a penetrando. – Não importa a posição, se estamos fazendo amor ou não. – Demi sorriu de olhos fechados quando teve o couro cabeludo acariciado e logo as mãos de Joe estavam enlaçando os dedos aos dela. – Se estiver desconfortável, fala. – Não tinha muito o que fazer. Demi encostou a cabeça no travesseiro e se concentrou em sentir todo o prazer que recebia, moveu o corpo contra o dele algumas vezes e o chamou e ronronou fazendo jus ao apelido.

***

Tinha mulher mais bonita que a dele? Joe sorriu todo apaixonado quando a viu sair do closet, já que o tempo que eles passaram juntos namorando era o motivo para o segundo banho do dia. Vermelho era uma cor que combinava com o tom de pele rosado de Demi, e os lábios dela estavam cobertos por batom vermelho e o blazer carregava aquela cor.

   - Eu tenho a namorada mais linda do mundo. – Joe a encheu de beijinhos quando Demi se sentou no colo dele e o abraçou pelo pescoço. – Eu adorei a sua roupa. – Ele gostava de como Demi ficava poderosa calçando sapatos de salto principalmente quando ela vestia jeans colados. – E essa camisa.. Hum, acho que ela é minha. – Ele a tocou nos mamilos só para fazê-la sorrir.

   - Amor, essa camisa da Poison Ivy é tão linda, eu não pude resistir. – Demi sorriu amarelo e apertou as bochechas de Joe quando ele encostou a cabeça nos seios e a olhou com carinha de cachorrinho carente. – Eu posso usa-la? – Perguntou o acariciando nos pelinhos da barba até que Joe fechou os olhos e murmurou um sim a beijando na região dos seios para depois no queixo. – Eu nunca o vi usando essa camisa. – Comentou puxando as mechas de cabelo dele.

   - Eu ganhei do Derick, mas nunca tive coragem de usar. A estampa é muito sensual. – Ele disse fitando o desenho da vilã estampado na camisa que Demi vestia. – Ficou muito bom em você, gatinha. – Eles trocaram um beijo rápido para não borrar o batom de Demi e se olharam. – Amor, antes de vim para Nova York, eu prometi a Rose que iria a formatura dela. É já estamos em Novembro. – Comentou ainda a olhando e estudando a reação de Demi que apenas assentiu desviando o olhar do dele. – E eu acho que a minha família precisa conhecer a minha futura esposa, o que você acha? – Demi sorriu apenas porque achou fofa a forma que ele se referiu a ela como futura esposa. Quando o relacionamento chegava naquele ponto de conhecer a família, geralmente Demi ficava muito nervosa. Conhecer a família de Joe, principalmente depois que todos já sabiam sobre Jake, os vídeos e a profissão da mãe, era complicado.

   - Joe, é a formatura da Rose. Eu acho que não vou ser bem-vinda. – Comentou se sentando ao lado dele e Joe franziu o cenho.

  -  Dem, você conversa com a tia Laura todos os dias. Ela gosta de você e a vovó também. Eles vão recebe-la de braços abertos, amor. – Disse enlaçando os dedos aos dela. – Eu quero muito que você conheça onde eu cresci. Vai ser bom pra gente. E é importante pra mim, princesa. – Demi sabia que era. Conhecer o Texas a ajudaria entender muitos pontos da vida de Joe, e era o lugar onde ele cresceu, seria muito bom ouvir as histórias que Joe tinha para contar e imagina-las enquanto eles conheciam cada pedacinho da fazenda Jonas.

   - Você acha que é o momento certo? – Perguntou o olhando nos olhos. – Minha carta de demissão está dentro da minha bolsa, eu não sei o que vai acontecer a partir de hoje. Também vou conhecer a min.. minha família. Eu estou com medo das coisas não darem certo, Joe. É muita coisa para pouco tempo. E eu não posso falhar. Abrir um escritório não será fácil, conhecer as minhas irmãs também não. E se eu for péssima com a sua família, como nós vamos fazer? Eu nunca sai do estado, nunca estivesse numa fazenda, eu não sei o nome das coisas, não sei como poderei me entrosar com o seu pessoal, a Rose não gosta de mim, eu n..

   - Dem! Amor, você vai conhecer a fazenda comigo. Eu não vou te deixar passar apuros. E a vovó gosta de você, se ela não gostasse, seria outra história, mas ela gosta. Quando eu converso com ela, ela pergunta se você está bem, se eu estou cuidando bem de você. Acredite, quando a minha vó não gosta de uma pessoa, ela fica muito brava. – Ele sorriu ao se lembrar de como Clara tinha uma natureza forte e indomável. – E tem a tia Laura, ela é como uma mãe para todos, ela não vai deixar você passar apuros. – Joe esbarrou o ombro no de Demi e sorriu quando ela o olhou nos olhos já que estava cabisbaixa. – Vai ser incrível. E nós vamos de avião, não demora muito e você pode tomar um remédio para enjoo. – Ele enlaçou os dedos aos dela e para fazê-la sorrir, beijou-a na bochecha. – Você precisa descansar pelo menos algumas semanas. Quando nós voltarmos, pensamos como vamos abrir o seu escritório. E sobre hoje, aposto que você vai se divertir muito. Não precisa ficar nervosa. – Joe não sabia muito o que poderia dizer para Demi sobre ter irmãos porque ele não tinha nenhum, mas pela experiência com os primos, apostava que deveria ser uma relação interessante.

   - Você vai falar para sua avó que quer casar comigo? – Demi perguntou como uma criança tímida e Joe assentiu um pouco surpreso com a pergunta.

   - É claro que sim, mas acho que ela já suspeita. – Eles sorriram e Demi assentiu deitando a cabeça no ombro do namorado. O maior desafio naquele dia se dividia em dois. Levar a carta que estava dentro da bolsa sobre a poltrona à Gyllenhaal e ir a casa de Inácio as oito da noite para jantar.

   - Amor, nós vamos morar no meu apartamento? – Perguntou e Joe demorou um pouco para entender. – Eu acho que o espaço é bom para nós, só basta você largar de ser orgulhoso. – Demi sorriu arrumando a gravata de Joe e ele fez careta, mas sorriu.

   - Bem, eu vou trabalhar na TI da empresa, o salário é melhor. Nós podemos alugar uma casa. Tem a Lucy. – Disse e Demi assentiu pensando no que eles poderiam fazer depois do casamento. – Você quer uma festa grande? – Perguntou a olhando nos olhos.

   - Não. Eu não tenho muitos amigos, e não conheço muitas pessoas que eu convidaria para ir ao meu casamento. E você? Quer uma festa grande? – Perguntou brincando com a aliança de compromisso dele ainda o olhando nos olhos.

   - Também não. Minha família é grande, mas eu.. Eu não sei, só não quero nada exagerado. – Demi se lembrou de Inácio e das seis meninas. Bem, agora ela tinha uma família querendo ou não, e era muita gente.

   - Aqui ou no Texas? – Os dois se olharam um procurando a resposta nos olhos do outro. Estava claro que Demi preferia Nova York e Joe o Texas.

   - Bem, acho que é um detalhe que nós podemos discutir depois. – Disse um pouquinho nervoso e Demi assentiu se lembrando que nunca tinha perguntado a Joe se ele pretendia viver em Nova York porque ela não tinha outro lugar para ir e nem pensava em se mudar. Havia Selena e Demi jamais a deixaria. – Posso avisar para vovó que nós vamos para o Texas no final de semana? – Final de semana? Demi arregalou os olhos e engoliu em seco sentindo as bochechas ruborizarem.

   - Joseph. – Reclamou e ele franziu o cenho. – Eu pensei que nós teríamos mais tempo. – Murmurou já se sentindo nervosa. Era muita coisa acontecendo para uma mulher só administrar.

   - Dem, uma semana demora para passar. É o tempo suficiente para você se organizar. – Não, não era! Demi cerrou os olhos e já se preparava para dar uma bronca em Joe quando Lucy empurrou a porta do quarto, adentrou-o, espreguiçou-se e bocejou antes de se aproximar se esfregando nos donos. – Oi bebê do papai, você dormiu muito hoje! – Ah! Demi revirou os olhos e acariciou Lucy brevemente enquanto Joe brincava com a cadelinha a mimando e recebendo lambidas de Lucy.

   - Joseph. – Chamou-o porque ele ficava todo bobo quando estava com Lucy. – Nós ainda vamos conversar. – Ela teve que dar um tapa no braço dele para Joe olha-la. – Vem cá bebê da mamãe. – Bem, a situação se inverteu, enquanto Joe ficou com cara de poucos amigos, Demi brincou com Lucy com direito até da cadelinha rosnar para Joe quando ele tentou acaricia-la.

   - Vocês duas são chatas quando estão juntas. – Resmungou Joe se levantando, e Demi e Lucy nem perceberam já que estavam completamente alheias a ele. – Demetria, eu estou esperando na sala. – Murmurou mal humorado e quando Lucy o olhou e abandou o rabo, Joe cerrou os dentes. – E eu nem te conheço, sua ingrata. – Disse para a cadelinha logo saindo do quarto e Demi riu com gosto recebendo toda atenção de Lucy. Era fato. Lucy gostava mais de Demi do que de Joe, não importava o que ele fizesse, a cadelinha sempre preferia ficar nos braços de Demi.

   - Mais tarde a gente brinca, princesa. – Demi beijou as orelhinhas de Lucy e a acariciou no torso. Se ela não fosse logo atrás de Joe, ele continuaria mal humorado pelo resto do dia. Ela conhecia o homem que tinha. Pegando a bolsa, Demi sorriu para Lucy e saiu do quarto sendo seguida pela cadelinha que jurava que ela estava indo para cozinha.

   - Tem comida, água e um bônus para você, pequena ingrata. – Disse Joe a Lucy assim que voltou da cozinha. – Nada de aprontar, ouviu? Quero a senhorita longe dos meus sapatos. – Ele se agachou e sussurrou alguma coisa para Lucy logo a beijando no topo da cabeça. E Demi sorriu quando Lucy apoiou as patinhas nas coxas de Joe e se esfregou no peito dele. – Eu também amo você. O sofá é todo seu, só não vale mordê-lo. – Ele pegou Lucy nos braços como fazia quando ela era filhote, o que já ficava desproporcional por conta do tamanho de Lucy, e a deitou no sofá.

   - Ela cresceu rápido. – Comentou Joe sentindo falta de ter Lucy para atrapalha-lo abrir a porta do apartamento para ir para rua. A cadelinha nem se mexeu quando a porta foi destrancada. – O que nós vamos fazer, princesa? – Perguntou assim que trancou o apartamento e enlaçou os dedos aos direitos de Demi como eles sempre faziam quando saiam.

   - Nós temos que ir à Gyllenhaal entregar a minha carta, à barbearia cortar o seu cabelo, ao hospital trocar o meu curativo, passar para olhar um ponto que eu acho que é perfeito para o meu escritório, acho que é só isso. – Disse Demi pensativa enquanto Joe ainda processava onde eles iriam apertando o botão do elevador demoradamente.

   - Gyllenhaal, hospital, barbearia, ponto, tudo isso? – Perguntou de cenho franzido e Demi arqueou uma sobrancelha. – Dem, está nevando, é horrível resolver as coisas nesse tempo. – Disse baixinho adentrando o elevador, que tinha algumas pessoas, com a namorada.

   - Lembrei! Nós vamos visitar o seu velho novo emprego. – Ela disse e Joe choramingou a abraçando de lado. Lá fora nevava, e Joe tinha visto no jornal que eles não tinham boas perspectivas para o tempo para aquele dia, razão pela qual o rapaz usava sobretudo sobre o suéter que estava sobre a camisa social que escondia uma camisa de manga e uma regata. Era tanta roupa que ficava ruim para se movimentar, mas o aquecia. O ruim era não conseguir proteger as bochechas do frio. Quando chegaram ao hall do prédio, Joe engoliu em seco ao ver as pessoas lá fora conversando com direito a sair vapor da boca.

Para pegar um táxi, foi o velho clichê e sempre: uma interminável disputa e o trânsito congestionado. Eles até conseguiram um táxi na primeira tentativa, mas Joe ficou uma fera quando percebeu que o taxista olhava demais para Demi. Como era hábito, Joe ficou emburrado e Demi brava, mas não demorou muito para que os dois voltassem a agir normal já que as brigas não costumavam durar.

   - Demi, depois nós vamos onde? – Joe perguntou cansado. Finalmente tinham chegado a Gyllenhaal depois de ter que enfrentar a neve e atravessar a rua movimentada de carros.

   - Ao hospital e no caminho podemos ver o ponto que falei, depois no seu trabalho e por fim à barbearia. – Só restava para ele assentir seguindo Demi.

Caminhando diretamente para recepção, Demi perguntou por Marcus e depois de uma ligação para o então presidente da Gyllenhaal, ela conseguiu autorização para subir. Seria muito estranho passar a manhã e tarde longe daquele prédio. Demi gravou cada detalhe enquanto subia com Joe de elevador para a sala de Marcus. O que ela mais sentiria falta era de trabalhar com mulher incríveis. Juntas elas tinham conquistado o título de melhor departamento por duas vezes seguidas, e quem estava na frente liderando e organizando era Demi.

O costume era ter uma secretária para cuidar das atividades e compromissos do presidente, mas no lugar de uma moça bonita e bem produzida estava um rapaz educado e prestativo que anunciou a Marcus que Demi havia chegado.

