16.11.18

Capítulo 17

Ansiedade. Preocupação. Mais ansiedade. Sentada de pernas cruzadas, Demi olhava a hora no visor do celular a cada um minuto, às vezes nem mesmo chegava a se formar um minuto. Só era que estava demorando em avançar o tempo. A casa estava movimentada com os Lovatos para comemorar o aniversário de quinze anos de Megan. Tias, tios, primos e primas. Selena, Ed, Scott e Augusto, Ana e o pequeno Harry deveriam ser os únicos que não eram da família, só faltavam Joe e Rick. Joseph já estava a caminho, motivo da ansiedade de Demi. E Rick não estava na festa, Anna não tinha o convidado por que continuava a dormir pesarosamente cansada e muito enjoada. A ausência da moça foi motivo de tantas perguntas, mas a velha desculpa do TCC colava muito bem.

   - Ele está a caminho? – Gentilmente Selena repousou a mão na coxa direita de Demi e curvou-se ficando mais próxima a amiga para conseguir ver o que ela fazia no celular.

   - Está. – Por mais ansiosa que estava para chegada de Joe, Demi se sentia mal porque não queria que o namorado saísse de casa. Estava frio, perigoso lá fora e Joe tinha tido um dia cansativo. Começou acordando muito cedo para se preparar a fazer a maratona de exames que o esperava. – Estou preocupada com ele.. – O olhar de Demi se perdeu em observar Megan conversando animadamente com as primas e Amber, fitou também o pai conversando com os irmãos e depois respirou fundo voltando a olhar o celular na palma da mão. – Acho que convida-lo não foi correto. – O coração estava partido, dolorido e era tudo que ela podia sentir por todo o tempo. O motivo se resumia exclusivamente ao medo de perder Joe para a doença ou qualquer outra coisa que poderia tira-lo dela. – Ele.. Ah, Sel. – Demi franziu o cenho quando teve vontade de chorar, enlaçou os dedos aos de Selena e descansou a cabeça no ombro dela.

   - Você quer um copo com água? – Perguntou Ed um pouco sem jeito e preocupado por ver Demi triste.

   - Obrigada Jesse. – Não dava para desabar em choro logo aí no meio de tanta gente que Demi ainda não conhecia direito, então sorrir mostrando que estava “bem” foi a melhor escolha. – Ele está chegando, vou espera-lo na saída do fundo. – Quando se levantou, Demi sustentou o olhar de Selena o tempo necessário para que a amiga entendesse que ela estava bem.

Ter tias e tios era muito estranho, e na maioria das vezes Demi não sabia o que dizer a eles e nem se deveria chama-los pelo “título”. Mas Inácio fazia questão e os irmãos e irmãs dele também, por isso Demi parou para trocar algumas palavras com uma das tias e alguns minutos depois seguiu na direção da cozinha ao sentir o celular vibrando. Ele tinha chegado e a maior vontade de Demi era de abraça-lo forte e dizer que o amava. Ansiosa, a barriga doeu e as mãos ficaram úmidas, mas Demi respirou fundo e não parou de caminhar.

   - Hann, o papai disse que daqui a pouco vem buscar mais comida. – Hannah deveria entender o recado. Demi a olhou e teve vontade de rir porque os lábios da menina estavam avermelhados, as roupas e o cabelo desgrenhados. Hannah só não perdia para Augusto. A camisa do rapaz estava com alguns botões abertos, o cabelo castanho bagunçado e com certeza na calça jeans o volume o deixaria constrangido.

   - Você está indo para algum lugar? – Perguntou Hannah esperançosamente porque se Demi fosse sair, ela iria junto. Não dava para ficar perto de Augusto e não matar toda aquela saudade acumulada de dias e mais dias sem poder ver o namorado por conta das regras do pai.

   - O Joe chegou. – Demi esboçou um sorriso fraco quando Hannah franziu o cenho e depois arqueou uma sobrancelha. – É melhor vocês procurarem um lugar mais reservado. – Disse antes de virar as costas para seguir caminho.

   - Dem. – Hannah estava prestes a beijar os lábios do namorado, mas ao se lembrar do que queria dizer a irmã, mordeu o lábio inferior e a chamou ainda com os braços rodeando a cintura de Augusto. – Você sabe o que está fazendo? – Perguntou cautelosamente sustentando o olhar de Demi.

   - Sei. – Demorou um pouco para Demi afirmar, e quando o fez, foi com toda a certeza que carregava. – Vão para um quarto. – Disse a menina e Hannah riu. Passar com Augusto para o segundo andar seria uma missão impossível, claro, do jeito convencional, de outro jeito.. Bem, já era uma diferente história.

No final daquela tarde o vento soprava sem pressa, a neve tinha dado trégua e mais cedo um restinho do sol tinha aquecido um pouco da neve, claro que não durou muito e nem foi o suficiente para derreter aquela quantidade horrolenta de gelo. O caminho da porta da cozinha até o portão não estava tão precário quanto dias atrás. Inácio tinha empurrado a neve para as laterais das pedras que formavam o caminho até o portão e em compensação, à direita e esquerda estavam com uma quantidade de neve que deveria chegar a quase um metro!

O carro estava parado do outro lado da rua, e Demi estranhou o porquê de Joe não descer. Antes de atravessar, a moça arrumou o trench coat ao corpo, olhou para os dois lados da rua e se aproximou do carro o estudando para saber se não passaria a maior vergonha de todo o mundo ao abrir a porta de um carro idêntico ao de Joe, mas de outra pessoa. Mas lá estava ele. Os olhos verdes livres dos óculos de grau, o cabelo escuro já grande o suficiente para pentea-lo charmosamente de lado, a barba uma sombra de pelos escuros, o suéter verde. Demi o olhou e quase chorou, mas quando Joe sorriu, ela o abraçou mesmo com a marcha a atrapalhando, assim como o painel de controle do carro.

   - Você está bem? – Demi respirou fundo, sustentou o olhar depois de atentamente observa-lo procurando por algo que a deixaria muito preocupada.

   - Estou bem. – O sorriso dele a aqueceu. Demi roubou muitos selinhos, beijou as bochechas e depois roçou os lábios. – Estou com saudades de você. – Resmungou Joe tentando puxa-la para o colo porque queria ter o máximo de contato com Demi.

   - Reclina o banco. – Pediu Demi sem sair dos braços dele mesmo daquele jeito desconfortável, o que foi motivo para riso porque ficava muito ruim reclinar o banco e empurra-lo para trás. – Está bem melhor. – Chegou a soar manhoso, e não era para menos, ela ficou grudada a Joe e gostava muito de ter os braços dele a envolvendo e de poder ouvir o coração batendo.

   - Você está bem? – Perguntou Joe minutos mais tarde depois de toca-la na cintura por baixo de todas aquelas roupas que Demi vestia e acaricia-la do jeito que gostava.

   - Estou bem. – Foi um ronrono. Os olhos estavam fechados e Demi suspirou absurdamente manhosa com o beijo que recebeu na bochecha. – Me conta da consulta. – Perguntou depois de roubar um beijo para depois se aninhar ao corpo dele.

   - A tia Laura solicitou todos os exames que você pode imaginar. – As bochechas de Joe coraram porque quando ele teve que tirar a camisa para ser examinado, explicar o que significavam os arranhões de unhas nas costas foi muito embaraçoso. Para a médica, Joe disse num murmuro que Lucy costumava brincar de uma forma agressiva, se ela acreditou, o rapaz não fazia ideia, só tinha sido mesmo constrangedor o fato de Laura estar com ele e saber a verdade. – Doeu tanto quando tiraram sangue. Eu nunca mais quero passar por isso. – O suspiro de Joe foi triste porque ele sabia que não seria a última vez que teria que passar por procedimentos médicos, mas o beijinho que recebeu de Demi o fez sorrir. – Fiz eletrocardiograma, radiografia do tórax, ecocardiograma e uma tomografia computadorizada multicorte. Amanhã eles vão verificar como estão os meus pulmões, pode ser que tenha algum problema com eles, os sintomas são semelhantes aos de insuficiência cardíaca. Estou cansado de hospital, quero ficar em casa com você. – A vontade de Demi era de segura-lo nos braços e nunca mais soltar. Ela se ergueu para olha-lo, tocou-o no rosto e com muito carinho o beijou na testa para depois abraça-lo.

   - Você tem que ir, temos que fazer tudo direito e todos os exames possíveis para que o médico possa estudar o seu caso e saber exatamente o que deve ser feito. – Beija-lo nunca era ruim, por isso que Demi o beijou na testa e depois nos lábios apreciando como os dele eram suaves e macios. – A sua saúde está em primeiro lugar, e nós vamos cuidar dela. – Demi suspirou com o olhar que recebeu de Joe, mostrava como ele estava cansado e havia uma pontada de tristeza o incomodando. – O que está te deixando com esse biquinho? – Ela tentou ser carinhosa para quebrar aquele ar tenso de Joe, e por um segundo ajudou porque o rapaz sorriu e a abraçou com mais força até que ela fez careta.