    - Srta. Lovato, boa tarde. – Disse o irmão de Susan educadamente oferecendo a mão para que Demi a apertasse e logo olhou para Joe, também o cumprimentando com um aperto de mão. – Sentem-se. Que eu me lembre, a Srta. tem um atestado de quinze dias. – Disse Marcus e Demi assentiu envolvendo os dedos aos de Joe quando já estavam acomodados a poltrona. Ela odiava estar naquela sala e principalmente se sentar aquela mesa. Jason tinha sido morto ali, a poucos centímetros de onde ela estava. – Perdoe a indelicadeza, mas qual o motivo da visita? – Marcus perguntou a olhando nos olhos e Demi engoliu em seco. Ela estava começando a ficar nervosa e se questionando se era realmente o que queria. Não tinha como encontrar um emprego como aquele, e nem mesmo trabalhar por conta própria resultaria no mesmo pagamento da Gyllenhaal.

   - Eu.. Eu.. – As bochechas dela coraram e para acalma-la, Joe levou a mão livre para cobrir a de Demi que tinha os dedos enlaçados aos dele. – Eu pensei muito, e por motivos pessoais, estou pedindo demissão. – Certamente não era daquela forma que forma que Demi queria que acontecesse, talvez algo mais formal e com palavras mais arranjadas, mas não havia outra maneira de pedir demissão. – Esclareci melhor os meus motivos numa carta. – Abrir a bolsa não era nada complicado, e por conta da situação e dos dedos da mão esquerda lerdos porque ainda estavam em recuperação, deu trabalho para conseguir pegar o envelope e entrega-lo para Marcus.

   - Você tem certeza, Demi? Pense bem, você está numa posição boa para pouco tempo de carreira. Minha oferta é: pagarei vinte e cinco por centro há mais do seu salário. – Demi franziu o cenho e umedeceu os lábios desviando o olhar de Marcus. Receber há mais com o que ela planejava, seria ótimo e resolveria muitos problemas, só não a paz de espírito.

   - Não estou fazendo por dinheiro. – Disse sentindo as bochechas corarem. – Sobre os projetos que comecei, passo termina-los. Será o meu último trabalho para Gyllenhaal.

   - Entendo perfeitamente o motivo. O que você fará? – Ele estava assinando! Demi apertou mais os dedos aos de Joe e se perguntou novamente se ela estava fazendo o certo em pedir demissão.

   - Estou pensando em montar um escritório de Design. – Disse timidamente porque Marcus estava lendo a carta e o que intrigava era porque às vezes ele franzia o cenho, mas na maior parte do tempo estava indecifrável.

   - Bem, a Srta. está oficialmente demitida. – Aquilo deveria soar bem? Demi piscou algumas vezes, mas assentiu porque ela deveria se orgulhar da decisão que tinha tomado, e se não fosse algo bom, aprender com o erro. – Ainda estou considerando o atestado, então depois dessa prazo, você tem uma semana para terminar os projetos da empresa. – Uma semana era pouco! Demi queria discutir com Marcus sobre aquela péssima mania que ele tinha de querer construir o mundo em pouco tempo. As coisas não funcionavam daquele jeito! Ter criatividade era algo tão relativo e consequentemente dependente de uma série de fatores independentes que poderiam mudar o curso de tudo. – Quando o seu escritório estiver pronto, entre em contato, caso queira prestar serviço para Gyllenhaal. Nós podemos fazer um contrato. – Era melhor que nada. Demi assentiu e sem querer acabou fitando a estante onde haviam os livros que ela tinha encontrado as malditas fitas onde Jake escondia os vídeos de sexo com ela.

   - Obrigada pela compreensão. – Disse a Marcus quando o olhou ainda pensando nos maus bocados que tinha passado com Jake. – Nós já vamos. – Disse e Joe franziu o cenho, mas se levantou quando Demi o fez.

   - Seus direitos estão garantidos. Sucesso, Demi. – A sensação era espantosa e o medo de ficar desempregada pior, porém Demi se sentiu tão bem quando pensou que não teria mais nenhum laço com Jake. E em relação a Jason, ela tinha certeza que ele entendia.

***

   - Nada vale a paz da gente, Dem. – Comentou Joe. Desde que saíram da Gyllenhaal, Demi estava calada e pensativa. Ela tinha dito poucas palavras e Joe percebeu que ela estava emocionada quando eles saíram do prédio e Demi o olhou por algum tempo até que o frio a incomodou. – Meu sonho era trabalhar na Gyllenhaal, mas depois que comecei a trabalhar para o Steve, percebi que não importa a quantidade que ganhamos, é melhor trabalhar com pessoas de caráter e respeitosas a trabalhar num ambiente carregado de coisas ruins. – Joe tinha razão e Demi assentiu já se sentindo nervosa porque estavam em frente ao hospital onde ela tinha recebido os cuidados médicos depois que foi atacada por Mary e também era onde Anna estagiava.

   - Foi o primeiro emprego que eu exerci a minha profissão. – Ela disse o olhando. – Foi através do meu trabalho para Gyllenhaal que consegui comprar o meu apartamento. É importante para mim, entende? Aprendi muito com o Jason e sempre serei grata a ele e a Gyllenhaal por ter tido essa oportunidade.

   - Pense que agora é uma nova partida e que você tem a mim como suporte. – Demi riu alto e abraçou Joe de lado porque ela não poderia ter um namorado melhor.

   - Você é muito nerd, Joseph. – Disse e ele também riu a beijando exageradamente na bochecha.

   - Você está rindo, então é porque entendeu, então você também é muito nerd, Dem. – Demi não negou, envolveu o pescoço de Joe com os braços e o beijou na boca com muita paixão e carinho. – Bebezão, você é um amor. – Joe sorriu quando ela o beijou no queixo e o abraçou forte porque eles estavam sujeitos a neve que não parava de cair.

  - Quando nós chegarmos em casa, eu quero dormir agarrada com você. – Os dois sorriram e  trocaram apenas um rápido selinho. – O que você achou da localização do ponto? – Perguntou ainda distribuindo selinhos nos lábios dele.

   - Bem, é perto de casa. – O floco de neve derretendo na ponta do nariz de Joe foi o suficiente para que ele fizesse careta e guiasse Demi para dentro do hospital.

   - Eu estou nervosa, Joe. – Comentou segurando a mão dele e Joe a abraçou de lado.

   - Por qual motivo? – Perguntou e Demi mordeu o lábio inferior pensando no porque dela estar nervosa.

   - Porque provavelmente vou encontrar a Anna. – Disse se certificando que apenas Joe a ouviria.

   - Bem... – A vontade de Joe era de rir de como Demi ficou vermelha de vergonha quando eles toparam justamente com Anna. Não dava para disfarçar ou fingir que eles não tinham se encontrado. Foi quase um esbarrão e Demi e Anna ficaram cara a cara.

   - Demi, oi! – Disse Anna simpática como sempre e ficou claro que Demi estava sem jeito, mas mesmo assim cumprimentou a irmã com um tímido oi ainda corada. – Como você está? – O coração de Demi quase saiu pela boca e com Anna não foi diferente. Elas demoraram o tempo que acharam suficiente no abraço. Era o segundo abraço que trocavam, e não foi nada constrangedor, bem pelo contrário foi reconfortante e fez Demi sorrir.

   - Estou melhor. E você? – Disse Demi colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e observou Anna trocar um breve aperto de mão com Joe para depois olhá-la com atenção.

   - Cansada, mas bem. – Elas sorriram mal conseguindo sustentar uma o olhar da outra. – Está tudo certo para hoje à noite? O papai está ansioso e as garotas estão malucas organizando o jantar. Isso é muito raro, geralmente elas não conseguem chegar, sem antes fazer uma guerra, num acordo que agrada a todas. – Demi riu imaginando o caos que deveria ser, e também se sentiu nervosa porque ela faria parte daquela família.

   - Está. – O que mais ela poderia dizer? Demi mordeu o lábio inferior e lutou para que as bochechas não corassem. Ela também evitou olhar para Joe, porque sabia que ele iria rir de como ela estava sem jeito e automaticamente acabaria mais corada. – Eu devo levar alguma coisa? – Perguntou fitando os olhos marrons de Anna que deu de ombros.

   - Está tudo sobre controle. Você tem algum tipo de alergia alimentar? – Perguntou e Demi franziu o cenho pensando. Dianna nunca tinha comentado a respeito e ela nunca havia passado por problema semelhante.

   - Eu acho que não. – Disse envergonhada.

   - Então está tudo certo. Vamos trocar esse curativo? – Anna era muito simpática e paciente. Segurando a mão de Joe, Demi acompanhou a irmã ao ambulatório mantendo uma conversa saudável e interessante sobre aquela época do ano. Não era nada demais, porém ajudava Demi a ficar mais calma e à vontade com a situação.

   - Está tudo bem? – Demi cerrou os olhos quando fitou os de Joe. E ele riu. Anna analisava o estado do braço e Demi nem mesmo tinha coragem de olhar para saber como estava, o que era divertido para Joe que achava engraçado como a namorada era apreensiva e medrosa.

   - Muito bem. No final da semana podemos tirar os curativos dos dedos. – Ah não! Aquilo era uma droga. Primeiro era choramingou, mas assentiu fazendo Joe e Anna rirem de como era manhosa.

   - Dói, ok? – Justificou-se e Joe a beijou brevemente na bochecha. – Passarei o natal bem? – Perguntou e Anna assentiu terminando o curativo concentrada.

   - O quadro não é grave. As feridas estão cicatrizando, agora só é cuidar. – Demi assentiu aliviada. Ela não entendia nada sobre área da saúde, quem a ajudava era Joe.

   - Eu pensei que iria doer e demorar um pouco mais. – Comentou quando percebeu que Anna já tinha terminado. Ela era realmente boa com o que fazia, tanto que o toque era leve e gentil. Demi só não sabia que Anna não trocava curativos, geralmente quem era responsável por aquela tarefa era um enfermeiro, mas a pedido do pai e porque queria ficar mais próxima, Anna o fazia.

   - Está tudo bem. – Quando Anna descartou as luvas e os demais itens que tinha utilizado, Demi aproveitou para sorrir para Joe. Ele estava quieto a deixando interagir naturalmente com a irmã. – Eu estou indo para casa, vocês querem carona?

   - Nós estamos indo para o Brooklyn, se você for passar por lá, tudo bem. – Disse Demi e Anna sorriu porque as bochechas de Demi coravam toda vez que elas conversavam até mesmo coisas simples.

   - Está nevando. – Para quebrar mais o gelo, Anna levou a mão ao ombro esquerdo de Demi e colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. – Não se preocupe com nada. – Elas se olharam nos olhos e Demi assentiu esboçando um pequeno sorriso. – Eu vou buscar as minhas coisas, podemos nos encontrar na recepção?

Demi revirou os olhos quando Anna seguiu caminho hospital a dentro e Joe começou a rir. O que ela podia fazer? Não tinha como agir normalmente perto alguém que ela pouco conhecia e ainda por cima era uma das seis irmãs. A situação era complicada e pegou todo mundo de surpresa.

   - Você é um bobo, Joseph. – Resmungou emburrada e para pirraça-la, Joe a abraçou por trás e a beijou na bochecha. – Me deixa Joseph. – Tornou a resmungar, mas Joe não a soltou.

   - Não, gatinha. – Quando a viu tentar esconder o sorriso, foi aí que Joe a abraçou com mais força para Demi o reclamar como sempre acontecia. – É que eu acho tão fofo você quando cora. – Comentou a abraçando de lado porque eles tinham chegado a recepção do hospital onde havia um movimento maior de pessoas. – Tudo que a Anna fala te deixa corada, é muito fofo amor. – Demi acabou cedendo quando abraçou Joe de lado e ela aproveitou para encostar a cabeça no peito largo descansando.

   - Mesmo assim, você não deveria rir de mim. – Ela não queria que Joe a visse sorrindo, mas aconteceu e discretamente Joe a beijou na boca. – Ela é tão educada e gentil, eu só fico sem jeito. – Disse o olhando os olhos e Joe sorriu encostando os lábios nos dela num selinho.

   - É normal, mas você vai acostumar. – Joe abraçou Demi contra o peito depois de beija-la na testa e minutos depois ele sorriu quando avistou Anna caminhando na direção dele. – Relaxa, ok? – Disse a Demi que o beijou na bochecha e de envolvida que ela estava, abraçou-o com força e fechou os olhos.

   - Vamos? – Joe sorriu para Anna que também sorriu quando Demi assentiu sem jeito fitando os próprios pés.

   - Você está aqui desde o começo da semana? – Perguntou Demi a irmã. Joe tinha razão, ela deveria relaxar e se enturmar como sempre fazia.

   - O meu plantão acabou há dois dias, mas tenho que vir para o hospital todos os dias. Agora que estamos no inverno, o hospital precisa de reforço para cuidar dos necessitados e dos demais casos. – Se acordar as sete quarenta era horrível, imagina acordar antes das seis? Ficar noites sem dormir e ainda ter que estudar à noite. Ainda mais naquele frio. Demi franziu o cenho quando olhou na direção da porta de vidro podendo ver a neve caindo continuamente. Demoraria para que o verão voltasse, e até lá, enfrentariam sensações térmicas baixas piores. As pessoas sofriam com o inverno, principalmente as que não tinham um teto e condições financeiras para conseguirem se manter. Havia casos de hipotermia e pessoas e animais morriam por conta da onda de frio. Era bom saber que Anna tinha um bom coração. Demi a observou e sentiu orgulho de ter como irmã uma mulher forte que ajudava as pessoas.

   - Anna? Já está de saída? – O que foi aquilo? A  voz soou grossa ao mesmo tempo que era suave. Era a primeira vez que Demi tinha visto o ar sério de Anna ser quebrado. Ela perdeu a postura de mulher decidida para a de uma garota apaixonada. Os olhos marrons só tinham foco nele e as bochechas estavam levemente coradas. Também não era para menos. O homem era tão bonito que quando teve a mão levemente apertada, Demi olhou para o lado e engoliu em seco porque Joe tinha arqueado uma sobrancelha a olhando.

Dr. Ricardo Harris, Pediatra. Era o que estava escrito no crachá de identificação preso no bolso do jaleco branco. Moreno e alto, mais alto que Joe. Olhos cor de mel suaves. O cabelo escuro era um charme penteado despojadamente. E o sorriso? Quando Ricardo sorriu, Demi olhou para Anna que ainda estava calada, mas logo piscou colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha.

   - Rick, oi! Eu estou de saída. – Disse um pouco atrapalhada e Joe e Demi perceberam que Anna estava realmente apaixonada, só Rick que parecia não perceber. Ela mostrava em todos os detalhes, desde a forma como o olhava a como agia. – Essa é minha irmã, Demi e o Joe, o namorado dela. Pessoal, esse é o Dr. Ricardo, meu orientador e supervisor de estágio. – O olhar que Anna tinha trocado com Demi explicava tudo. E era uma droga!

   - É um prazer conhece-los. – Rick era muito gentil e depois de cumprimenta-lo, Demi lançou um rápido olhar a Anna certificando-se que ela não parava de olha-lo admirada. – Você pode me enviar uma cópia atualizada da monografia ainda hoje? Nós podemos nos encontrar para discutir alguns pontos. – Anna mordeu o lábio inferior e olhou para Demi para depois para Rick. Havia meses que ela queria que aquele encontro acontecesse mesmo sendo completamente acadêmico.

   - Essa noite não vai dar, tenho um compromisso de família muito importante. Nós podemos marcar para depois de amanhã? Amanhã é o aniversário do meu pai. – Anna olhou para Demi que arqueou uma sobrancelha, e depois olhou para Rick. Pelo olhar dele, Anna soube que a resposta era negativa. Era um bom rapaz, mas interpretar os sinais de Rick era uma missão complicadíssima e deixava Anna confusa.

   - Não, tudo bem. Só me envie a cópia atualizada antes da meia noite. – Ele tinha apenas acenado se despedindo. Demi massageou o cenho porque ela conhecia aquele tipo que mandava indiretas, mas não tomava atitude. O pior tipo.

   - Nós podemos remarcar o jantar. – Disse Demi a Anna a tocando no ombro, e demorou um pouco para que a irmã desviasse o olhar de Rick para fitar os olhos de Demi.


   - Está tudo bem.  Anna não conseguiu esconder a frustração ainda olhando para Rick que conversava na recepção. – Hoje é a nossa noite. 


Continua... Oi! Tudo bem com vocês? Eu estou bem. Então, espero que vocês gostem do capítulo, acho que ele é o último da temporada, vou realmente dividir a fanfic em duas porque tem algumas coisas para acontecer e eu acho que ficará enorme se eu continuar trabalhando nessa temporada já que estamos no Capítulo 54. Sobre a próxima temporada, nós teremos mais foco na família da Demi e na do Joe, o escritório e no prólogo dessa fanfic.. Espero que vocês tenham gostado desse capítulo, particularmente, eu não curti muito, não consegui encher o capítulo com o cenário e elementos simples como gosto, mas espero que tenham gostado pelo menos um pouquinho kkkkk Até mais! Obrigada por todos os comentários, beijo para todas!

9.12.17

Capítulo 53 - Parte 2/2

Demi não sabia distinguir se o frio que sentia era de medo ou o do ambiente geralmente gelado do banheiro. O coração estava tão acelerado e as mãos trêmulas. Engolindo em seco, ela moveu a mão em direção a porta da cabine depois de juntar toda a coragem que tinha. Selena não tinha respondido, mas o barulho os passos indicava que alguma coisa estava acontecendo.

   - Selena? – Chamou e fechou os olhos porque o medo estava a dominando. O silêncio era tão absoluto que quando o som da voz abaixou-se até que era nulo, o clima ficou pesado. Demi podia sentir que tinha alguém a esperando e era o que mais a assustava, a presença intimidante. – Que seja apenas uma brincadeira. – A voz quase não saiu, e foi tão baixa que só ela escutou. – Que seja apenas uma brincadeira. – As mãos tremeram e por instinto Demi olhou para cima da porta porque estava se sentindo observada. – Selena? Isso não tem graça! – Não era uma brincadeira, Demi engoliu em seco começando a ficar apavorada de medo. Se ela soubesse que era uma brincadeira da melhor amiga, não teria tanto medo de sair daquela cabine. O extinto a ajudaria, mas agora tudo que ele fazia era alerta-la.

Silêncio! Lutando contra o medo que começava a toma-la na mente e no corpo, Demi se esforçou e respirou fundo retomando os pensamentos. O coração acelerou absurdamente quando ela levou a mão ao trinco e o barulho do metal soou pelo banheiro fazendo eco. O medo era de abrir aquela porta e encontrar um monstro do outro mundo esperando ansiosamente para devora-la numa bocada só. Demi ouviu os próprios batimentos cardíacos conforme abriu a porta. E a coragem de olhar para frente? Ela o fez aos pouquinhos e não encontrou nada além que a vista para pia e o enorme espelho que a refletia assim como as cabinas que estavam no ângulo de reflexão. Porém um único passo foi suficiente para que a pele perdesse toda a cor a ponto da boca ficar esbranquiçada.

Erguer as mãos em sinal de rendição como nos filmes era o correto, certo? Demi não soube reagir a cena. Não soube se avançava ou se continuava parada, e pela última opção escolheu em prol da vida de Selena.

Mary era baixinha e visualmente parecia inofensiva. Mas aquela mulher que tinha uma mão cobrindo a boca de Selena para impedia-la de falar e uma arma apontada para a cabeça, era outra mulher. Os saltos eram poderosos e negros como o resto da roupa. As olheiras tinham contraste com o cabelo escuro que sempre aparentava estar impecável agora aparentemente sujo e seboso. A face estava indecifrável. O olhar vazio e perdido.

O que ela faria? Demi arriscou virar a cabeça na direção da porta e assim que constatou que estava travada com uma barra de metal apoiada à maçaneta e ao chão, Mary apertou mais Selena contra o corpo já que a abraçava por atrás e roçou a arma contra o couro cabeludo grosseiramente fazendo com que Selena automaticamente choramingasse de medo e dor.

   - Vo..Vo..Você não precisa fazer isso. – Era uma boa ideia falar? Demi estava com tanto medo, mas o motivo de Selena estar com uma arma apontada para a cabeça era o suficiente para motiva-la a tentar fazer o melhor para manter a amiga e o bebê seguros. – Deixa-a em paz. – Disse e o coração quase saiu pela boca quando Mary mirou a arma exatamente na direção dela.

   - O que você acha Selena? Os seus miolos ou dela primeiro? – O sorriso de Mary era perturbador e doente, o olhar lunático. Demi quis chorar por ouvir aquela frase e principalmente por estar naquela situação que jamais havia se imaginado. Pior de tudo era fitar os olhos de Selena carregados de desespero e medo.

   - Vam.. – O disparo foi rápido e ensurdecedor. Selena se remexeu nos braços de Mary tentando se soltar de qualquer forma, mas sem sucesso. As pernas perderam a força e o choro a tomou. Já Demi franziu o cenho se sentindo confusa e aérea, foram segundos daquela forma até que a dor começou a arder e queimar. Do antebraço do braço esquerdo para baixo o sangue escorria e quando o viu descer continuamente a sujando, ela se desesperou levando, num gesto automático, a mão ao braço.

   - Deu sorte que não acertei os seus miolos como aconteceu com o Jason, sua vagabunda. – Selena franziu o cenho e continuou derramando lágrimas porque a mão de Mary pressionada sobre a boca machucava e o abraço por trás era forte e começava a sufoca-la. – Não faça drama Lovato, só foi um arranhão.

   - O que você quer? – Demi franziu o cenho se sentindo fraca e com tanta dor no braço. Não dava para saber se a bala estava alojada no braço porque a dor era agonizante, o sangue já pingava no chão e estava impregnado nas pernas e no vestido.

Mary dispararia aquela arma novamente, Selena podia sentir que ela o faria, principalmente se Demi continuasse insistindo em falar. E prevendo que o pior iria acontecer, quando Mary mirou a arma na direção da cabeça de Demi pronta para disparar, Selena deu um jeito de empurra-la se remexendo fazendo com que o tiro acertasse o lustre luxuoso que começou a sair faísca de energia, certamente por ter acertado uma parte do circuito elétrico. A luz começou a piscar e a briga corporal foi intensa.

Selena usou as duas mãos para segurar a de Mary que portava a arma fazendo com que ela disparasse duas vezes na direção do teto, porém, por usar as duas mãos, a desvantagem era absurda. Mary a agarrou por trás pelos cabelos os puxando sem dó e chocou o corpo de Selena contra a parede com força, ela retomaria o controle, porém Demi a puxou por trás juntando toda a força que tinha para que Mary não machucasse Selena e nem o bebê. No meio daquela confusão toda, Demi se desequilibrou caindo no chão deitava com Mary sobre o corpo. A arma caiu longe, porém não deu tempo de saber onde, já que Mary atacou Demi com tapas no rosto e também foi atacada com socos que dificilmente chocavam-se em seu alvo.

   - Eu vou te matar pelo Jake, depois que você apareceu a nossa vida virou um inferno. – O tapa que Mary acertou o rosto de Demi ardeu, e movida pela raiva e ódio, Demi quase conseguiu inverter as posições acertando o rosto de Mary com tapas e usando as unhas para arranhar o que encontrasse a frente, porém ela não esperava que a cabeça fosse chocada com força contra o chão e nem receber mordidas nas mãos, e quando o dedo seria quebrado, a voz de Selena a assustou.

   - Sai de cima dela! – Gritou Selena nervosa e tremendo apontando a arma para Mary que a olhou assustada, mas logo a feição mudou para algo zombeteiro e incrédulo. – Eu mandei você sair de cima dela! – Tornou a gritar respirando fundo e olhando para Demi que tinha o cenho franzido e o rosto avermelhado e com alguns arranhões. Sel levou a outra mão para a segurar a arma com mais força e engoliu em seco. – Eu juro por Deus que eu vou atirar! – Disse firme, apesar que o corpo todo tremia de medo.

Sel realmente atiraria, caso Mary continuasse a machucar Demi, mas o barulho da porta sendo arrombada foi ensurdecedor porque atiraram contra a fechadura e um grupo de policiais a chutaram pelo lado de fora. Em questão de segundos o banheiro feminino estava tomado pelos seguranças e policiais que renderam Mary.

***

   - Onde está o saco da ração? – Com todo o trabalho pesado, era impossível sentir frio. Joe vestia apena um suéter e o cabelo estava começando a ficar úmido de suor, até porque estava grande por insistência de Demi. Ela gostava de como nas pontas criavam algumas voltas, então o rapaz decidiu deixar o cabelo daquele jeito justamente para agradar a namorada. Motivo também pelo qual ele usava barba. Joe se recostou na coluna do celeiro e fechou os olhos descansando um pouco quando Steve murmurou “Hum” como ele sempre fazia quando o pedia para esperar.

   - Está no andar de cima sobre a mesa de madeira, filho. – Disse pacientemente e Joe assentiu. Ele subiu as escadas de madeira se deparando com muito feno pelo caminho, acendeu a luz baixa amarelada e encheu os pulmões de ar para que pudesse colocar o saco pesado de ração sobre o ombro esquerdo. – Terminando aqui, nós vamos comer e descansar um pouco. – Disse assim que Joe desceu as escadas e colocou o saco recostado numa coluna para que eles pudessem alimentar os animais.

   - O que nós vamos fazer depois? – Perguntou Joe um pouco sem graça buscando pelo medidor de alumínio onde colocaria a ração.

   - Pensei que você poderia me ajudar com o computador. – Joe assentiu e respirou fundo. E como Steve o conhecia muito bem, ele sorriu observando o rapaz começar a alimentar os cavalos também conversando com eles. – Você quer ir para casa, certo? – Perguntou se juntando a Joe para agilizar o serviço.
           
   - Quero. A Demi está na festa de aniversário da Gyllenhaal, prometi a ela que eu iria encontra-la assim que terminasse aqui. – Disse envergonhado. Além de chefe, Steve também era um bom amigo e Joe tinha contado exatamente tudo que tinha acontecido entre ele e Demi, e às vezes ele recebia valiosos conselhos quando brigava com a namorada.

   - Então deixamos o computador para uma outra hora, quando terminarmos aqui, nós comemos e eu vou te levar para casa. – Joe assentiu esboçando um sorriso tímido quando o chefe riu e o apertou no ombro direito. – Quando vai ser esse casamento? – Perguntou brincando e Joe ficou vermelho, mas não deixou de sorrir.

   - Estou planejando pedi-la nesse final de ano, já estou com dinheiro para conseguir um bom anel. – Ele disse todo sonhador. Se não fosse pelas condições financeiras, Joe já teria pedido Demi em casamento há meses, o ruim era que ele nem mesmo tinha um carro ou moradia própria, o que de certa forma desmotivava o rapaz. Ele queria poder cuidar de Demi da melhor forma que ela merecia e da família que eles construiriam juntos.


O sítio não era parecido com o da família de Joe, era mais simples e pequeno, porém fazia o rapaz se lembrar do Texas e de todas as pessoas queridas que amava. O trabalho era árduo, porém com a boa companhia de Steve, não demorou nada para que eles terminassem.

   - Eu estava pensando. – O homem mais velho levou um guardanapo aos lábios e Joe o observou por segundos antes de voltar a atenção para o prato carregado de comida. Steve tinha aquela mania de fazê-lo comer até não aguentar. E comer raízes como mandioca e batata doce em grande quantidade era de deixar qualquer um ofegando e absurdamente satisfeito. – Você deveria contar à garota sobre os desmaios e que às vezes fica tonto. – Disse Steve passando um rabo de olho em Joe que bebeu um pouco do café com leite para ajudar a massa descer.