   - Eu quero ficar bem logo. – Disse focando o olhar no dela. – Eu estou começando a me sentir cansado e doente. – Demi não esperava ouvir aquelas palavras, elas foram ditas baixinho e Joe não a olhava mais. – Estou tendo palpitações e me assusta sentir o meu coração bater. A médica disse que preciso me alimentar melhor porque os meus glóbulos vermelhos não estão na quantidade adequada e eu posso ficar anêmico. Dem, eu já estava cansado da diabetes e da hipertensão, e agora isso. – As lágrimas rolaram sem que Joe nem mesmo percebesse, ele suspirou e franziu o cenho se sentindo sensível e muito assustado com tudo que estava acontecendo com a saúde. – Eu só queria ser normal, eu tenho vinte e três anos e estou com medo de morrer. – Foi um murmuro e resultou em muitas lágrimas dos dois. Quando o abraçou possessivamente, Demi se sentiu péssima por não poder fazer nada para mudar aquela situação, pois se pudesse, daria toda a vitalidade que tinha para que Joe ficasse bem e saudável.

   - Você é normal, meu anjo. Essas coisas fazem parte da vida, e nós temos que aprender a conviver com essas situações e jamais abaixar a cabeça. Nós vamos derrotar essas doenças juntos. – Os dedos foram enlaçados aos dele, e o beijo que trocaram foi simples e transmitia a segurança que precisavam. – Você vai ficar bem. – Era horrível sentir o medo de Joe, geralmente ele se mostrava tão confiante, mas quando a abraçou e suspirou ainda derramando lágrimas, Demi percebeu como ele estava frágil e precisava dela. – Você vai ficar bem, meu menino. – Demi o beijou na boca e sorriu quando o olhou nos olhos.

   - Obrigado por ficar comigo, Dem. Seria muito mais difícil se eu não tivesse você. – Nos braços dele, Demi sorriu e assentiu com um murmuro manhoso e sussurrou que o amava. – Também amo você, gatinha. – Facilmente ele a deitou no banco e cobriu o corpo dela com o dele aproveitando para beija-la no queixo e aspirar o cheiro delicioso que vinha do cabelo enquanto a beijava na curva do pescoço e abaixo da orelha. – O que você acha? – Alcançar o porta- luvas não foi o problema, e de lá Joe tirou uma pequena caixinha enfeltrada onde estavam as alianças de namoro.

   - Tudo bem, não tem um motivo para não voltarmos a usar. – Ela disse olhando para as alianças e depois para os olhos do amado.

   - Eu quero te pedir em casamento. – Depois que tinha colocado a aliança no dedo dela, Joe o beijou e sorriu porque Demi fez o mesmo. – Estou dizendo por que quero saiba que as minhas intenções com você são puras. – Foi tocar no assunto que Joe se lembrou de Inácio e de como seria complicado fazê-lo entender que a intenção nunca foi machucar Demi.

   - Eu sei que são, assim como as minhas. – Sorrindo, ela o acariciou no rosto e levemente o arranhou no cabelo da nuca. – No momento eu quero que o seu foco seja a sua saúde. Nós pensamos em casamento depois. – O biquinho que Joe fez foi o motivo do sorriso de Demi, ela o abraçou e o beijou na boca até que o namorado retribuía o beijo na mesma proporção. – Você já tem o aceito, não precisa ficar preocupado. – E mais uma vez, Joe se lembrou de Inácio. Era como se algo estivesse o alertando o tempo todo para contar a Demi sobre a situação do dia passado.

   - Dem, o seu pai está bravo comigo. – Foi uma afirmação, mas quando Demi franziu o cenho e depois arqueou uma sobrancelha, Joe assentiu confirmando mais uma vez o que tinha dito. – Ele foi ao meu apartamento ontem à noite e disse que era para eu ficar longe de você. – Resmungou de cenho franzido. – Ele tem razão em estar bravo, ele sabe o que aconteceu no Texas e se não gostava de mim antes, agora não tem nenhuma possibilidade dele gostar. – Se fosse pai de uma menina cujo namorado tivesse a traído, Joe faria o mesmo que Inácio porque não iria querer ver a garotinha de coração partido. Que antes partissem o coração dele!

   - Eu não contei nada para ele. Você está falando sobre a Rose e a Evelyn? – Demi franziu o cenho pensando em como Inácio tinha descoberto, quando Joe assentiu. – Só contei para Sel e as meninas. Elas não contariam. – Aos poucos Demi relembrou da noite quando conversou com as irmãs sobre o término com Joe. Elas tinham conversado muito sobre o assunto, e pouco depois de finalizá-lo, Inácio tinha batido à porta para entregar as pizzas. Ele poderia muito bem ter escutado parte da conversa.

   - Ele está bravo comigo. Não quero entrar com você, todo mundo vai me olhar torto. Vai ser desconfortável. – Não tinha como garantir que o tratariam bem. Demi sabia que as irmãs eram tão protetoras quanto o pai, mas também sabiam que ela amava Joe e que não gostaria que ele fosse maltratado.

  - Você vai estar comigo. Preciso que alguém pegue docinhos para mim. – Murmurou risonha o beijando na bochecha e Joe arqueou uma sobrancelha curioso. – Amor, eu já peguei tanto docinho que estou com vergonha de pegar mais, preciso de alguém para pegar docinhos para mim. – Joe acabou rindo apaixonado pelo jeito fofo e o sorriso feliz da namorada.

   - Então você quer que eu entre com você só para pegar docinhos? – Perguntou brincalhão e Demi assentiu toda sorridente, e gargalhou quando os dedos dele fizeram cócegas na barriga. – Estou muito magoado com você, Demetria. – Então ele fez mais cócegas e juntamente com ela, riu contagiado pela felicidade e o jeitinho de criança de Demi.

   - Talvez. – Confessou ainda rindo. Uma revanche seria perfeita, mas quando Demi tentou ataca-lo com cócegas, facilmente Joe imobilizou os pulsos e continuou a fazendo rir. – Joseph! – Aos poucos o riso cessou e os dedos dele não faziam mais cócegas. Demi sustentou o olhar sem ousar em interrompê-lo, tocou-o no peito largo e o segurou nos ombros e inquieta, relaxou mais o corpo ao banco. O toque dos lábios foi suave, um leve roçar, mas que depois se transformou num beijo com direito a toques de língua. – Você vai estar comigo e ninguém vai te maltratar, está bem? – A boca estava tão próxima a dele e a respiração quente se misturava.

   - Você tem certeza? Eu não quero causar problemas logo no dia do aniversário da sua irmã. – Demi negou prontamente, roçou os lábios aos dele e o tocou no rosto.

   - Está tudo bem. Eu vou conversar com o meu pai para esclarecer essa situação. – Demi o beijou no queixo e suspirou porque o corpo de Joe estava todo sobre o dela. – Hoje eu vou para casa com você. Nós vamos dormir juntinhos, o que você acha? – O sorriso dele foi a resposta que ela precisava. Demi sorriu igual de orelha a orelha e o beijou na bochecha ronronando algo sobre Joe ser muito pesado.

   - Eu estou com saudades de você. Vamos dormir no seu apartamento. – Aquele sorrisinho Demi conhecia muito bem, e por isso ela o acertou com um leve tapa e sorriu envergonhada. – O que? Eu preciso de carinho e atenção. – Disse depois de beija-la e mordê-la no queixo. – É uma recomendação médica. Repouso, carinho e muita atenção. – Os sorrisos se desmancharam quando se beijaram colando cada pedacinho do corpo.

   - Vamos entrar. A depender da quantidade de docinhos que você pegar para mim, prometo pensar sobre a possibilidade. – O biquinho dele foi beijado com uma série de selinhos, então Demi tentou empurra-lo sem nenhum sucesso, e acabou que Joe cedeu apenas depois de beija-la calorosamente na boca.

   - Então pode se preparar. – A intenção era empurra-lo com força tentando novamente partir para o banco do carona, mas Joe a segurou nos braços quando ela se ergueu e tornou a roubar um beijo e mordê-la na orelha.

   - Vamos, bebê. Prometo que nós namoramos mais tarde. – O beijo no pescoço era demais, Demi ronronou manhosa, mas se livrou dos braços de Joe a rodeando na cintura para conseguir passar para o banco do carona. – Joseph. – Quando o olhou, Demi acabou rindo porque ela tinha ganhado um tapa no bumbum e Joe tinha aquele sorriso esperto nos lábios pronto para induzi-la a fazer uma loucura. – Comporte-se, garotão. Agora nós vamos aproveitar a festa. – O “Sim, querida” foi tão desanimado que Demi teve que beijar o biquinho de Joe até que ele sorria.