   - Eu não quero preocupa-la, Steve. – Ele disse depois de respirar fundo. – A Demi está feliz. Eu posso sentir e ver só de olhar nos olhos dela. Ela está em paz depois de tudo que aconteceu. Eu não quero preocupa-la com besteira. Estou fazendo exames e consultando regulamente com a minha médica. Não é nada de grave, se fosse, eles já teriam avisado.

   - Você já pediu a opinião de outro profissional? Procurou um bom especialista? Você sabe, erros podem acontecer. – Disse Steve e Joe franziu o cenho. Ele odiava tocar naquele assunto porque parecia que ele não queria ajuda.

   - Me sinto bem. Não acho que eu estou doente. – Murmurou um pouco irritado. – Estou satisfeito. – Tornou a murmurar cabisbaixo. Será que ele parecia tão frágil só porque era diabético e hipertenso? Às vezes Demi o sufocava com todos os cuidados, e também havia Steve e Ed que eram os responsáveis pelas broncas.

   - Estou preocupado com você, filho. Não me entenda mal. – Joe chegava estar com o cenho franzido, mas assim que fitou os olhos de Steve, assentiu se sentindo cansado.

   - Eu sei. Desculpa. Eu cresci cercado de cuidados. Eu só quero que as pessoas saibam que eu não sou de vidro, não sou um garoto.

   - Você não é, filho. – Os dois sorriram quando se olharam. Passar o tempo com Steve era fantástico. Ele tinha aprendido tantas coisas com aquele homem, e sentia que poderia contar tudo porque Steve o ouviria como um pai ouve um filho. – Vamos?

A cada quilometro percorrido Joe sentia o coração ficar mais agitado no peito. Ele estava ansioso para ver o sorriso de Demi e para leva-la para casa. O plano era passar à noite toda com ela nos braços a beijando e se movendo junto com ela como eles vinham fazendo no decorrer daquela semana. A mensagem avisando que estava chegando não foi enviada porque naquela área não havia cobertura para sinal de celular.

   - Tenho uma coisa para dizer para você. – Disse Steve concentrado em dirigir já que era noite e ainda por cima estava nevando, todo cuidado era pouco. E Joe nada disse, apenas fitou o chefe esperando pelo que estava por vir. – Você está demitido, filho. – As bochechas de Joe perderam a cor e o cenho foi franzido, mas assim que Steve o olhou sorrindo, Joe revirou os olhos. – Está demitido do cargo de segurança. Nós precisamos de alguém competente para cuidar da parte da TI, então eu pensei: você é jovem e inteligente, está tentando ter uma vida melhor para pedir a namorada em casamento. O salário na TI é melhor e você não vai precisar passar a noite toda acordado. O que você acha? – Joe assentiu prontamente sorrindo. Depois de meses de noites em claro, ele poderia finalmente ter a segurança que estaria todos os dias à noite em casa com Demi e Lucy.

   - Você está falando sério? – Perguntou animada e Steve assentiu ainda concentrado em guiar o carro.

   - Estou. Das oito da manhã até as quatro da tarde. Você ainda terá tempo para dar aula. – Disse e Joe assentiu radiante. Ele ganharia mais, poderia dar aulas para complementar a renda e ainda teria tempo para ficar com Demi.

   - Quando eu começo? – E para completar a felicidade, quando ele fitou o horizonte, avistou os arranha-céus quebrando o escuro da noite refletindo as luzes da cidade. Eles estavam chegando em Nova York!

   - Amanhã? – Steve olhou brevemente para o rapaz que assentiu. – Estou oferecendo esse cargo porque eu não quero nunca mais encontra-lo desmaiado na madrugada. Então tem uma condição: você vai procurar outro médico. – Tinha escolha? Joe assentiu depois de engolir em seco.

Não havia época do ano para que Nova York desacelerasse. Com a chegada do inverno, e consequentemente do natal dentro de um mês e poucas semanas, a cidade já começava a tomar forma para a maior festa do ano. Quando o carro já estava entre as ruas da cidade, Joe observou pela janela um grupo de moradores organizar um enorme pinheiro certamente para usá-lo como árvore de natal. Já mais para o centro, o movimento de pessoas agasalhadas ainda era grande e turbulento mesmo sendo tarde da noite. Steve o deixaria em casa, mas Joe preferiu que o chefe o levasse para o salão de eventos onde aconteceria a festa da Gyllenhaal para que ele pudesse encontrar Demi.

Chegou em determinado ponto que Steve não conseguiu avançar com o carro porque o engarrafamento não permitia, aliás, não dava para saber o motivo de ter um engarrafamento naquele horário, geralmente acontecia no final da tarde, não as quase onze horas da noite. Joe se sentiu aflito e ainda mais ansioso para ver Demi, inquieto, ele arriscou abrir o vidro da janela do carro para olhar melhor o que estava acontecendo.

   - Eu vou seguir a pé. – Comentou com Steve de cenho franzido quando viu uma moto da polícia se espreitar entre os carro conseguindo avançar. – Alguma coisa está acontecendo. – Murmurou quando mais uma moto seguiu em rumo ao salão.

   - Não está longe? – Perguntou preocupado com a ideia de Joe se atolar em toda aquela neve, ele não era muito bom em conseguir dribla-la e também havia a possibilidade do rapaz desmaiar.

   - Não. – Murmurou já nervoso quando viu que as pessoas que estavam no carro a frente tinham o abandonado e avançavam em direção ao salão onde acontecia a festa da Gyllenhaal com o celular em mãos. Tudo que acontecia era motivo para que as pessoas filmassem e gravassem, o que indicava que realmente tinha acontecido algum acidente, ou era uma celebridade ou algum fenômeno anormal. – Eu estou indo, ok? Amanhã cedo eu apareço na empresa. – Ele estava mais concentrado em observar o movimento lá fora a olhar para Steve.

   - Tenha cuidado rapaz, qualquer coisa é só ligar. Até amanhã. – Joe assentiu e Deus! Ele teve que juntar forças para não se desequilibrar na neve. Estava frio e uma luta para caminhar, principalmente entre os carros mesmo parados. Joe teve que caminhar pela calçada já que algumas pessoas conseguiam passar com as motos entre o espaço de um carro para o outro, e entre elas estavam mais policiais. Alguma coisa estava errada, ele podia sentir que estava e a cada vez que via as pessoas correndo com câmeras e celulares na mão, o coração apertava mais um pouquinho.

Como havia pensado, Joe quase desfaleceu no chão quando viu a horda de pessoas que estavam cercando a entrada do salão de eventos. As luzes da viatura estavam acesas assim como as da ambulância. Havia policiais, paramédicos, reportes e milhares paparazzi. Ele torcia mentalmente para que Demi estivesse bem, a preocupação era tanta, que para atravessar o mar de pessoas, ele teve que ser muito persistente e usar a força em alguns casos.

   - Assassina de Jason Gyllenhaal é presa nesta noite.

   - Jovem não resiste aos ferimentos.

   - Amante de Jake Gyllenhaal é baleada no braço pela assassina de Jason Gyllenhaal.

   - Mulher é baleada no banheiro da festa da maior empresa de tecnologia dos Estados Unidos, boatos afirmam que a jovem foi atacada por assassina de Jason Gyllenhaal.

   - Quem é a jovem baleada na noite gloriosa da Gyllenhaal Enterprise?

Amante; Não resiste aos ferimentos; Mulher baleada. O desespero tomou conta de Joe a ponto de olhos marejarem, ele atravessou o rio de pessoas depois de empurrar muitos, e quando conseguiu, tentou avançar para dentro do salão sendo barrado pelos policiais.

Era confuso ouvir toda aquela gente falando sem parar sobre teorias que ele nem mesmo sabia se eram verídicas. O barulho se misturava ao da ambulância e ao da viatura. Junto ao frio e a neve que não dava trégua, tudo se tornava insuportável. Houve um murmuro ensurdecedor quando de dentro do salão três policiais escoltaram Mary algemada e com as roupas ensanguentadas. Joe a fitou de olhos arregalados e estático, nem mesmo as pessoas o empurrando era o suficiente para desviar a atenção do rapaz.

Onde diabos estava Demi? O coração estava começando a doer e os olhos carregados de lágrimas. Não era possível que a moça que todos tanto falavam era ela. Ela não podia partir e deixa-lo. Quando uma lágrima rolou, o rapaz a secou sentindo uma dor gritante crescer dentro do peito esquerdo, ele soluçou e olhou atentamente a procura da namorada sem sucesso. Onde ela estava? Onde ela estava? Joe caminhou desesperado a procura de Demi e na primeira brecha que conseguiu, adentrou o salão de festas correndo porque dois policiais o avistaram.

   - Eu só quero saber onde está minha namorada! – Ele gritou quando foi detido sendo derrubado com tudo no chão por um dos policiais que era duas vezes maior que ele.

   - Ele está comigo, ok? – Joe franziu o cenho quando ouviu a voz de Ed. Ele tinha o rosto forçado contra o chão gelado e o pulso esquerdo já estava envolvido pela algema, motivo pelo qual não conseguiu olhar para o amigo de imediato, só quando foi bruscamente solto.

   - Onde ela está? – Murmurou se erguendo com a ajuda de Ed que o abraçou com força. – Ed! Onde ela está? – Perguntou sério e aflito levando as mãos para o rosto de Ed e fitando os olhos do amigo como se a verdade estivesse estampada neles.

   - Ela está bem, ok? – Mesmo aliviado, Joe chorou de emoção e porque ele nunca mais queria sentir medo de perder Demi. Estava fora de cogitação perde-la. – Só está um pouco machucada, mas está bem. – Os dois se abraçaram com força e deixando as lágrimas rolarem.

   - Eu quero vê-la, Ed. Eu preciso. – Disse ao amigo que assentiu limpando as lágrimas e logo o guiando pela mão para a área onde Demi e Selena recebiam os primeiros atendimentos.

Joe e Ed foram barrados, mas de longe eles ficaram quietos e atentos observando as namoradas. Selena estava acordada e claramente em estado de choque, o olhar perdido e ao mesmo tempo ela estava atenta. Havia um curativo na testa e alguns arranhões de unha no rosto. Já Demi estava quieta demais. A começo Joe se desesperou porque ela estava deitada e imóvel, ele chegou a pensar no pior, mas quando Demi moveu vagorosamente a perna esquerda e ajudou o pessoal da equipe médica a deita-la com muita dificuldade numa maca, ele soube que ela estava viva. O que tinha acontecido com a garota dele? O braço esquerdo estava enfaixado assim como a mão esquerda, o vestido que ele tinha a presenteado estava sujo de sangue e o rosto de Demi estava um pouco avermelhado e com arranhões de unha.

***

Ao abrir os olhos, a luz do interior do quarto a obrigou a fecha-los. O cenho foi franzido ao escutar o barulho que vinha da máquina que fazia a medição dos batimentos cardíacos. Demi tentou abrir os olhos novamente dessa vez conciliando o ambiente onde estava. Um quarto de hospital. Quando ela tentou se mover, a cabeça doeu que chegou a latejar. O que tinha mesmo acontecido para ela estar naquela cama? De cenho franzido, aos poucos ela se lembrou. Morte de Jason, Joseph, Jake, briga com Selena, a carta de Dianna, Mary com uma arma. Assassina de Jason.

   - Droga. – Murmurou baixinho quando se lembrou que o braço estava machucado. Ela nunca tinha se acidentado daquela forma. O máximo foi ralar os joelhos e chocar os dedos dos pés contra as quinas dos moveis.

   - Calma, não se mexa. – O que diabos era aquilo? Será que ela estava ficando maluca? Demi arregalou os olhos ao fitar o rosto da mulher de branco para depois fitar o da que estava ao lado. Eram iguais! Sem tirar nem por. Será que era efeito de algum remédio? – Droga, Bella, você vai confundi-la. – Disse Anna constatando que não tinha sido uma boa ideia deixar Isabella adentrar o quarto de Demi com ela. Se o supervisor a pegasse, bem, aquilo definitivamente não poderia acontecer.

   - Eu só quero saber se ela está bem. – Disse Isabella e Anna massageou o cenho pensando na encrenca que tinha se metido. Demi estava medicada e carregada de curativos. Tinha levado pancadas na cabeça e sido agredida. Confundi-la não era uma alternativa inteligente. – Calma, nós só estamos preocupadas com você. – Disse a Demi que arregalou ainda mais os olhos e engoliu em seco. Certamente ela jurava que estava delirando.

   - Eu já volto, ok? – Disse Anna para Demi que nada disse, apenas se ergueu pensando que estava louca para que pudesse olhar as gêmeas saírem do quarto. – Você nunca esteve nesse quarto, Isabella, você está me ouvindo? – Disse para irmã depois de olhar se estava vindo alguém, e Bella revirou os olhos.

   - Não foi tão ruim. – Não foi ruim? Anna respirou fundo e negou balançando a cabeça.

   - Ela está medicada. E nós duas somos gêmeas. Imagina a confusão na cabeça dela?! É melhor você ir controlar o papai, ele vai matar o namorado dela.

   - Me mantenha informada! – Anna assentiu se despedindo da irmã com um rápido abraço. Inácio tinha decidido contar para Isabella e Hannah sobre Demi, e quando elas ficaram sabendo do que tinha acontecido pelo noticiário, correram para o hospital junto com o pai que estava para enlouquecer de preocupação na sala de espera.

Antes de adentrar o quarto, Anna respirou fundo porque ela era a estagiária responsável por cuidar de Demi enquanto o médico estivesse fora. Não era nada demais, apenas tarefas simples. Ao adentrar o quarto, ela evitou sorrir para irmã e teve que adotar a postura profissional, até porque Demi não fazia ideia de quem ela era.

   - Você está se sentindo melhor? – Perguntou gentilmente buscando pela prancheta sobre o criado-mudo para anotar qualquer queixa da paciente.

   - Minha cabeça está doendo muito. – Resmungou Demi toda manhosa. – Você sabe onde está a minha amiga? Eu não consigo me lembrar de tudo. Depois que a polícia chegou, eu não consigo me lembrar de nada, não consigo me lembrar de tu..tudo. – Anna franziu levemente o cenho com a confusão da frase, mas entendeu que era uma espécie de choque pós-trauma.

   - Não fique agitada, está tudo bem, ok? Sua amiga está sendo atendida. Nós a levamos para cuidar dos ferimentos e daqui a pouco vamos confirmar se está tudo bem com o bebê por exames. – Disse gentilmente para acamá-la e Demi assentiu fechando os olhos pensando em como ela se sentiria culpada se alguma coisa tivesse acontecido a Selena e ao bebê.

   - Eles estão bem? A Sel e o bebê? – Perguntou preocupada e Anna assentiu. – Eu posso ver o meu namorado? Ele está aqui? Eu quero muito vê-lo. Sinto a falta dele. – O olhar foi tão triste e perdido que Anna sentiu vontade de abraçar Demi com forçar e dizer que tudo ficaria bem, que ela não precisava ter medo porque eles jamais deixariam que nada de mal acontecesse a ela novamente.

   - Seu namorado está na sala de espera. Você pode, querida. Só vou pedir para que você não fique agitada. – Disse Anna arrancando um sorriso fraco de Demi que logo fechou os olhos tentando se concentrar para se livrar daquela dor insuportável na cabeça.



Receber os olhares ameaçadores de Inácio não atingia Joe em nada. Ele estava acomodado ao lado de Ed e Steve, que evitou que Inácio partisse para cima dele o culpando por tudo que tinha acontecido com Demi. Não tinha como prever que uma psicopata a atacaria, tinha? Joe cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo apoiando os cotovelos nas coxas. Demi poderia ter.. Ela poderia ter partido. Impaciente, o rapaz se levantou e caminhou sobre o olhar dos conhecidos para longe dali. Ele acabou num corredor sem movimento de pessoas. E se ela tivesse partido? Engolindo em seco, Joe se sentou ao chão com as costas recostadas na parede e abraçou os joelhos.

Ele deveria pensar era que Demi estava viva, com alguns arranhões e um tiro de raspão no braço esquerdo, porém saudável. O ruim era só pensar que por um pouco ela se foi. A ideia era angustiante e o devastava. Angustiado, Joe fechou os olhos e abraçou os joelhos com mais força se sentindo impotente. Inácio tinha razão em culpa-lo, pois caso ele estivesse naquela festa, não permitiria que nada de ruim tivesse acontecido.

   - Joseph? – O cansaço, a preocupação, a culpa, tudo o puxava para um mundo longe do real, um mundo do qual só existia em pensamento. – Joseph? – Ele só olhou porque sentiu o toque no musculo do braço, mesmo assim o cenho estava franzido e demorou um pouco para conseguir assimilar o que estava acontecendo. Espiar o crachá escrito Anna Lovato o ajudou a reconhecer que aquela era uma das irmãs de Demi. Quando Inácio chegou, ele estava acompanhado por Isabella, e quando Anna apareceu, foi uma confusão para saber quem era quem, poucos eram os traços físicos as distinguiam. O fato de Anna estar vestida toda de branco com direito a jaleco e com um estetoscópio nos ombros ajudava. – A Demi quer falar com você. – Ela disse gentilmente estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar, e Joe não soube o que fazer, mas como não queria parecer mal educado, segurou a mão da moça e se levantou. Ele não podia descontar o mal humor nas pessoas. Ninguém tinha culpa dos conflitos internos que ele estava enfrentando.

   - Ela sabe que você é uma das irmãs? – Perguntou tão sério que o cenho chegava estar franzido, ele não conseguia evitar.

   - Não, ela não sabe. – Anna respirou fundo quando eles pararam em frente ao quarto onde a irmã estava repousando. Levar assuntos familiares para dentro do hospital nunca resultava em coisa boa, ainda mais um complicado como aquele. – Posso falar com você? Digo, antes de entrar no quarto? – Perguntou um pouco corada com o olhar intimidante de Joe quando ela o tocou no músculo do braço, e o silêncio foi interpretado como sinal positivo. – Ela está confusa e precisa de repouso, o quadro não é grave, mas é bom evitar stress. – Por que diabos ele a olhava daquele jeito intimidante? Não havia um sorriso no rosto de Joe e nem a sombra dele. – Não vou deixar o meu pai fazer confusão, acredite, ele é impossível quando quer. Só cuide dela, ok?

   - Ok. – Demorou um pouco para ele responde-la, porém quando o fez, Joe quebrou mais o ar sério. – Obrigado por cuidar dela. – Disse assim que levou a mão a maçaneta da porta e se virou para fitar os olhos de Anna. Era uma mulher bonita, e com certeza os traços de Demi eram fieis aos da família: sardas, pele clara e olhos e cabelos marrons. Anna era delicada nos traços do rosto e no corpo, tinha o cabelo longo e um jeito tão singelo e natural, quase tímida, diferente de Demi que era uma força da natureza que vez ou outra ficava quieta e corada.

   - Não precisa agradecer, família em primeiro lugar. – Joe assentiu esboçando um pequeno sorriso que foi retribuído, e quando Anna foi chamada por uma enfermeira, ele assentiu se despedindo.

Os olhos verdes ficaram marejados assim que ele a viu. Todas as defesas foram desarmadas e o coração ficou inquieto no peito. Joe engoliu em seco quando fechou a porta do quarto se demorando o máximo possível porque Anna tinha razão, Demi não podia sofrer com stress ou qualquer desgaste psicológico. Então se ela o visse chorar, ficaria preocupada. As mãos grandes cobriram o rosto para enxugar as lágrimas e Joe tentou não soluçar, mas quando ela o chamou baixinho, foi difícil se conter. Doía na alma vê-la deitada um pouco sonsa com arranhões no rosto, o braço e a mão esquerda enfaixados. Onde estava o sorriso sapeca de sempre? A forma que ela ficava deitada seminua toda insinuosa o fazendo ficar corado de vergonha por conta das coisas que sussurrava. Era a garota dele. A única que ele amava e queria.

   - Joseph? Está tudo bem? – Estava? O voz baixa e inofensiva catalisava a vontade de chorar. Joe respirou fundo e se preparou para se aproximar. O planejado era sorrir, mas passou bem longe.

   - Meu anjo, eu fiquei tão preocupado. – Joe ficou com medo de esmaga-la, mas quando se aproximou só conseguiu envolver Demi num abraço que foi igualmente retribuído mesmo com os múrmuros de dor. – Eu fiquei tão preocupado, amor. – Ele disse se atentando em cada detalhe. Fitou os olhos marrons, estudo o rosto bonito e quando tornou a abraça-la, aproveitou para sentir o cheiro que só pertencia a ela e grava-lo num lugarzinho especial na memória.

   - Eu nunca vou te deixar, amor. – Demi fechou os olhos e se aconchegou nos braços dele se sentindo protegida e amada como sempre.

   - Você promete? – Perguntou emocionado fitando os olhos marrons que carregavam aquele brilho especial que surgia apenas quando ele estava por perto.

   - Prometo. – O beijo que ele recebeu no queixo e depois nos lábios o fez sorrir de olhos fechados. Quando Joe abriu os olhos, ele sorriu ainda mais porque Demi estava de olhos fechados e esperava que ele a beijasse.

   - Eu também prometo. – Disse acariciando a bochecha dela, e em recompensa o sorriso o deixou zonzo de paixão. Era simplesmente lindo e Joe não conseguia pensar em algo melhor do que ver aquela mulher sorrir para ele durante todos os anos que ainda estavam por vir. – Eu te amo. – O beijo não foi intenso e nem prolongado como os de costume. Foi mais um roçar de lábios puro e apaixonado que os fizeram sorrir de testas encostadas. – Vamos, deita. Quero que você descanse o máximo que puder. – Ele disse todo cuidadoso e Demi franziu o cenho sem mover um músculo. Ela preferia ficar no calor dos braços dele.

   - Você vai ficar aqui comigo? Eu estou zonza e com dor de cabeça. Se eu ficar sozinha, vai ser mil vezes pior. – Resmungou manhosa quando Joe a conduziu para se deitar e para a tristeza dela, ele se acomodou a poltrona que ficava relativamente longe da cama.

   - Não sairei dessa poltrona para nada. – Ele disse decidido e Demi franziu o cenho logo se arrependendo porque o supercílio estava com um leve arranhão.

   - Você pode ao menos segurar a minha mão? – Joe riu de como ela era manhosa, enlaçou os dedos e a surpreendeu quando se ergueu para beija-la na boca.

   - Posso beija-la também, gatinha. – Ele sorriu e a beijou novamente feliz demais por Demi estar viva e bem. – Agora, a senhorita vai descansar, ouviu gatinha? – A cada palavra era um selinho, e o melhor era vê-la sorrir.

   - Tudo bem, eu estou mesmo quebrada. – Murmurou fitando o braço que ela nem mesmo tinha coragem de mexer. O ferimento doía e as vezes ela o sentia repuxando quando tentava mover o braço. Os dedos da mão esquerda estavam envolvidos em curativos, já que as mordidas os feriram . – Espero poder passar o natal longe de curativos. – Tornou a murmurar tateando o rosto com a mão livre encontrando alguns curativos.

   - Você é saudável, e com a sopa de verduras que eu vou fazer quando voltarmos para casa, em duas semanas você vai estar nova em folha. – Demi fez uma careta tão engraçada que Joe riu cheio de vontade de abraça-la forte contra o peito.

   - Não tem nada a ver uma coisa com a outra, isso é mito. – Resmungou e ele riu.

   - É claro que tem, uma alimentação reforçada faz toda diferença. E você vai comer tudo sem reclamar. Acho que agora mesmo vou conversar com o pessoal do hospital para trazer um prato daqueles para você. – Ele não resistia quando Demi murmurava um “Ah não, Joe” toda manhosa, e por isso ele a beijou na boca até que ambos estavam ofegando, porém satisfeitos. – Promete que vai comer tudo? – Ele roçou os lábios aos dela e sorriu assim que fitou os olhos marrons.

   - Só se você ficar aqui comigo. – Os dois sorriram e trocaram um selinho demorado. Os minutos que seguiram foram mais de silêncio e troca de olhares e carinhos que os faziam sorrir confortáveis e seguros.

   - Você pode dormir, não vou sair daqui. – Disse Joe a Demi assim que a viu fechar os olhos e se aninhar mais a cama.

   - Eu não quero dormir. – Disse de olhos entreabertos e Joe entendeu que ela estava cansada. – Nós podemos conversar, amor? – Perguntou timidamente esticando a mão direita para enlaçar os dedos aos dele que assentiu prontamente.

   - Vamos fazer o seguinte, eu vou apagar a luz do quarto e nós vamos ficar apenas com a do abajur acesa. – E foi dito e feito. O ambiente ficou mais agradável para Demi que ainda continuava grogue. – Bebê, você deveria dormir, não? Já são mais de uma hora da manhã. – Por insistência dela, Joe acabou sentado a beirada da cama, e ele confessava que estava louco para ficar agarrado a ela.

   - Você pode me contar o que está acontecendo? Eu estou confusa sobre algumas coisas. – Disse encostando a cabeça no peito dele para que Joe pudesse acaricia-la no couro cabeludo. – Eu estava no banheiro com a Sel. Nós decidimos usar a cabine... Lembro de ouvir a porta do banheiro bater com muita força, depois ouvi passos. Chamei a Sel e ela não respondeu. Fiquei com medo porque eu sabia que alguma coisa de errado estava acontecendo. Ao abrir a porta do banheiro, me deparei com a Mary apontando uma arma para cabeça da Sel e a impedindo de falar. – Joe franziu o cenho porque ele não queria que Demi se estressasse com algo que já tinha acontecido.

   - Eu sei, a Selena contou. Você não deveria ter partido para cima da Mary, ela é perigosa. – Era tão estranho dizer aquelas palavras, mas depois de tudo que tinha acontecido naquela noite, a máscara de Mary caiu.

   - Amor, eu só vou contar porque sei que você não é fofoqueiro. – Demi riu da cara de espanto misturada a de confusão de Joe, e em troca se ergueu para beijá-lo na bochecha. – A Selena está grávida. Eu jamais permitiria que ela fosse machucada. Quando eu a vi refém nos braços daquela maluca, temi por ela e o bebê. Ninguém iria nos salvar. O banheiro era um pouco distante da movimentação da festa. Eles só souberam que algo estava errado quando ouviram os disparos. A porta estava travada com uma barra de ferro, se nós não tivéssemos lutado, estaríamos mortas. – Joe abraçou o corpo de Demi com força que ela gemeu manhosa porque odiava mover qualquer músculo do braço esquerdo.

   - Não diga isso. – Murmurou tocando o rosto dela e o estudando com atenção.

   - É a verdade. Não me arrependo de nada. Eu só não suportaria ver a Sel machucada. É isso que melhores amigas fazem, entende? Uma luta pela outra. Uma defende a outra. Uma encobre a outra. A Mary atiraria na minha cabeça se a Sel não tivesse dado um jeito de empurra-la e tentado tomar a arma.

   - A Mary é perigosa e está longe de ser quem nós pensávamos. Ela é uma paciente foragida de um hospital psiquiátrico. – Joe franziu o cenho e preferiu não olhar para Demi. Aquela mulher esteve entre eles por meses e meses, e ele até tinha a beijado! Era difícil de acreditar. – Ela foi internada justamente porque já matou antes, e confessou ser a assassina do Jason. A polícia está juntando as peças para construir a história.

   - Eu juro que sabia que tinha alguma coisa anormal com aquela maluca estranha.