   - Eu comprei um presente para Megan. É surpresa. – O sorriso de menino dele não foi para implicar com Demi e deixa-la mais curiosa, porém foi inevitável. A mulher fez a melhor cara de cachorrinho carente com direito a biquinho e tudo mais.

   - Você não vai me contar o que é? – Perguntou Demi sem conseguir desviar o olhar do presente e Joe assentiu achando fofo como ela estava coradinha. – Joseph. – O murmuro manhoso não adiantaria, e nem o beijo na bochecha seguido de uma mordida na orelha.

   - Surpresa, gatinha. – Como sabia que Demi iria insistir, Joe saiu do carro a deixando com cara de poucos amigos e quando abriu a porta oferecendo a mão para ela, o olhar carente estava lá para tentar convencê-lo. – Vem cá. – Chamou e no instante seguinte Demi estava nos braços dele o abraçando porque era manhosa e estava frio. – Ainda é surpresa. – Sussurrou a beijando na testa e o murmuro dela só o fez rir e puxa-la pela mão depois de trancar o carro. – Eu quase ia me esquecendo. – Quando ele parou foi quase no meio da rua, Demi franziu o cenho o olhando e o rapaz sorriu. – Comprei para você. – Era uma barrinha de chocolate e ao vê-la, Demi umedeceu os lábios e quis juntar Joe ao chocolate. Seria uma mistura deliciosa.

   - Obrigada, amor. – Ronronou o beijando no músculo do braço. – Se você continuar comprando chocolate para mim todos os dias, eu vou virar uma bolinha. – Não que ela se importasse com o peso, comer chocolate era sempre fantástico.

   - Vai ser a bolinha mais linda que eu vou apertar e morder muito. – Ao chegaram a calçada, Demi sorriu de olhos fechados sentindo os braços de Joe a envolver e o beijinho dele atrás da orelha.

   - Eu te amo, amor. – Disse baixinho e ele sussurrou que também a amava a virando para que pudessem trocar um breve beijo.

   - Você vai me proteger? – Demi tinha o puxado pela mão, mas Joe não tinha a acompanhado razão de estar com receio de Inácio. O homem era bravo e decidido, então o risco de ser colocado para fora sobre gritos e pontapés era muito grande. – O seu pai. – Disse um pouco sem graça quando Demi franziu o cenho.

   - Ele não vai bater em você, prometo. – Ela o puxou de novo, mas Joe não saiu do lugar e continuava a olhando como uma criança medrosa. – Eu vou te proteger. – Era o que ele queria ouvir. Demi o abraçou de lado e o beijou na bochecha carinhosamente. – Você está bem protegido, querido. Quando quiser ir embora, é só dizer. – Demi riu quando ele arqueou a sobrancelha. O agora não contava. A festa de Megan estava divertida e mal tinha começado, Demi jamais a perderia, por isso acelerou o passo. Joe a enrolaria o dia todo se ela deixasse.

Entrar pelos fundos era menos chamativo que entrar pela frente, ainda mais acompanhada de um homem vistoso como Joe. A vantagem de entrar pela cozinha era positiva a ponto de Demi conseguir comer mais docinhos porque não tinha ninguém além de Joe para evidenciar o fato. Até para ir se enturmando com o pessoal ficava melhor. A vergonha dos tios e tias ainda era grande, mas conforme os encontravam pelo caminho até a sala, Joe era devidamente apresentado.

   - Onde está Megan? – Perguntou Demi a Isabella roubando a atenção da irmã que estava concentrada em algo que Scott contava.

  - Hum.. Está por aí. – Bella umedeceu os lábios e sustentou o olhar de Demi por mais tempo do que deveria como se através daquela conexão pudesse descobrir se estava tudo bem, para depois olhar para Joe e sorrir. – Você está bem, cunhado? – As bochechas de Joe ficaram coradas, mas ele abraçou Isabella quando ela se levantou e a beijou carinhosamente na testa depois de assentir.

   - O seu pai está aqui? – Perguntou Joe a Demi. Não demoraram com Bella e Scott, apenas trocaram cumprimentos e partiram na direção de Megan para que Joe pudesse presentea-la e desejar os parabéns. A menina tinha ficado desconfiada, claro que não foi nada perceptível para quem não a conhecia bem como Demi e os mais íntimos, mas recebeu de bom grado o presente e deixou que Joe a abraçasse mesmo todo coradinho.

   - Ele está por aqui, querido. – Fazer uma pausa da festa no corredor não foi nada ruim. Demi aproveitou que estava a sós com o namorado para abraça-lo pelo pescoço e fechar os olhos apreciando o momento. – Selena, o Ed e as crianças também. Só relaxa e aproveita a festa comigo. – Naquele momento Demi se sentiu tão envolvida a Joe e absurdamente carente dos carinhos do rapaz, razão a qual a moça o induziu a abraça-la e recostando-se a parede, os lábios foram de encontro ao queixo barbado. – Amo você. – Disse baixinho o beijando na curva do maxilar e Joe umedeceu os lábios.

   - Eu também amo você. – Não foram carregadas de calor como as palavras de Demi. Enquanto ela o beijava, aninhava-se e ronronava manhosa, Joe não conseguia relaxar, o olhar estava alternado a procura da presença de outra pessoa no corredor, mais precisamente Inácio. – Dem. – Chamou de cenho franzindo e um pouco desesperado porque quando Demi ficava daquele jeito, ele sabia muito bem o que ela queria, e no momento estava literalmente fora de cogitação trocar até mesmo um inocente selinho. – Aqui não. Fica quieta. – Sussurrou se esquivando dos beijos dela e o que veio depois o deixou confuso. Não era compreensível a situação? Ele tinha sido grosso e mal educado? Os olhos de Demi marejaram! E ela parecia horrorizada com a situação. – Dem, eu.. Nós estamos na casa do seu pai. – Disse se sentindo terrivelmente culpado e Demi assentiu limpando uma lágrima e se afastando dele. Ah não! O que tinha com ela?

   - Tudo bem, eu entendo. – Que atitude era aquela? A primeira vez que Joe enfrentava o tipo de situação com Demi. Manhosa? Ela era. Mas achar que ele não a desejava por afasta-la era a primeira vez.

   - Demi, o que foi? – Claro que o lado apaixonado e preocupado dele falaria mais alto. Quando percebeu que ela estava se afastando, Joe a abraçou por trás e a beijou gentilmente na bochecha. – Nós estamos na casa do seu pai na festa da sua irmã. A casa está cheia e se alguém nos flagrar, vai ser muito chato, princesa. – Disse quando ela permaneceu calada, e tentou soar o mais suave e carinhoso que conseguia porque parecia que até um soprar de vento faria Demi chorar.

   - Vocês dois não tem jeito. – A sorte foi que era apenas Selena, mas mesmo assim Joe ficou assustado que o coração bateu mais rápido e o incomodou.

   - Selena! – Demi até riu, abraçou a amiga carinhosamente, mas quando olhou para o namorado, a preocupação a tomou. – Você está bem? – Perguntou atentamente o olhando e segundos depois Joe assentiu ainda respirando fundo e tentando ficar calmo.

   - Dem, eu estava te procurando. – Agora era Inácio. Demi mal olhou para o pai, a atenção estava toda voltada para Joe porque ela tinha medo do que poderia acontecer justamente quando se deparassem com Inácio depois da brincadeira de Selena.

   - Senhor Lovato, boa tarde. – Se ele estava com medo, não demonstrou. A voz soou impecável e a mão não tremia quando Joe a ofereceu para que fosse apertada numa forma de cumprimento.

   - Garoto. – Inácio manteve o olhar sobre Joe por bons segundos examinando-o, apertou a mão firmemente e depois olhou para Demi. – Acabei de verificar como sua irmã está. Estou preocupado. Não estou exagerando, Anne está pálida de tanto vomitar. – Agora estava explicado. Só uma das filhas doentes para desconcentra-lo do caso: namorado.

   - Você tem certeza? – Bem, não tinha como não ter certeza sobre alguém vomitar com frequência. Demi só não sabia o que diria ao pai porque Anna não estava doente como ele achava, ela estava tendo enjoos por conta da gravidez então leva-la ao hospital significaria descobrir a verdade e possivelmente deixar o pai furioso. – Porque.. Porque não tem cinco minutos que eu estava com ela. Está tudo bem, ela até está se arrumando para descer. Disse que está morrendo de fome. – Mentir não era uma boa saída, mas para proteger a irmã naquele momento, Demi o faria. Só Anna tinha o direito de contar sobre o bebê e ela o faria na hora ideal, segundo seus conceitos.