***

Mal humor era o nome do meio de Inácio. Ele estava irritado e difícil de compartilhar um mesmo ambiente. Começava pelo cenho constantemente franzido que chegou a criar uma marca de expressão na testa. As palavras que o homem dizia eram intimidantes e carregadas de farpas. Ele não esboçou um sorriso desde que tinha chegado e não pretendia esboçar. Tinha sobrado para Joe, depois para Hannah que defendeu o rapaz, e a próxima vítima do mal humor seria Isabella ou Anna, caso ela não aparecesse para dar notícias de Demi. E de tão chato que Inácio estava, Ed e os pais de Selena preferiam esperar no refeitório por notícias.

   - Pai, está tarde. É melhor você descansar. – Bella tinha muito jeito com o pai, sempre conseguia acalma-lo antes que ele explodisse, mas agora estava difícil de administrar a situação, razão pela qual Hannah estava com cara de poucos amigos preferindo ficar entretida com o celular a socializar como ela sempre fazia.

   - Quando a sua irmã aparecer aqui, eu quero estar acordado. – Ele disse um pouco mais calmo, certamente porque o cansaço estava começando a vencê-lo. – Eu vou ligar para o seu tio para levar as duas para casa. – Disse decidido já buscando pelo celular aproveitando também para trocar um olhar intimidante com Steve.

   - Pai, nós estamos aqui para apoia-lo e também queremos saber se está tudo bem com a Demi. – Disse Hannah sustentando o olhar intimidante do pai. – Não queremos ir para casa. – Hannah olhou para Isabella para conseguir ajuda da irmã que assentiu envolvendo os dedos aos de Inácio que assentiu derrotado.

   - Eu quero que as duas vão ao refeitório comer. – Disse Inácio mais a Bella que a Hannah. – Nada de comer besteiras, ouviu dona Hannah? Só deixe-a comer bolo e tomar café com leite. – Disse a Isabella que riu da cara de poucas amigos da irmã. – Vocês tem trinta minutos a partir de agora. – Era sempre daquele jeito. Hannah e Isabella saíram apressadas cada uma com uma nota de cinquenta dólares porque se elas não voltassem em meia hora, Inácio apareceria no refeitório.

   - Você não precisa ser duro com o garoto. – Disse Steve se sentando ao lado de Inácio que cerrou os olhos ao olha-lo. – Ele cuida bem dela. – Insistiu porque não poderia deixar que Joe tivesse a imagem queimada para o pai da namorada. – Ele é um bom rapaz, trabalhador, inteligente e honesto. Não poderia ter alguém melhor para ficar com a Demi. – Inácio franziu o cenho e permaneceu calado fitando o corredor ansioso para que Anna trouxesse notícias de Demi. – Filhos. Você não pode protege-los para sempre. Um dia eles darão os próprios passos e tomarão as próprias decisões, e não há nada que você poderá fazer.

   - Você não é pai do garoto. Por que está o defendendo tanto? – Inácio sustentou o olhar de Steve porque estava começando a ficar irritado. Ele não queria saber de Joe, ele só queria abraçar Demi e mima-la.

   - Passo boa parte do meu dia com o Joe. Não posso deixar que você pense que ele é um vagabundo sem caráter porque eu o conheço, ele é como um filho para mim. – Inácio pensou nas palavras de Steve e as associou a forma que ele cuidava das filhas. Se alguém insinuasse algo de ruim sobre as garotas, ele ficaria bravo porque conhecia cada uma delas. A forma que Steve falava sobre Joe era como um pai protetor, o único problema era que Inácio sabia como garotos poderiam ser impulsivos quando estavam apaixonados porque um dia ele também teve aquela mesma idade, e foi quando engravidou duas garotas e tudo virou uma bagunça.

   - Eu sei o que estou fazendo, é apenas para o bem delas. – Ele não pediu licença para Steve porque a ansiedade o tomou quando Anna se aproximou aparentemente cansada. – Ei meu amor, que carinha é essa? – Perguntou todo carinhoso abraçando a filha que se jogou nos braços dele o abraçando com força. Dentro do hospital havia dias de vitória, mas também os de derrota.

   - Desculpa não aparecer antes. Tivemos uma emergência e.. E não conseguimos. – Inácio odiava quando aquilo acontecia. Anna o olhava nos olhos com medo e lágrimas que não poderiam ser derrubadas naquele ambiente profissional.

   - É dessa forma, meu anjo. Há coisas que acontecem que nós não conseguimos consertar. Vocês tentaram da melhor forma que puderam. É isso que importa. – Ele disse e depois a beijou carinhosamente na testa dando o tempo que Anna precisava para se recompor. Ela seria uma médica dentro de poucos meses, e chorar em público quando algum paciente viesse a óbito não era adequado.

   - Onde estão as garotas? – Perguntou limpando as lágrimas e assumindo a postura que deveria. A garota frágil deveria ficar em casa, não no hospital onde ela deveria se mostrar forte e solidária.

   - Estão no refeitório, e é pra lá que a senhorita vai. – Disse Inácio porque desde que ele chegou ao hospital, Anna não parava quieta. E faria dois dias que ela estava dando plantão.

   - Eu preciso mesmo de um café forte. – Anna franziu o cenho quando enlaçou os dedos aos de Inácio e ele nem mesmo saiu do lugar. – O que foi? – Perguntou cansada escorando a cabeça no ombro do pai.

   - Eu posso vê-la? – Perguntou ansioso e Anna arqueou uma sobrancelha, levou a mão ao pulso esquerdo do pai para encolher a manga do suéter revelando o relógio.

   - Quase duas horas da manhã. Ela está dormindo. E você também deveria dormir já que pode. – Anna sorriu quando viu a careta do pai. Ele estava ansioso e preocupado, e não conseguia esconder.

   - Anna, por favor. Eu estou preocupado. – Murmurou um pouco envergonhado e a filha riu.

   - As visitas estão liberadas. Só que é como eu disse, grandão: ela está dormindo. – Inácio sorriu porque Anna tinha dito tudo que ele queria ouvir: Demi poderia receber visitas. – E o namorado está com ela. – Completou fazendo com que o sorriso do pai sumisse dos lábios.

   - Eu vou conferir se está tudo bem, só quero vê-la, quando o dia amanhecer, converso com ela. – Anna não podia fazer nada porque quando o pai queria alguma coisa, ninguém conseguia convencê-lo do contrário. – Tomar café, mocinha. – E lá se foram mais cinquenta dólares. Ele era exagerado até mesmo naquele detalhe. Inácio instruiu a filha para ficar de olho em Hannah, que poderia realmente aprontar na primeira oportunidade, já que ela conseguia enganar Isabella fácil. E ele seguiu para o quarto onde Demi estava depois de trocar um breve olhar com Steve.

Será que ela iria recebe-lo? Será que estaria acordada? As perguntas eram tantas e a cada passo a ansiedade falava mais alto. Em frente a porta do quarto, Inácio arrumou o suéter ao corpo e respirou fundo. Bater à porta não faria mal, a batida foi de leve, e quem abriu a porta foi Joe sonolento e com a roupa um pouco amassada por conta da posição desconfortável na poltrona.

   - Ela está dormindo. – Disse Joe sem muita paciência, mas também preservando a boa educação que tinha.

   - Só quero vê-la. – Inácio estava tão aflito que a implicância com Joe ficou de lado. Aliás, ficou para outra hora.

   - Eu vou falar com o Sr. Potter e o Ed, daqui a pouco estou de volta. – Joe deu uma última olhada em Demi que dormia tão serenamente para depois fitar os olhos de Inácio. Será que ele deveria deixa-lo com Demi? Anna foi muito clara quando disse sobre evitar stress. E a situação por si só era desgastante. – Não force a barra. – Murmurou um pouco sem jeito, porém firme e com o olhar claro que se alguma coisa acontecesse com Demi, teria volta.

Inácio não disse nada a Joe, sustentou o olhar dele até que o rapaz o desviou porque precisava seguir caminho. A porta do quarto ficou entreaberta, e o coração disparou no peito quando ele a viu dormindo serenamente. Era tão linda e delicada, Inácio adentrou o quarto evitando fazer barulho até mesmo nos passos geralmente pesados das botas.

   - Meu anjo. – Sussurrou de cenho franzido e se amaldiçoando por vê-la machucada. Era covardia feri-la. E ele se sentia culpado. – Eu não vou deixar ninguém te machucar. – Disse baixinho para Demi arrumando a coberta ao corpo e depositando na testa um beijo delicado. O murmúrio de Demi o fez sorrir, mas logo franzir o cenho ao perceber que ela tinha chamado por Joe quando ele enlaçou os dedos aos dela já acomodado a poltrona.

Por minutos Inácio a observou em completo silêncio para não acorda-la. Ela não tinha nada da mãe, nem um traço físico e nem na personalidade. O único detalhe que as ligavam era a paixão pelo desenho, em campos diferentes. Dianna gostava de desenhar roupas e Demi modelava produtos e gostava de desenhar personagens fictícios e inventar novos. Ela era uma garota muito inteligente e persistente que tinha vencido muitas batalhas para conseguir ser uma pessoa honesta e digna.

   - Se eu pudesse escolher, jamais permitiria que nós ficássemos longe. – Disse a Demi triste porque sabia que todo ser humano precisava da presença do pai e da mãe, precisava de carinho e atenção. – Eu adoraria vê-la correr junto com as suas irmãs no jardim de casa brincando feliz. – E ele tentou imaginar Demi quando criança correndo junto com Anna, Bella e Hannah bebê tentando seguir o passo das irmãs mais velhas. – Leva-la para escola, ajudá-la a apagar a velinha do bolo de aniversário e contar historinhas a noite. Mas você já cresceu e se transformou numa mulher tão bonita e admirável. Quando Anna me ligou desesperada falando que você estava aqui machucada, fiquei com tanto medo de perdê-la. Ultimamente não está sendo fácil para mim, filha. Perdi para o câncer a mulher que amei durante a minha vida, perdi o meu pai tem poucos meses e sinto que perdi a sua mãe. De todo o meu coração, você é a única que eu não aceito perder. Nós precisamos consertar, juntos, o que a vida nos fez. Não dá para voltar há vinte três anos, mas nós podemos começar agora a construir a nossa história como uma família. – Inácio franziu o cenho porque tudo que ele tinha dito a Demi era de coração. Os dedos envolveram os dela com mais força e um beijo gentil foi depositado nas costas da mãos.

   - Joseph? – Demi chamou manhosa tentando se erguer, mas logo ficou quieta quando se lembrou do braço machucado. Ela abriu e fechou os olhos, e quando sentiu os dedos soltando os dela, tornou a abrir os olhos procurando por Joe. – Inácio? – Não foi um susto, Demi arregalou um pouco os olhos e sentiu as bochechas corarem quando o pai sorriu para ela.

   - Oi. – Ele disse tímido, porém decidido a não ser repelido. – O Joseph saiu um pouco. – Disse fitando os olhos de Demi que nada disse. Ela parecia tão sonolenta e um pouco confusa. – Eu fiquei preocupado com você. – Disse quebrando o silêncio. – Como você está se sentindo? – Perguntou cobrindo a mão dela com a dele. Demi não soube como reagir a início, as bochechas coraram e ela preferiu não olhar para o pai, porém não o afastou.

   - Cansada. – Disse porque o corpo estava tão exausto que ela o sentia mole e frágil. – Estou com medo de mexer o meu braço esquerdo e a minha mão. – Comentou de cenho franzido fitando o braço com um curativo. – Eles disseram que dentro de poucas semanas eu estarei melhor. – Comentou sem saber ao certo o que deveria dizer para não deixar o assunto morrer. Ela não queria ter que compartilhar de um silêncio incômodo com o pai.

   - Estará. – Inácio sorriu e carinhosamente beijou a mão dela. – Eles estão cuidando bem de você? – Perguntou sorrindo de orelha a orelha porque ele tinha visto um pequeno sorriso nos lábios de Demi que tentou disfarçar sem muito sucesso.

   - Estão, mas eu quero ir para casa. – Ter o conforto e a segurança que um lar oferecia não se comparava a nada. – Você está aqui há quanto tempo? – Perguntou séria puxando a mão da dele e Inácio respirou fundo e penteou o cabelo com os dedos.

   - A sua irmã trabalha aqui. Vim assim que ela ligou avisando que você estava machucada, mas só consegui visita-la agora. – Demi fitou os olhos do pai constatando que ele dizia mesmo a verdade. Ela não precisava de mais alguém para mentir e faze-la sofrer.

   - A sua filha mais velha? – Perguntou tentando lembrar o nome das irmãs por ordem de idade, eram seis garotas e consequentemente difícil lembrar o nome e o rosto que ela só tinha visto por foto.

   - Anna é meia hora mais nova que Bella. Isabella é pedagoga e Anna a nossa futura médica. – Demi assentiu, como ela tinha se esquecido das gêmeas? Deveria ser o cansaço que a impedia de pensar com agilidade e clareza. – As duas estão aqui, a Hannah também.

   - Elas estiveram aqui. Isabella e a Anna. Eu não as reconheci, foi quando acordei, eu estava um pouco zonza e pensei que estava blefando quando as vi. Elas são idênticas? – Perguntou corada e Inácio riu. Isabella e Anna juntas era sinônimo de confusão e muita teimosia quando queriam.

   - Não, Anna é quatro centímetros mais alta e Bella tem o cabelo um pouco mais claro e maior. – Eram detalhes que não tinha como ela perceber no estado em que estava. – Você pode conhece-las amanhã. – Comentou a olhando nos olhos e Demi franziu levemente o cenho.

   - Você ficaria chateado se fosse numa outra hora? Eu não estou muito confortável e não quero ficar sem jeito perto delas. – Era melhor falar a verdade já que não tinha como evitar a vontade que crescia cada vez mais de fazer parte daquela família.