   - Mas.. – Inácio estava tão confuso. Ele olhou para trás, franziu o cenho e coçou o cabelo da nuca. – Tem certo tempo que fui ao quarto. – Murmurou ainda confuso. – Acabei de voltar de lá, a porta estava trancada e fiquei muito preocupado, por isso vim buscar ajuda. – Explicou-se um pouco corado e Demi sorriu agradecendo pela mentira ter se encaixado no contexto.

   - Não precisa ficar preocupado, ela está bem. – Quando abraçou o pai de lado, Demi olhou para trás para se certificar que Joe estava bem, e o que o encontrou a deixou de coração partido e aliviada. O olhar perdido e de menino carente era merecedor de todo o amor do mundo. E aquela carinha emburrada também, mas Demi continuou caminhando com o pai porque não queria que ele voltasse à atenção para Joe.

   - Ele é exigente, mas é um pai excepcional. – Disse Selena a Joe observando Demi caminhar abraçada ao pai conversando e sorrindo descontraída.

   - Ele é. – Joe adentrou os bolsos da calça com as mãos e respirou fundo. – Mas é muito chato e man..dã..dão. – O motivo de gaguejar era porque o rapaz sentia medo de Inácio e de que Selena o achasse ousado demais. – Ele fica no meu pé mais do que no pé dos outros rapazes. – Explicou-se um pouco envergonhado começando a caminhar ao lado da amiga.

   - Ele fica no seu pé porque a Demi é muito importante para ele, Joseph. Inácio sabe tudo que ela sofreu na mão da mãe, e agora ele não quer mais sofrimento para ela. – Selena sabia que Inácio tinha um coração enorme e gentil porque ele a tratava com carinho, respeito, cuidado e amor, como se ela fosse uma das filhas dele. A história de Demi também estava lá para deixa-lo mais vulnerável e protetor. – Você é um bom rapaz, Joe. – Disse o olhando nos olhos. – Mas você a magoou mais de uma vez, é claro que ele vai ficar no seu pé. O que os olhos meninos fizeram? Scott é um amor, Augusto só é um rebelde apaixonado influenciado por Hannah que consegue o convencer de fazer o que ela quer. – Joe franziu o cenho ao olhar para Selena. Não esperava que ela ainda estivesse magoada e na defensiva com ele.

   - E o Rick? É médico, bonito e rico. – Ele não escondeu como estava ofendido. Olhou para Selena e estreitou os olhos.

   - Joseph. Você pisou na bola. – Selena parou em frente ao rapaz e sustentou o olhar. – Não estou dizendo que os outros são melhores que você. Só estou dizendo que você magoou a Dem. Só não o faça novamente que tudo vai ficar bem. – Joe franziu o cenho enquanto olhava para Selena. Ele queria dizer como tinha se sentido quando brigou com Demi pouco antes de ir ao Texas, dizer que ela também o magoou, mas quando Harry se aproximou correndo com a irmã junto aos sobrinhos mais novos de Inácio, a atenção de Selena estava toda nas crianças e no pequeno Harry que sabiamente explicava aos garotinhos e garotinhas que na barriga da mãe morava um irmãozinho.

   - Não vai ficar aí parado, vai? – Ao ouvir a voz de Ed, Joe sorriu e abraçou calorosamente o amigo. – Você está com uma cara péssima, Jonas. – Joe quis xingar Ed quando teve o cabelo bagunçado. Sempre dava tanto trabalho para deixa-lo arrumadinho.

   - A sua namorada estava me importunando. – Resmungou Joe quando percebeu que Selena estava longe o suficiente para não ouvir o que ele tinha dito. – O pai da Demi quer arrancar o meu couro. Estou doente. Não tenho muitos motivos para estar feliz. – Ed arqueou uma sobrancelha e sorriu.

   - Quando a Demi te der uns bons amassos, você vai ficar feliz rapidinho. – Era certeza que Joe iria ficar corado, ele sempre ficava e Ed riu o puxando para que pudessem se acomodar nuns puffs cor de rosa que estavam mais afastados da concentração de pessoas. – Não é como se o Inácio fosse o seu melhor amigo e a Selena.. Hum, você sabe. Esse negócio dela com a Demi é.. Às vezes eu tenho a impressão que elas vão fugir juntas a qualquer momento. – Dessa vez quem arqueou uma sobrancelha foi Joe, e então Ed levantou discretamente o copo de caldo de frango que tomava na direção da namorada. – Você não pode considerar a Selena como uma amiga fiel, assim como eu não posso considerar a Dem. – Era uma pontada de ciúmes e curiosidade sobre aquelas duas que incomodava a Ed. Ele olhou atentamente para a noiva que estava toda sorridente conversando com Isabella e Amber enquanto Demi a abraçava por trás também participando da conversa.

   - Você tem razão, ele nunca foi o meu melhor amigo e nunca vai ser. Mas ele é o pai da mulher que eu amo, não podemos viver trocando farpas para sempre. Aliás, ele atira as farpas, eu apenas me machuco com elas. – Se ele enfrentaria Inácio? Jamais! O homem era grande e tinha certo porte físico, pelo menos sobre as típicas camisas xadrez dava para imaginar um corpo forte.

   - Você pode bajula-lo, mostrar que você se importa com a Demi e não vai machuca-la. Chame-o para sair com a gente. Podemos fazer um passeio até agradável. Eu, você, o pai da Selena e o pai da Demi. Uma noite em amigos. – Ed riu imaginando como seria tenso, mas também ficou curioso para saber se daria certo um passeio entre os quatro. – Se você está achando ruim agora, imagina quando a Demi estiver grávida. Não importa se o seu sogro é um cara legal ou não, você vai receber uma dura que jamais vai esquecer. Aconteceu comigo, eu nunca tinha sentido medo de outro homem, até ser chamado na casa da Selena para conversar sozinho com o pai dela. – Ed até respirou fundo, olhou para o chão por alguns segundos e assentiu negativamente massageando o cenho com a mão livre. – Nós não conversamos sobre o que aconteceu no Texas. Tudo que eu sei é através dos resmungos da Selena sobre você. – Então Selena estava realmente brava. Joe a olhou por breves segundos e depois voltou a atenção para Ed.

   - Eu.. – Joe apertou a curva do pescoço e arrumou o cabelo com as mãos achando curioso como o lustre da sala oferecia um charme especial a sala de uma decoração rústica ao mesmo tempo em que era moderna. – Eu quase beijei uma moça que conheci, e bebi na noite da formatura da Rose, acabei ficando com ela. Nada mais que beijos, segundo a Rose. Não me lembro de nada. – Disse a Ed o olhando nos olhos. – Eu estava chateado, mal humorado e com muita raiva de tudo que aconteceu. Me arrependi por ter sido um idiota. Não foi intencional, só foi acontecendo. É muito difícil administrar algumas situações sozinho, Ed. Quando a Demi encontrou a família, eu a e Sel sofremos com a ausência dela. Foi difícil compartilha-la com esse tanto de gente. Nos acostumamos, mas o jeito que o Inácio me tratou não foi legal. – Joe olhou para o homem e se perguntou se o problema era Inácio ou se ele era um cara fraco que não aguentava um pouco de pressão. – Cada um tem sua maneira de olhar para uma situação. Acho que outro cara poderia ter levado na esportiva todas essas implicâncias, mas me senti ofendido com todos os olhares duvidosos, a forma que sou tratado como um garoto que não sabe o que quer da vida. No dia que ele pediu a minha carteira de motorista na frente de todos foi constrangedor. Nós brigamos por causa dele e ela me disse coisas que me machucaram. No Texas eu.. Eu perdi a cabeça e fiz besteira, e estou arrependido. – Joe suspirou quando olhou para Ed percebendo o quão sério e concentrado o amigo estava.

   - Infelizmente acontece e você tem que aprender com os seus erros, Joe. – Ed era mais velho e mais experiente, então sabia melhor do que ninguém como relacionamentos funcionavam. – Errar é normal, mas cometer o mesmo erro é vacilo. O que aconteceu, aconteceu. A Demi te perdoou e é o que importa, só não faça mais. – Joe assentiu prontamente. Ele nunca mais iria omitir um fato.

   - Desculpe interromper, Ed. Mas eu estou sequestrando o meu gatinho. – Demi só não se acomodou no colo de Joe porque ficaria muito envergonhada, então o abraçou pelos ombros e sorriu quando Joe olhou para cima esboçando um sorrisinho de menino. – Não está com fome? – Perguntou quando o abraçou de lado e Joe negou num murmuro. – Amor, você precisa comer. – Salgados e docinhos estavam fora de cogitação. Refrigerante não era uma opção, então não sobrava nenhuma alternativa.

   - A tia Laura me obrigou a almoçar um prato carregado de comida, e eu comi uma maçã depois, estou bem, Dem. – Ele disse quando ela o levou para cozinha.

   - São seis e meia da noite. Você não pode ficar esse tanto de tempo sem comer, Joseph. – Demi o recostou no balcão e o abraçou aproveitando para se aninhar a ele feliz. – Vou preparar um suco para você. – Não tinha como resistir.  Quando o olhou nos olhos, Demi guiou as mãos para o cabelo da nuca e ergueu a cabeça para que Joe pudesse encaixar os lábios nos dela. – Bebê, me deixa cuidar de você. – Disse nos lábios dele e Joe assentiu suspirando e voltando a beijá-la.

   - Vamos para casa, Dem. – Ronronou a abraçando e olhando na direção da entrada da cozinha para verificar se ninguém estava prestes a entrar.

   - Só mais um pouquinho. – Demi o beijou e o mordeu no lóbulo da orelha. – O meu pai não vai brigar com você. – Disse Demi observando que Joe não parava de olhar na direção da entrada da cozinha. – Fica tranquilo. – Ela o beijou no queixo e suspirou se agarrando a ele. – Joseph, me abraça. – Ronronou manhosa sentindo a falta dos braços fortes dele a envolvendo. – Eu estou muito carente. – Sussurrou para ele. – E você me deixa maluca, não é uma boa combinação, coisa gostosa. – Então lá estava ela novamente tentando ataca-lo. Joe sorriu porque gostava de quando Demi demonstrava o quanto se sentia atraída por ele.

   - Então vamos para casa que eu prometo que vou te dar muito carinho e te deixar satisfeita. – Sutilmente ele a virou contra o balcão e guiou as mãos para o traseiro da namorada o apertando com vontade. E o sorriso de Demi foi de orelha a orelha.

   - Só se formos agora? Mais tarde não está valendo? – Demi queria que a mão dele a acariciasse em outro lugar, porém era muito arriscado. – Eu quero muito você. – Disse baixinho quando ele a beijou brevemente no pescoço. O corpo chegava a esquentar de uma forma deliciosa só pelo fato de Joe estar ali com ela.

   - Eu vou te torturar se formos mais tarde. – Foi um dilema escolher o que faria. Se fosse embora naquele momento, Megan ficaria chateada. Mas se fosse embora mias tarde, Joe a torturaria. Seria ruim? O que ele faria? Demi esboçou um pequeno sorriso sapeca e depois mordeu o lábio inferior. A curiosidade sempre falaria mais alto.

   - Eu vou adorar ser torturada, desde que eu esteja nua e com você. – Ela o beijou demoradamente na bochecha, acariciou a mão grande dele observando a aliança cor de prata. Em troca, Joe a apertou na cintura a puxando para ele e a beijou no canto da boca. – Vou fazer suco de laranja para você. – Agarre-o! O que estava acontecendo? Demi sempre desejou Joe, mas o jeito que desejava agora era muito diferente. Quando estava alguns passos do namorado, ela o olhou de cima a baixo. Ofegou, umedeceu os lábios e quando olhou para os olhos de Joe, sentiu o coração disparar no peito. Ele era bonito demais! Desde o cabelo arrumandinho as pernas grossas moldadas pelo jeans. Até o bumbum dele Demi queria apertar, deslizar as mãos pelos músculos largos dos braços, espalmar o peito largo e gemer manhosa o olhando nos olhos.

   - O que foi? – Perguntou Joe esboçando um sorriso fofo sustentando o olhar dela e Demi franziu o cenho.

   - Estou admirando a vista. – E para pirraça-lo, Demi o olhou na direção do zíper da calça e lambeu os lábios. – Uma bela vista, querido. – Corado e excitado! Demi sorriu o achando incrivelmente fofo e sexy, então se aproximou para abraça-lo e dizer o olhando nos olhos: – Eu amo você. – E por fim trocaram um beijo, na verdade dois beijos de perder o fôlego.

   - Eu também amo você. – Joe a abraçou por trás e sussurrou no ouvido dela e a mordeu no lóbulo da orelha aquecendo ainda mais o corpo feminino.

Suco de laranja. Era aquilo que Demi tinha a fazer. Então ela precisava de laranjas. Não, mangas! O efeito de Joe era exatamente aquele. Demi estava confusa, excitada e louca para agarrar o namorado. Enquanto isso Joe continuava escorado ao balcão, os braços cruzados sobre o peito e aquele sorriso de menino o deixando absurdamente sexy. Alguém deveria multa-lo ou alerta-lo que ele não deveria ser tão lindo. Quando os pensamentos voltaram para o lugar correto, Demi mordeu o lábio inferior e pensou: se ele vai me torturar, porque também não posso tortura-lo? Objetivando fazer daquele momento um dos joguinhos de sedução que tanto a divertida e a fazia ansiar pelo que estava por vir, pegar laranjas na fruteira exigiu muito jogo de cintura.

Demi reconhecia muito bem os atributos que tinha, e adorava usa-los nos momentos corretos. Parada em frente à fruteira, desabotoar o trench coat exigiu uma técnica que era uma aliada infalível à sedução: usar e abusar de ações mais demoradas. Quando os botões estavam desabotoados, Demi quase deixou o casaco cair no chão, e daí lembrou que estava na casa do pai e tudo que faria teria que ser mais sutil e numa linguagem que apenas Joe entenderia. Ele estava olhando. Tão envolvido que o olhar acompanhava os movimentos dela. Ótimo. Ao entregar o casaco para ele segurar, Demi apenas sorriu e voltou à missão de pegar as laranjas rebolando o traseiro e sempre que podia, olhava para Joe deixando claro como ela estava ansiosa para ficar sozinha com ele.

   - Esse foi o melhor suco de laranja da minha vida. – Os dois estavam escorados no balcão. Trocaram poucas palavras depois que Demi entregou o copo com suco natural de laranja para Joe acompanhar os poucos salgados que iria comer.

   - Você tem que se alimentar, querido. – Gentilmente ela o beijou no ombro e sorriu o olhando. – Você é um homem grande e precisa de energia, principalmente agora que.. que nós temos essa luta para enfrentar. – Não foi o melhor sorriso, e estava longe de ser um feliz, mas quando Joe sutilmente a empurrou e sorriu a olhando, Demi também o fez.

   - E que nós vamos ganhar. – Ser otimista não custava nada. Joe sorriu confiante quando Demi assentiu sem olha-lo. Daí ele percebeu, mais uma vez, como a mulher que ele amava era linda e preciosa.

   - Nós vamos. – Demi sorriu para a tia mais velha que buscava salgados e então buscou o celular no bolso do casaco quando o sentiu vibrar.

“Não quero montar a minha árvore de natal sem a minha estrela. Você tem um tempinho para ficar com a mamãe, anjo?”. – Dianna.

Sim, o natal estava batendo na porta! Eram tantas coisas acontecendo que Demi tinha se esquecido completamente daquele fato. Seria o primeiro natal que ela estaria completamente feliz, pois havia paz com a mãe, tinha encontrado Inácio e descoberto irmãs incríveis, Selena e Anna estavam grávidas, e não existia um presente mais gratificante que Joe. Ao pensar em tudo de bom que tinha acontecido, Demi sorriu involuntariamente e feliz, respondeu a mensagem da mãe.

“Eu estou morrendo de saudades de você!!! Estou na festa da Meggy, daqui a pouco acaba e eu vou direto para aí ficar com você <3”. – Demi.

Não teria nada que a impediria de ficar com a mãe naquele resto de noite, na verdade, ao olhar para o lado, Demi franziu o cenho porque ela realmente queria compartilhar a cama com Joe naquela noite e passar bom tempo nos braços dele o amando. Como faria para unir os dois desejos?

   - Vocês estão aí. – Demi sorriu ao observar que Anna parecia mais saudável e disposta. Provavelmente a companhia de Rick estava a ajudando. – Acho que já vão cantar parabéns. – Disse a moça ao se aproximar do balcão e Demi aproveitou para estuda-la melhor.

   - Você está bem? – Demi não cumprimentou Rick como costumava fazer, olhou-o brevemente esboçando um pequeno sorriso e voltou toda atenção para irmã.

   - Menos enjoada, mas ainda muito sonolenta. – Disse a moça recostando no namorado. – Só levantei porque o papai não parava de ir ao meu quarto. Ele está preocupado e eu não quero que ele saiba que será vovô agora. – O melhor foi à reação de Joe. Ele arregalou os olhos e não soube disfarçar a surpresa.

   - Você está bem? – Rick perguntou e Joe assentiu tossindo um pouco. Ah! Ele podia sentir as bochechas coradas e o nervoso começar a toma-lo. Inácio ficaria uma fera, mas daquela vez não seria com ele!