   - Particularmente, eu acho que vocês serão incríveis juntas. Vocês têm muito em comum e eu estou vendo que vai dar muito trabalho para controla-las. – Demi acabou sorrindo junto com o pai. Seria um caos, mas também seria fantástico ter irmãs. – Não ficarei chateado, sei que é algo muito novo para você, só não precisa ter vergonha e receio.

   - Não conta para elas, ok? Talvez amanhã eu me sinta melhor. Eu só não quero que elas achem que eu sou chata ou sem graça. – Ter a aprovação das irmãs seria muito importante para ela conseguir se enquadrar na família Lovato, e do jeito que ela estava grogue e desanimada, ficaria difícil enfrentar uma situação como aquela.

   - Você não é. Mas vamos fazer do seu jeito. – Eles sorriram e pela primeira vez aceitaram o silêncio, que não foi nada ruim. A sensação de estar com Inácio era tão boa que Demi se sentia estranhamente confortável e segura, e ela já começava a pensar que deveria se policiar para ter receio para evitar uma futura decepção.

   - A minha mãe foi embora. – Comentou e não conseguiu evitar o bocejo. – Ela deixou uma carta hoje, fui ao aeroporto tentar impedi-la, mas cheguei tarde. – Murmurou triste e Inácio envolveu os dedos dela da mão direita com os dele.

   - Eu também recebi uma carta dela. Dianna viveu muitas coisas ruins. Não foi fácil para ela e muito menos justo, filha. Espero de coração que ela seja feliz. – Demi assentiu pensando nos maus bocados que a mãe já tinha passado.

   - Ela contou tudo para você? – Perguntou com um pouco de receio e Inácio assentiu. – Eu odeio que ela tenha passado por tudo isso. Eu gostaria de poder fazer algo por ela. – Inácio era o único que podia entende-la porque um dia ele tinha amado Dianna.

   - Eu me sinto culpado. – Deixou escapar e quando Demi o olhou como se dissesse que ele não tinha culpa, Inácio deu de ombros e respirou fundo cansado. – A melhor coisa dessa história toda é você. Eu e a sua mãe somos sortudos. – Dava para ficar mais corada? Demi não conseguiu parar de sorrir sentindo as bochechas quentes. – Não está com sono? – Ele perguntou todo carinhoso se levantando para arrumar a coberta ao corpo dela.

   - Estou com muito sono. – Disse envergonhada e Inácio assentiu se acomodando mais a poltrona para descansar também.

   - Eu posso ficar aqui? Ou você prefere que eu chame o seu namorado? – Joe ou Inácio? Demi optaria pelo namorado sem pensar duas vezes, ela adorava a ideia de ter toda atenção de Joe, mas naquele momento, ter a companhia do pai não era ruim, a sensação era muito boa e ela não podia negar que estava ansiosa para passar mais tempo com ele.

   - Você pode ficar. – Disse depois de muito pensar. – Mas se você quiser ir para casa, tudo bem. Essa poltrona é bastante desconfortável. – Bem, ela não sabia se era, só não queria ficar sem ter o que falar. Na última vez que tinha dormido numa poltrona, foi quando Joe passou mal, e bem, quando ela dormia, só o sono que importava.

   - Nem tanto. Já dormi em lugares piores. Qualquer coisa é só me chamar. – Disse e Demi assentiu prontamente. Ela não podia negar que estava com receio e um pouquinho sem jeito. – Boa noite, filha. – O beijo na testa foi inesperado, mas nada ruim. Demi sorriu emocionada quando fitou os olhos do pai que também sorriu tornando a arrumar a coberta ao corpo dela todo cuidadoso e protetor.

***

Selena estava cansada. Passar a noite no hospital foi estressante e exaustivo porque demorou para pegar no sono. Sentada a maca vestindo apenas uma camisola, toda hora Sel fitava a porta do consultório médico fantasiando Mary o invadindo apontando uma arma para a cabeça dela. Havia apenas alguns arranhões, nada tão sério. O problema era o trauma e o medo que a consumia.

   - Srta. Gomez? – Sel engoliu em seco quando ouviu a voz da médica, porém pode respirar aliviada. Ela desviou o olhar da porta ainda com receio de acontecer algo parecido com o que aconteceu no banheiro, e fitou os olhos azuis da médica. – Está tudo bem com o bebê. Ele está com cinco semanas e precisa que a Srta. repouse o máximo que puder. – Selena sorriu fraco levando a mão ao ventre. Ela jamais se perdoaria se algo de ruim tivesse acontecido a inocente vida que carregava. – Eu vou encaminha-la para o quarto, a senhorita precisa descansar. – Para ela conseguir se livrar dos pais e Ed deu muito trabalho, envolveu até a ajuda do médico que respeitou a decisão de não contar aos familiares sobre a gravidez.

   - Quando como, fico enjoada. – Disse arriscando olhar para porta só para depois fitar os olhos da médica.

   - Qual foi a sua última refeição? – Como ela diria aquilo? Selena ficou tão sem graça que as bochechas coraram.

   - O café da manhã de ontem, mas eu o vomitei. – Murmurou. Não deu muito tempo de sentir fome, à tarde o passeio com Ed no shopping foi estressante, depois no apartamento de Demi teve todo o choque por descobrir a gravidez. E na festa da Gyllenhaal estava fora de cogitação.

   - Posso chama-la de Selena? – A médica perguntou se acomodando a maca como Sel que assentiu com receio do que ouviria. – Selena, você precisa comer para continuar saudável e também para manter o bebê, mamãe. Ele ainda é tão pequenino e precisa de você mais do que você imagina. Não é todo alimento ou cheiro que a deixará enjoada. Você deve comer sem pensar no possível enjoo. Se acontecer, enfrente como uma situação normal porque faz parte da gestação nesse primeiro estágio. Entendo que o que você passou ontem à noite foi apavorante, e saiba que nós a ajudaremos enquanto for necessário, mas pense que agora também tem o bebê. – Eram tantas coisas! Selena cobriu o rosto com as mãos e soltou a respiração relaxando o corpo. Estava tão difícil naqueles últimos dias. Primeiro foi ficar afastada de Demi por três meses, depois as brigas com Ed, a recém descoberta da gravidez e a inacreditável descoberta sobre Mary. Ela tinha compartilhado segredos e momentos com uma assassina! Se Mary quisesse machuca-la, ela poderia ter o feito facilmente nos momentos que as duas ficavam sozinhas. De quebra ainda tinha Jake que a apavorava.

   - Eu não estou bem, psicologicamente falando. – Disse tristonha. Não era normal se sentir confusa, insegura e cansada o tempo todo. – Tudo que eu quero é cuidar do meu bebê junto com as pessoas que amo, mas eu tenho medo de o Jake ser solto e voltar a me assediar, da Demi ficar sem falar comigo, da Mary tentar nos machucar. Não consigo ficar em paz porque não consigo parar de pensar que alguma coisa de ruim vai acontecer. – Era exatamente aquele ponto. Desde que Jake tinha entrado na vida dela, as coisas viraram uma bagunça.

   - Você não precisa ter medo, não mais, essas pessoas não vão te machucar. – Sel franziu o cenho e segurou o choro. – Quero que volte para o quarto, vou pedir para prepararem uma refeição forte e saudável. Depois que você descansar, vou encaminha-la a nossa psicóloga.

Um sorriso conseguia amenizar uma situação que poderia se tornar drástica. Selena até um abraço reconfortante recebeu e se sentiu muito melhor. Ela faria tudo sugerido pela médica pensando no bem do bebê que esperava. Ao sair do consultório, Sel estava mais leve e com a esperança de que tudo ficaria bem, mas quando ela o viu a esperando de braços cruzados e tão sério, o frio na barriga a incomodou. Despistar Ed deu muito trabalho, mas agora lá estava ele em frente a sala a esperando.

   - Os seus pais estão preocupados. Eu estou preocupado. – Disse Ed a olhando e aos poucos ele se aproximou. – O que está acontecendo com você, pequena? – Perguntou carinhosamente a abraçando pela cintura e Sel se entregou ao abraço se sentindo tão segura e amada nos braços do homem que amava.

   - Ed. – Chamou envolvendo o pescoço dele com os braços e em troca Ed a acariciou no cabelo da nuca a olhando fixamente. – Eu amo muito você. – Disse emocionada e o rapaz sorriu também emocionado.

   - Eu também amo você. – Ele disse esboçando um pequeno sorriso para depois beijar os lábios dela carinhosamente. – Por que você está chorando? – Perguntou confuso quando Selena encostou a cabeça no peito dele e começou a chorar baixinho. – Ei, o que foi meu anjo? – Perguntou erguendo o rosto dela para que pudesse olha-la nos olhos e limpar as lágrimas. – Eu estou aqui para você. Não chora, por favor. – Se ela chorasse, Ed tinha certeza que ele também acabaria em lágrimas. – Amor, não chora. – Pediu novamente a abraçando com força contra o peito deixando que as lágrimas rolassem porque ele tinha ficado com tanto medo de perde-la quando soube o que estava acontecendo naquele banheiro. Se a perdesse, ele simplesmente não suportaria.

   - Só me abraça. – O abraço durou o tempo suficiente para que conseguissem se acalmar. E quando eles se olharam, trocaram um beijo intenso. – Eu preciso falar uma coisa. – Disse fitando os olhos de Ed que assentiu um pouco tenso.

   - Quer ir para o quarto? – Perguntou colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

   - Quero caminhar um pouco mesmo que seja pelos corredores. – Selena sorriu sem jeito e Ed assentiu enlaçando os dedos aos dela para que eles pudessem começar a caminhar.

   - Então. – Ed a abraçou de lado sem quebrar o laço dos dedos e Sel o envolveu com o braço livre. – Como você está se sentindo? – Perguntou a observando.

   - Sinceramente? Eu não estou bem. Estou com medo e abalada com tudo que aconteceu. Fiquei com tanto medo de perder a Dem. Quando a vi sangrar, pensei que ela.. – Selena franziu o cenho e fechou os olhos tentando esquecer a cena. – Foi horrível. – Disse baixinho.

   - Eu estou aqui e não vou deixar nada de ruim acontecer. – Estava fora do alcance de qualquer ser humano impedir algo ruim, mas Selena acreditava que aquele homem bonito que a abraçava a protegeria de todo o mal.

   - Eu dividi segredos com ela. Eu gastei meu tempo com ela. Isso não é normal e eu não sei como vou confiar nas pessoas de agora em diante.

   - Não tinha como saber. Ninguém imaginava. – Disse Ed receoso se lembrando dos momentos que tinha compartilhado com Mary. – O que nós podemos fazer agora é esquecer, passado é passado. Vamos fazer dos nossos dias os melhores daqui pra frente sem Jake e Mary. Foram momentos ruins, mas deles nós aprend..

   - Eu estou grávida. – Ed continuou falando por alguns segundos até que ele entendeu o que aquela pequena frase significava. Selena sustentou o olhar dele procurando por raiva ou qualquer sentimento negativo como esperava, mas só havia surpresa.

   - Você está... grávida? – Disse Ed. Ele tinha engolido em seco e estava um pouco pálido. Não era um sinal, era? Selena assentiu com medo ainda fitando os olhos dele. – Grávida? – Repetiu e ela se preparou mentalmente para enfrentar a fúria de Ed, mas ele sorriu e a abraçou com força quase que a sufocando. – Grávida pequena? – O sorriso que Selena esboçou foi desjeitoso, mas ainda assim era um lindo e feliz sorriso que se alargou nos lábios porque Ed a olhava com tanta paixão e felicidade.

   - Nós vamos ter um bebê. – Disse com todas as palavras que ele precisava ouvir.

Compartilhar com Ed a notícia que estava grávida fez com que realmente fosse verdade no mundo de Selena, pois a alegria, amor e felicidade desencadeados da espera de um bebê tomou conta do coração e a fez tão feliz e especial. Ed a abraçou e quando a beijou sorrindo, levou a mão ao ventre para acaricia-lo com cuidado e respeito. O melhor de tudo foi esquecer que estavam num corredor de hospital e o motivo por estarem ali.

***

   - Ei! Eu sei que você me ama, não precisa se entregar com esse sorriso de orelha a orelha. – Disse Demi sorrindo quando Selena fechou a porta do quarto e feliz, correu para cama onde ela estava deitada.

   - Você é sempre uma chata. – Disse Sel sorrindo e abraçando Demi com força, e ela reclamou porque estava toda manhosa sem coragem para mexer o braço.

   - Vai com calma, ok? Eu sou um bebê e preciso de cuidados. – Demi mostrou língua e Selena revirou os olhos com tanta vontade. – Falando em bebê, como está o meu pequeno? – Perguntou acariciando o ventre de Sel com a mão boa para depois sorrir sem graça porque Selena a olhou feio por conta da forma exagerada que ela tinha dito.

   - Está muito bem. Estou de cinco semanas. – Disse e Demi franziu o cenho.

   - Sel, você está grávida, tudo bem. Mas pelo amor de Deus, não faça isso comigo. O que diabos são cinco semanas? Eu não consigo racionar com essa contagem de tempo, então nós vamos trabalhar com meses e dias, ok? Ah! Os dias têm limite, e no nosso caso, vamos considerar apenas até trinta. Agora traduz, o que são cinco semanas? – Selena gargalhou e só não apertou as bochechas da amiga porque ela reclamaria.

   - Cinco semanas são... Hum.. Um mês nove dias, ou seja, cinco semanas. – Disse e Demi respirou fundo aliviada.

   - Viu como é mais simples e claro? Nada de cinco semanas. – Resmungou. – Imagina só quando você estiver com, sei lá, cinquenta semanas, como vamos saber que já passou dos nove meses? – Selena revirou os olhos e se acomodou a cama ao lado da amiga.

   - Dem, uma gestão dura em torno de quarenta semanas. Você não estudou biologia? Ah é, lembrei que você matava todas as aulas para fugir com o André para fazer Deus sabe lá o que.