   - É segredo. – Disseram Demi e Anna assim que o rapaz corado já estava mais calmo. – Eu vou contar, mas não agora, preciso me preparar. – Anna olhou para Demi e depois para Joe tendo a certeza que teria a ajuda deles. Já era difícil demais apenas a ideia de que o TCC seria apresentado no dia seguinte, imagina se Inácio estivesse por dentro dos últimos acontecimentos? A apresentação por si só já era tensa, imagina a pressão no olhar do pai?

   - Isso vai ser muito complicado. – A intenção de Joe não era assustar ainda mais a Anna, e muito menos chatear Demi, mas não teve como ele segurar aquela fala. Seria muito complicado lidar com Inácio e ao pensar naquela questão, a vontade de ser pai ficava um pouco mais distante. – Desculpa, eu não quero assusta-la é só que.. – Ele achou melhor ficar quieto. As bochechas coraram e o coração bateu um pouco mais rápido.

   - É realmente complicado, não tem outra definição. – Disse Rick enlaçando os dedos aos de Anna quando a abraçou por trás. – Mas que graça teria se não fosse? Nosso sogro só é um homem muito preocupado porque os tesouros dele são únicos. – Soou tão confiante e apaixonado. Discretamente Joe espiou o casal trocando um beijo apaixonado e então olhou para Demi.

   - Não fica preocupado. – Sussurrou Demi o abraçando de lado e ele assentiu retribuindo o abraço e a beijando na bochecha.

   - Vamos cantar parabéns? – Isabella os chamou da entrada da cozinha e como sempre, estava com Scott juntinho a ela.

Parecia que o que mais havia naquela festa eram casais. E as meninas de Inácio então estavam bem acompanhadas. Demi e Joe. Anna e Rick. Bella e Scott. Hannah e Augusto. Selena não fazia parte das irmãs, mas era uma das jovens acompanhadas.

A cantoria foi calorosa e de arrancar sorrisos. As meninas sempre eram espirituosas e o que não faltava de forma alguma era criatividade para fazer a outra passar vergonha, e daquela vez não foi diferente. Não era porque o aniversário pertencia a rainha da bagunça que ela não sofreria com as brincadeiras que costumava fazer. Então Isabella aproveitou para deixar a irmã de bochechas coradas na frente de toda a família na hora do “Com quem será? Com quem será que a Megan vai casar?!”, e Hannah, que não era boba nem nada, disse pelo menos três nomes de garotos da escola de uma forma pensativa que era brilhante, pois dava a entender que era verdade e que Megan tinha mais de um pretendente.

Na hora das fotos... Salve a tecnologia, pois se fosse ao método antigo, não teria filme fotográfico para registrar a quantidade de foto tirada. E detalhe, não era apenas um smartphone que capturava as imagens. Megan teve que sorrir e olhar para pelo menos quatro celulares e tirar foto com muita gente, claro, incluindo a linda foto de família onde estavam todas as irmãs com a aniversariante e o pai.

Depois de o bolo cortado e distribuído para os convidados, todos pareciam mais calmos e relaxados, deveria ser também porque já estava ficando tarde e era um dia de meio de semana, ou seja, muita gente tinha saído direto do trabalho para a festa. As crianças eram as únicas que estavam a todo vapor, como sempre. Alicia era uma dela, ou pelo menos tentava ser já que a pequena não dava conta de correr como Harry, o sobrinho de Ed, ou como a prima Isla. Os adultos estavam distribuídos. Hannah tinha tomado chá de sumiço com Augusto, Isabella conversava com Scott junto ao tio David, Anna cochilava no ombro de Rick sentada ao lado de Inácio. Demi e Joe estavam sentados próximos a Selena e Ed, a conversa não estava muito animada porque a atenção sempre era roubada pelo som melódico vindo do piano. Megan tinha resolvido tocar, e o som que a menina construía era delicioso de ouvir, ela tinha até arriscado cantar algumas vezes com a ajuda de Amber, e parecia que quanto mais o tempo avançava, mais animada Megan ficava.

Clássicos do cinema foram tocados, trilha sonora de jogos, algumas das músicas mais atuais e quando pensavam que a menina estava ficando cansada, lá vinham mais músicas. Uma de fato foi a última, e com certeza a que mais chamou a atenção. The Scientist do Coldplay não foi tocada de forma qualquer. A música envolvia tanto a Megan que a menina se deixava levar pelo coração, e ao toca-la, os olhos estavam fechados e o coração a mil.

Depois da última nota, Demi observou como Megan parecia estática. O corpo rígido numa postura reta logo estava frouxo como se perdesse as forças. A menina não olhou para trás quando se levantou, mas os passos rápidos indicaram que ela não estava bem, por isso Demi se levantou as pressas para ir atrás da irmã a tempo de aborda-la ainda no corredor. Os olhos castanhos estavam marejados, as feições tristes e quando Megan a envolveu num abraço apertado, Demi não teve coragem de pedir que ela não chorasse porque ninguém deveria sofrer tão cedo com a falta da mãe.

***

   - Eu odeio como as coisas são. – Dentro do carro poucas palavras tinham sido ditas, e agora em frente ao prédio onde Dianna morava, Demi tinha sentido a liberdade de dizer aquelas palavras a Joe. – Megan é só uma criança, ela deveria estar radiante. – Resmungou emburrada porque odiava quando uma das irmãs ficava triste, e naquele caso, todas tinham ficado quando souberam que Megan chorava pela mãe. – Isso é tão injusto. – Reclamou cruzando os braços sobre o peito e minutos mais tarde olhou para Joe sem entender o porquê de ele estar calado.

   - A vida é assim, princesa. Injusta. – A voz soou cansada. Joe relaxou o corpo no banco do carro e observou o pouco movimento de pessoas na rua. – Eu daria tudo para ter pelo menos um dia com os meus pais, uma hora que fosse. Eu só queria sentir como eles me amavam, ouvir a voz, sentir o cheiro, o toque. – Pior que perder um pai ou uma mãe, era crescer sem ter uma única lembrança, apenas histórias contadas por familiares e desconhecidos.

   - Desculpa, amor. Eu sinto muito. – Murmurou Demi envergonhada e Joe assentiu.

  - Está tudo bem, Dem. – Disse levando a mão a dela. – Cuida dos seus pais e sempre demonstre como você os ama. – Ao fita-lo nos olhos, Demi assentiu. A vida tinha dado a ela uma única e rara chance de ter uma família fantástica, e Demi jamais poderia ser grata suficiente por ter tantas pessoas para amar e ama-la.

   - Sobe comigo para dizer um oi para mamãe? – O suspiro triste foi de partir o coração. Demi o beijou no braço e sorriu porque Joe ficava fofo quando estava emburradinho. – Essa cara só porque eu não vou dormir com você hoje? – Perguntou tentando não sorrir e agarra-lo.

   - Você está sendo muito requisitada ultimamente. Quase não ficamos juntos. – Era ciúme. Quando Joe franziu o cenho, Demi gargalhou e deu um jeitinho de abraça-lo da forma que conseguia.

   - Joseph, nós ficamos juntos a maior parte do tempo, não seja egoísta. – Assentindo, Demi sorriu quando ele a olhou de sobrancelha arqueada. – Tudo bem. Nos últimos dias eu tenho passado muito tempo com as minhas irmãs, mas nesses últimos meses nós ficamos bem grudados. – Nos seis meses de namoro, praticamente moravam juntos. Dormiam agarrados e acordavam nus, brigavam por besteiras ao mesmo tempo em que se derretiam de amor um pelo outro.

   - É que eu preciso de você. – Não era egoísmo. Joe umedeceu os lábios e olhou para o couro do volante como se fosse algo realmente interessante. O medo de estar doente o desconcentrava de ter esperanças e o assustava, ter Demi por perto para apoia-lo fazia toda diferença. – Preciso muito, quando nós estamos juntos, me sinto muito seguro e bem. – Explicou a olhando. – Mas tudo bem, você também tem que ficar com a sua mãe. – Ficar emburrado era inevitável. Joe cruzou os braços e ficou impassível olhando para o volante.