   - Não sou obrigada e nem me arrependo. E você não vai querer saber o que eu e o André fazíamos. – Ela esboçou um sorriso sapeca apenas para provocar Selena. – Você contou, Srta. Cinco semanas?

   - Contei. Ele está radiante e eu tive que ameaça-lo. Agora nós dois estamos num barco só e temos que nos preparar para enfrentar a tempestade que é o meu pai. Ele queria contar, e eu fiquei tipo: você perdeu o juízo? – Demi riu junto com Selena. Era muito reconfortante saber que tudo estava dando certo com Sel e Ed.

   - Estou muito feliz por vocês. – Disse sorridente. – Vai dar tudo certo. Eu estou muito ansiosa para cuidar dele. Vocês têm preferência? – Perguntou distraída acariciando o ventre de Sel que nada fez, era estranho, mas nada desconfortável, bem pelo contrário.

   - O Ed quer uma menina. Estarei satisfeita independente do sexo. E você? Como está? – Perguntou fitando o braço com um curativo limpo e os demais arranhões de Demi.

   - Quebrada. – Ela forçou um sorriso e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha com a mão boa. – Meu pai passou uma parte da noite aqui comigo. – As bochechas de Demi coraram bruscamente quando ela percebeu que tinha chamado Inácio de pai. – O Inácio. – Corrigiu-se engolindo e seco e Sel sorriu a olhando. – Nós conversamos e ele cuidou de mim. – Disse ainda envergonhada fitando a estampa da camisa. – Eu quero muito isso, quero tanto, mas eu preciso estar atenta a todos os detalhes, não quero ter meu coração partido novamente.

   - Você realmente precisa. Todos nós, Dem. Siga o seu coração. Eu estarei sempre ao seu lado para vibrar com você nos momentos bons e também para caso aconteça algum imprevisto, te ajudar a catar todos os pedacinhos do seu coração. Irmãs são pra isso. – Difícil foi abraçar Selena, mas Demi o fez do jeito que conseguiu. O que de fato importava era estar nos braços daquela mulher.

   - Eu te amo muito. – Disse Demi fitando os olhos marrons da amiga que sorriu encostando a testa a dela. – Sel, eu tenho cinco irmãs. – Comentou sorridente e Selena arqueou uma sobrancelha. – Seis. – Corrigiu e as duas sorriram. – Não precisa ter ciúme, eu estou aqui para todas. – Brincou, mas acabou corada. – Falando sério, eu não sei se estou preparada para conhece-las. Estou com medo de parecer chata ou elas simplesmente não gostarem de mim.

   - Dem, primeiro: você não é chata, você só é uma adolescente presa no corpo delicioso de uma mulher. Resumindo, se você largar essa coisa estranha de criança de desenho animado, Batman, e essas coisas de nerd, você seria mais legal. E segundo: não tem como não gostar de você. É tipo uma lei da natureza, algo assim, você é simplesmente alguém que as pessoas querem conversar. – Demi levou a mão a de Selena e sorriu quando fitou os olhos marrons. O brilho deles era fantástico! Dava para perceber claramente como Sel estava feliz através de um simples olhar.

   - Eu conheci a Anna e a Isabella ontem, tomei um susto porque elas são idênticas e eu tinha acabado de acordar tonta, o Inácio disse que elas não são idênticas, mas eu aposto que ele está enganado. Hoje a Anna trocou o meu curativo. Acho que ela não sabe que eu sei que ela é minha irmã.

   - Eu as vi. E a mais nova também, ela defendeu o Joe quando o seu pai o culpou por você estar machucada. – Demi franziu o cenho. Joe não tinha comentado nada.

   - A Hannah. – Disse e Sel assentiu. – Ele não gosta do Joe e nem do Augusto, o namorado da Hannah. Não sei o que vou fazer, eu só não posso ficar sem o meu gatinho.

   - Eu já disse que odeio esses apelidos? – Resmungou e Demi riu da careta de Sel. – Você não o chama assim quando vocês estão transando, chama?

   - Isso não é pergunta que se faça, Srta. Enxerida. Às vezes sim, às vezes não. Depende muito do nosso ritmo. – Selena tornou a fazer careta, mas riu. – Previsão de quando vamos sair daqui? Quero ir para casa. – Resmungou manhosa se acomodando mais a cama que estava longe de ser confortável como a dela ou a de Joe.

   - Provavelmente amanhã. Ainda tem muita coisa para resolvermos sobre isso. Já estou imaginando o detetive Pine adentrando esse quarto para te interrogar.

   - Eu só quero que isso acabe. – Disse Demi séria. – Vou pedir demissão. Quando eu chegar em casa, vou escrever a minha carta explicando os meus motivos. – Chegar naquela decisão foi difícil, era o sonhado emprego desde a época da faculdade, mas não dava para continuar, não depois de tudo que tinha acontecido. – Tenho dinheiro no banco, não é muita coisa, mas é o suficiente para abrir um escritório. O Joe pode programar para mim e eu fico com a parte gráfica, eu não sei, é apenas uma ideia. Nós temos muito conhecimento na área de TI, não vamos passar dificuldade, é o que importa.

   - Se você precisar de uma secretária e de alguém para a parte da administração, estou à disposição. – Demi esboçou um pequeno sorriso quando Sel a olhou nos olhos. Seria um novo começo, e o melhor era que ela poderia ficar mais tempo com as pessoas que amava.

***

   - Quero que você seja o mais coerente possível. – A delegacia estava um caos, mas o motivo não era ruim. Do lado de fora da sala, vários policiais comentavam fervorosamente sobre a prisão de Mary e do depoimento de Jake Gyllenhaal que acontecia exatamente naquele momento dentro da sala sendo elaborado pelo Detetive Pine. – Me conta tudo que aconteceu naquela noite. Precisamos do seu depoimento para encerrar o caso. – Chris fitou os olhos de Jake que assentiu um pouco assustado.

   - Eu vim para Nova York porque minha empresa estava falindo. – Começou a dizer fitando as algemas geladas que envolviam os pulsos. – Foi alguns meses atrás, seis meses para ser específico. Procurei o meu avô porque eu precisava da ajuda dele. A Gyllenhaal é uma das maiores empresas desse país e se eu conseguisse ao menos um patrocínio, já ajudaria. Meu nome estava na lama, o meu sócio estava prestes a quebrar o contrato e em casa a minha esposa com o nosso recém-nascido. Meu avô disse que ajudaria com a condição que eu teria que ficar em Nova York para aprender com ele a como administrar uma empresa. – Jake olhou para o detetive e depois para os outros homens na sala. Todos o olhavam com atenção. – Durante um tempo eu fiquei na casa dele estudando o que ele pedia, fui a Gyllenhaal poucas vezes. Conheci a Mary lá no departamento de Design. Ela era nova na empresa e não demorou muito para começarmos a sair. Era só sexo para mim, sempre deixei claro e ela disse que entendia. Quando meu avô descobriu, ele não gostou...

   - Você tem três crianças e uma esposa. Onde você está com a cabeça? – Jason estava furioso e Jake sem saber o que dizer ao avô. – Eu não criei um canalha! – Infelizmente tinha soado alto o suficiente para que quem estivesse do lado de fora ouvisse, e era Mary quem estava do outro lado da parede se vestindo porque Jason tinha a flagrado com Jake.

   - Eu não vou troca-los por ela. – Disse Jake tentando não ficar alterado e muito menos destratar o avô. – Vô, eu só estou me divertindo. Em casa as coisas não estão boas, minha empresa está falindo. Eles dependem de mim, todos eles! O Marcus, a Susan, as crianças. Eu estou acabado, só preciso colocar a cabeça no lugar para conseguir reverter essa situação. Um pouco de sexo não fará mal.

   - Você está saindo com essa moça e Demetria. – Jake engoliu em seco com o olhar que recebeu do avô e ele queria muito que Mary não tivesse ouvido aquela parte. – Demi é uma boa garota e não merece ser usada dessa forma. É melhor você acabar com isso, caso queira continuar tendo a minha ajuda.

   - Eu estou com a Mary por sexo. Demi me faz esquecer que o mundo me odeia, ela é uma boa companhia em todos os sentidos. – Jake franziu o cenho e preferiu ficar em silêncio observando o avô andar de um lado para o outro claramente nervoso.

   - Eu não quero você perto delas. Principalmente da Demi. É melhor você acabar com isso antes que as pessoas descubram. Eu não quero mandar você para casa do mesmo jeito que chegou. Garanto que Susan e as crianças não vão passar fome, mas será apenas isso. – Tinha saída? Jake assentiu e antes de virar as costas, abraçou o avô com força e o beijou na bochecha. Quem sabe um dia ele seria alguém tão importante como Jason? Jake observou a sala presidencial e respirou fundo.

   - Vou para casa, você não vem? – Perguntou fitando os olhos azuis idênticos aos dele.

   - Ainda tenho trabalho para fazer, não faço ideia de quando vou chegar, não me espere para o jantar. – E foi a última vez que ele ouviu a voz do avô. Ao sair da sala, Jake procurou por Mary encontrando-a escorada numa parede e esboçando um sorriso convidativo para ele que também sorriu.

   - Vamos continuar o que começamos? – Ela era ousada o suficiente para deixar qualquer homem fraco por sexo como Jake hipnotizado e completamente envolvido. – Vou deixar você brincar com o outro buraquinho. – Ele sorriu torto e a beijou com fome e desejo começando a aperta-la nas pernas nuas enquanto Mary o arranhava nas costas. Ela não o deixou em paz desde o dia em que se conheceram, sempre estava ligando e insistindo, estava completamente obcecada por Jake e não deixaria que nada os separassem.

   - Vamos para o carro? – Ele estava tão excitado que tinha medo do botão da calça estourar, e Mary se esfregando a ele e o apertando não ajudava em nada. De nada adiantaram as palavras de Jason, apenas o que importava era o prazer que um bom sexo poderia proporcionar.

   - A gente começa no elevador e no carro você tem a sua recompensa. – Disse Mary o mordendo no lóbulo da orelha e Jake assentiu prontamente envolvido o bastante para se lembrar que era casado.

Aconteceu como eles planejaram. Uma rapidinha no elevador e quando chegaram ao carro aos beijos, Jake respirou fundo quando sentiu o celular vibrar e depois tocar quebrando o clima.

   - Eu preciso atender. – Ele disse fitando brevemente os olhos de Mary para depois o nome de Susan no visor do celular.

   - Você não precisa, Jake. – Até mesmo a fala ficava diferente. Mary sustentou o olhar de Jake sem ousar em desvia-lo e interrompeu a ligação. – Não pense que eu não ouvi o que você e o Jason estavam conversando. Você está comendo a Demi? – Jake mordeu o lábio inferior quando teve a gravata puxada, mas logo sorriu encostando Mary na parte de trás do carro.

   - Estou. Ela é uma puta de uma gostosa, eu não poderia deixar passar. – Sussurrou no ouvido dela completamente descarado. – E eu já te disse, você é apenas sexo para mim. Você e ela. Se eu pudesse, juntaria você, ela e a Srta. Gomez com aqueles peitos fantásticos. Eu comerei as três ao mesmo tempo e sem parar. – Ele tornou a sorrir quando Mary assentiu o olhando nos olhos.

   - O que você vai fazer sobre o seu avô? Quando ele souber que você ainda está comendo nós duas, a coisa vai ficar feia para você. – Jake sorriu arqueando uma sobrancelha enquanto roçava o corpo ao de Mary para provoca-la.

   - Ele só não precisa saber. Vai ser o nosso segredinho, princesa. – Eles trocaram um beijo longo já se preparando para adentrar o carro quando o celular de Jake começou a tocar novamente.

“Cadê você, Jake? O leite das crianças acabou e Peter está com febre. Eu não sei o que fazer, Marcus não está em casa.” – Susan.

Ao ler a mensagem, Jake assumiu outra postura. E enquanto ele conversava no celular completamente sério com a esposa, Mary o observava minuciosamente desde os detalhes físicos ao jeito de se comportar. Ele era dela, apenas dela e não havia Jason, Demi ou Susan para impedi-la de ficar com Jake.

   - Eu precisei sair para depositar o que eu tinha na carteira na conta da minha esposa. – Disse Jake depois de umedecer os lábios. – Na caminho eu acabei esbarrando com a Srta. Lovato, ela estava chorando porque tinha brigado com a mãe. Eu não podia deixa-la sozinha. Pedi para ela esperar e segui caminho para o primeiro caixa eletrônico. Eu tinha duas mulheres me esperando. Por conta da distância, ficou melhor encontrar a Mary primeiro e despacha-la. Eu estava mais interessado em dormir com a Demi. Eu gostava de como ela era carinhosa comigo e completamente inocente, ao contrário da Mary. Tudo que contei foi o que realmente aconteceu naquela noite: Meu avô descobriu sobre a Mary e a Demi, eu transei no elevador com a Mary, depositei dinheiro na conta da minha esposa, me livrei da Mary e passei o resto da noite com a Demi. Eu não fazia ideia que estava comendo uma louca.

O caso foi encerrado quando o material encontrado na casa de Mary chegou às mãos do Detetive Pine. A pistola que usava o mesmo projétil que o encontrado no corpo de Jason e as fitas que mostravam claramente Mary atirando contra o dono da Gyllenhaal.


Continua... Demorou muito, mas saiu! Primeiro desculpem pela demora, é aquela velha história: final de semestre. Minhas provas acabaram ontem e pelo visto, estou de férias! Bem, voltando a fanfic, espero que vocês gostem dessa parte do capítulo, está oficialmente encerrado o caso Jake. Então, eu estava conversando com a Brunna, e acho que vou dividir essa fanfic em duas temporadas, pois ainda tem muita coisa para acontecer e nós já estamos no capítulo 53 parte dois. O que vocês acham? Obrigada pelos comentários, visualizações e compreensão! Até qualquer hora! Beijo e um abraço apertado.