   - Não faz isso comigo, amor. – Como o cinto estava a atrapalhando, Demi o tirou e guiou os lábios para o pescoço do namorado. – Eu sou apenas uma mulher. – Ronronou o mordendo na orelha e o apertando na coxa. Joe quase se deixou vencer. Ele quis gemer alto e se entregar aos carinhos de Demi, mas não o faria. – Joseph! – Demi quis estapea-lo porque odiava quando ele ficava emburrado e irredutível. Ela parou os carinhos para olha-lo e revirou os olhos com muita vontade. Era muito difícil lidar com situações daquele tipo. As meninas queriam que ela estivesse por perto, assim como Inácio. Selena precisava de ajuda com o casamento e de alguém para mimá-la, além de Ed, porque era demasiadamente manhosa e carente. Joseph era um namorado grudento, estava doente e Demi queria muito ficar o tempo todo com ele, mas também havia Dianna. Era um sonho poder finalmente chamar a mulher de mãe, e agora que elas estavam bem Demi mal tinha tempo para ficar com ela. – Eu vou subir, Sr. Emburrado. Vem apenas cumprimentar a sua sogra, chato. – Se ele podia ficar emburrado, porque ela também não ficaria? Demi só pegou a bolsa e saiu do carro. Estava frio e nevando, por isso apressou o passo e quando estava na parte coberta do prédio, ouviu o resmungo de Joe.

   - Está muito frio. – Como um homem podia ser tão reclamão? Demi revirou os olhos ainda o olhando e deu de ombros caminhando em direção ao elevador. Era Nova York em pleno dezembro, sempre foi frio e sempre seria.

   - Você gostou da festa? – Perguntou Demi quebrando o silêncio dentro do elevador. O andar onde Dianna morava era um dos primeiro, e apesar de ser um curto período dentro do cubículo, ficar em silêncio era chato.

   - Gostei. Ao menos o seu pai não brigou comigo. – Joe coçou a nuca e sorriu um tanto sem graça. Inácio estava muito envolvido com os irmãos e em agradar Megan, ele tinha no máximo lançando um ou dois olhares intimidantes ao rapaz.

   - Vou conversar com ele de novo. – Disse Demi pensando no que Joe tinha contado mais cedo. – Ninguém vai brigar com você. Aliás, só eu. – Ela sorriu quando as portas do elevador se abriram no andar desejado e já naquele corredor, sorriu ainda mais porque a sensação de estar ali era nostálgica.

   - Eu não quis ser chato no carro. – O abraço por trás a pegou de surpresa, e Demi ficou quieta sentindo o calor a envolver e o beijinho delicioso atrás da orelha arrepia-la. – Mas é verdade: você me faz bem e eu fico seguro quando estamos juntos. – Sussurrou a abraçando com mais força e Demi assentiu de olhos fechados.

   - Eu também, Joseph. – Aos pouquinhos Demi se virou e aspirou o cheiro dele no pescoço. – Fica comigo aqui hoje? O que você acha? – Perguntou o abraçando pelo pescoço e Joe franziu o cenho um pouco surpreso com o convite.

   - Mas esse momento é para ser seu e da sua mãe. Acho que eu vou estragar as coisas. – Disse um pouco sem jeito a apertando na cintura e Demi sorriu de orelha a orelha.

   - Você não vai. Aposto que a mamãe vai gostar muito se a gente ficar aqui com ela hoje. Ela também vai te conhecer melhor e passar mais tempo comigo. Não vai ser ruim. – O beijo no queixo e depois vários deles no pescoço era só para convencê-lo, e o melhor de tudo era que estava funcionando.

   - Não vamos combinar nada. Só vamos deixar acontecer. – A proposta pareceu perfeita e então Demi assentiu concordando. – Contando que eu durma com você, está valendo. – O beijo não poderia faltar. E como sempre foi caprichado, apaixonado e muito intenso. Demi abraçou Joe pelo pescoço e ele envolveu a cintura dela com os braços. E ao olhar para um ponto qualquer, o corpo de Demi aqueceu no mesmo instante porque surpreendentemente a porta do quartinho onde teve a primeira vez estava no campo de visão. A ideia a fez sorrir, mas ficaria para outro dia...

   - Vamos, coisa gostosa. – O calor que vinha sentindo era sem igual. Um calor sexual que a fazia querer Joe de todas as formas. E se ficasse mais um segundo sozinha com ele, Demi o levaria para o quartinho e só sairia dali quando estivesse enjoada de sexo, o que não aconteceria. – Comporte-se. – O sorriso foi de orelha a orelha porque assim que chegaram a porta do apartamento de Dianna, Joe a acertou com um tapa no bumbum.

   - Sempre. – Ah não! Demi quis arrasta-lo para o quartinho porque aquele sorriso dele automaticamente a fazia derreter de desejo. Por um tempo ela o olhou sustentando o olhar safado, mas resolveu que seria melhor bater à porta. Ela o pegaria de jeito quando eles estivessem indo embora. No quartinho, de preferência.

A batida à porta foi atendida pouquíssimos segundos depois, era como se Dianna ansiasse a chegada de Demi e estivesse ao lado da porta o tempo todo a esperando. O abraço que elas trocaram foi caloroso, apertado e delicioso. Olharam-se sorrindo e voltaram a se abraçar uma mais feliz que a outra.

   - Mamãe, tem problema se o Joe ficar aqui com a gente? – Desde quando Demi era tão manhosa? Ah! Quem se importava? Ela sorriu como se tentasse convencer a mãe a deixa-la ficar com um gatinho que tinha achado na rua e Dianna riu assentindo logo envolvendo o rapaz num abraço. Estava quente e muito aconchegante no apartamento, com direito a cheiro de biscoitos e chocolate quente.

   - Nós só vamos precisar de um chocolate quente diet, você é diabético, não é? – Perguntou Dianna o olhando e quando Joe corou assentindo, ela sorriu porque o rapaz era muito fofo. – Vocês estão com fome? – Perguntou caminhando em direção à cozinha e Demi sorriu observando como a mãe estava normal vestindo roupas simples e sem maquiagem. Era uma mulher linda.

   - Eu estou esfomeada. – Disse Demi ansiosa para comer os biscoitos e tomar chocolate quente. Era até estranho porque não tinha uma hora de relógio que tinham saído da festa de Megan, Demi até tinha comentado “Eu estou tão satisfeita que acho que não vou comer nada pelo resto do mês”. – Esses biscoitos são maravilhosos. – Resmungou Demi abismada com o sabor do biscoito quentinho. – Onde você aprendeu? – Perguntou levando um biscoito aos lábios de Joe para ele experimentar, já se fosse deixa-lo tomar atitude, jamais aconteceria.

   - É uma receita da sua avó. – Comentou Dianna a servindo com chocolate quente e Demi sorriu, mesmo se sentindo triste por não ter mais a avó. – A sua vó era uma mulher rígida e exigente, mas ela tinha um lado lindo, filha. Quando eu era adolescente, às vezes ela me contava sobre as viagens ao arredor do mundo, sobre as pessoas que tinha conhecido e como as cidades eram lindas. A minha história favorita é a da viagem à França. Lembro-me como se fosse ontem a sua avó contando sobre Paris. Ela ficou horrorizada com a Torre Eiffel, disse que era uma lataria estranhamente linda. Só não gostou do cheiro do rio Sena, criticou a quantidade de turistas e perdeu a paciência na fila para subir na Torre Eiffel. O que eu mais gostava nas histórias dela era que tinham tantos detalhes desde a estrutura dos lugares as sensações que eles transmitiam. – Dianna sorriu verdadeiramente feliz contando sobre a mãe e se lembrando de como Amélia era espirituosa, crítica e elegante. E Demi fazia o mesmo, só que derramava lágrimas.

   - Eu gostava tanto dela. – Resmungou chorona e Dianna ficou surpresa, mas abraçou a menina e a beijou na testa. – Sinto muita a falta da vovó. – Ronronou manhosa se aconchegando ao abraço da mãe.

   - Eu sei, querida. – Quando a olhou nos olhos, Dianna sorriu e limpou as lágrimas que Demi derramava.

   - Esses biscoitos são deliciosos. – O que ela tinha? Joe franziu o cenho. Demi não era comilona e chorona daquele jeito. Ela estava diferente até mesmo quando estavam na cama agarrada a ele. – Amor, come. – Será que se ele não comesse ela choraria? A carinha de choro estava prestes a desabrochar, então Joe comeu os dois biscoitos que Demi oferecia e ficou com vontade de puxa-la para os braços e mima-la, mas quem fazia isso era Dianna.

   - Eu não sabia que você era tão manhosa. – Disse Dianna a beijando na testa para depois nas bochechas e Demi sorriu se aninhando ao abraço da mãe. – Vamos montar a nossa árvore de natal? – Perguntou a olhando nos olhos e Demi assentiu sorrindo de orelha a orelha.

   - Joe, você está com fome? – Perguntou Demi olhando atentamente para o namorado e Joe negou no mesmo instante.

   - Tenho maracujá, posso fazer chá para você. – Disse Dianna o olhando e Joe sentiu as bochechas ruborizarem. Ele não estava com fome, bem pelo contrário, Demi tinha o entupido de suco de laranja e salgados assados.

   - Eu estou satisfeito. – Disse o rapaz um tanto sem jeito. – A Dem me fez comer bastante na festa. – Ele até tinha coçado o cabelo da nuca envergonhado porque só depois que disse sobre Demi que foi se lembrar de que ela poderia ficar brava com ele.

   - Mãe, ele não come. – Resmungou Demi desfazendo do abraço de Dianna para ajuda-la com os biscoitos. – E olha o tamanho dele. – Dianna riu de como Joe ficou sem jeito. Era uma característica de Demi ser exagerada com os namorados. Dianna sabia que sempre que a filha se envolvia com um rapaz, ela fazia de tudo da forma mais exagerada possível. Assim era com André e agora com Joe.

   - Como foi a viagem? – Perguntou Dianna pegando os maracujás para lava-los para fazer o chá, Demi puxou Joe pela mão para que ele se acomodasse a mesa e comesse mais biscoitos com ela.

Sobre a viagem, Demi evitou muitos detalhes, pois não queria constranger Joe na frente da mãe. Seria uma conversa que elas teriam pessoalmente. Ela tinha muito a contar sobre o Texas, e Joe ficou feliz por ouvir Demi contar sobre coisas que ele nem mesmo imaginou que ela tinha prestado atenção. As paisagens eram descritas com tanta precisão, e Demi realmente parecia apaixonada por elas, só não mais que nas comidas preparadas por Clara. A moça falou tão bem do Texas, que Dianna confessou que estava com vontade de visitar as terras de Joe.

Mais tarde a árvore de natal estava montada, apenas o pinheiro posto num vaso com a ajuda de Joe, que fez toda a diferença. Então Dianna tinha trago do quarto uma caixa de papelão enorme cheia de bolinhas cor de rosa, estrelas, velinhas e bonecos de feltro, sininhos, anjinhos, miniatura de rena, festão colorido, pisca-pisca e muitos outros enfeiteis.

Escorado no sofá, Joe acabou dormindo, resultado do chá de maracujá. Demi e Dianna estavam animadas. Tinham distribuído bolinhas na ponta dos galhos do pinheiro, colocaram os outros enfeiteis e a guirlanda na porta do apartamento. O pisca-pisca colorido foi envolto em toda árvore, e quando estava ligado, a sensação do natal foi única. Demi olhou emocionada para mãe a abraçou de lado ainda admirada com a beleza da árvore.

   - Só falta a estrela. – Disse Dianna a Demi, que sorriu sabendo que aquela parte era a dela.

O pinheiro deveria ter um metro e setenta, ou seja, era muito maior que Demi, por isso foi necessário que Dianna pegasse um banquinho e auxiliasse a filha. A estrela cor de ouro foi posta do topo da arvore, e Demi se sentiu como uma criança por ficar responsável por aquela parte, a melhor parte de todas! O sorriso que tinha passado maior parte do tempo no rosto da moça só foi desfeito quando o cheiro do pinheiro a incomodou. Não era uma árvore artificial, Dianna tinha se esforçado para comprar uma árvore real, como era costume no país porque queria que o natal de Demi fosse especial.

A primeira reação de Demi foi correr para o banheiro. E foi aí que ela percebeu o quanto de comida tinha consumido nas últimas duas horas, pois quanto mais vomitava, parecia que mais comida tinha para ser posta para fora. Sorte que Dianna a ajudou segurando o cabelo e buscou por uma toalha limpa quando ela lavou o rosto.

   - Você está pálida. – Dianna sabia exatamente o que a filha tinha. Só Demi que parecia alheia ao mundo, deveria ser o sono já que ela bocejou e franziu o cenho um tanto manhosa.

   - O cheiro daquela árvore é muito ruim. – Resmungou Demi se escorando a pia e cruzando os braços sobre o peito, e no mesmo instante ronronou porque os seios continuavam doloridos, principalmente quando eram apertados.

   - O que foi? – Perguntou Dianna a olhando atentamente.

   - Eu acho que minha menstruação está chegando, os meus seios estão sensíveis desde ontem. – Tornou a resmungar manhosa completamente alheia as suspeitas da mãe.

   - Podemos conversar? – Dianna tinha encostado a porta do banheiro porque não queria correr o risco de Joe ouvir a conversa, se bem que o rapaz estava dormindo que chegava a suspirar. – Conversa de mulher. – Demi só foi entender quando a mãe arqueou a sobrancelha, então ela assentiu um pouco envergonhada.

   - Tudo bem, nós podemos conversar sobre coisas de mulher. – Desde quando ela ficava tão envergonhada? Será que era pelo fato de ser Dianna? Demi sorriu cabisbaixa porque ela sempre conversava tranquilamente sobre sexo e tudo mais com Selena como se fosse uma conversa sobre um dia de chuva.

   - Vocês estão se protegendo? – Tinha demorado alguns minutos para Dianna conseguir coragem o suficiente para fazer a pergunta. Não porque tinha vergonha de conversar sobre sexo, era porque aquela pergunta queria dizer muito mais do que deveria, e Demi arregalou os olhos sentindo frio na barriga e o coração bater tão rápida que ela podia escuta-lo.

   - Mas eu... – O anticoncepcional.. Qual tinha sido a última vez que ela tinha o tomado? Não tinha tomado no dia passado, e nem no retrasado, pelo que se lembrava. Respirando fundo, Demi cobriu o rosto com as mãos e buscou pelo celular no bolso. Nada como um aplicativo para ajuda-la a encontrar a resposta daquelas perguntas difíceis. Só era complicado mexer no celular com a mão tremula.

“A sua menstruação está atrasada. Informe-nos quando ela chegar”. Era o que dizia a droga do aplicativo. Atrasada uma semana! Uma semana! Nunca mais ela silenciaria uma notificação! E aquele anticoncepcional? Ah! Era culpa de Selena! Demi quis xingar a amiga por não lembra-la de tomar a maldita pílula. Elas sempre tomavam juntas no mesmo horário. E agora que Sel estava grávida, o calendário que Demi usava para marcar o dia e horário que tinha tomado à pílula estava incompleto, mais incompleto que completo. O problema era: todos os dias ela e Joe chegavam ao ápice juntos, até mais de uma vez em diferentes posições e com inúmeras declarações.

   - Mãe. – Choramingou Demi se sentindo uma bagunça porque muita coisa estava começando a fazer sentido. A fome voraz nunca foi normal, talvez o desejo sexual sim.. Mas a fome era uma novidade. Os seios doloridos, o quão chorosa ela estava.  – Eu não posso. – A voz saiu fina e falha. O coração doeu e muitas lágrimas rolavam. Ser mãe? O medo de trazer um bebê inocente ao mundo era culpa justamente da mulher que a abraçava. E agora?


Continua... Oiiiiii! Tudo bem com vocês? Hahaha, eu estou bem!!! Fim do mistério! Estão felizes? O que será agora da nossa menina? Lembrando que a Demi é cheia de complexos e medos justamente por tudo que ela passou com os pais, aliás, com a Dianna e a falta do Inácio. O que vai acontecer agora? Vocês gostaram? Eu estou animada para continuar escrevendo, muito animada!! Espero que vocês estejam gostando da fanfic, ainda tem muitas reviravoltas para acontecer, e acho que ela não vai demorar muito a acabar :/
Obrigada por todos os comentários maravilhosos, adoro quando vocês comentam a opinião de vocês!! Um abraço super apertado e até mais! Beijo no core <3

2.11.18

Capítulo 16


Positivo. A palavra saiu baixa por entre os lábios pálidos de Anna. Ouvir aquela palavrinha reforçou a certeza daquele fato, que antes estava implícito nas feições assustadas da moça ao sair do banheiro um tempo considerável que tinha ficado plantada lá dentro com o coração disparado na garganta. Havia uma sementinha enraizada no útero que carregava parte da gêmea e do médico. Um bebezinho que ainda era muito pequeno e que, provavelmente, em nove meses viria ao mundo.

Não parecia real, Demi olhou para o relógio sobre o criado mudo e pensou que era um sonho estranho. Quatro e meia da manhã. Aquele horário costumava pregar peças nas pessoas com os mais inusitados sonhos, pesadelos, sons e imaginações. Estava tudo muito estranho, muito silencioso e o tempo parecia congelado. Características de um sonho. Hum. Será? Curiosa, Demi olhou as irmãs.

Hannah tinha os olhos atentos se mostrando uma garota séria e centrada, muito diferente da menina que sempre estava agitando a casa e aprontando com o pai. Isabella só não estava mais cansada que Anna, porém ninguém ganhava dela no quesito preocupação. Os passos de Anna guiaram-na para os braços da irmã gêmea, que a abraçou e a beijou carinhosamente na testa como uma mãe.

   - Eu estou com sono, mas não sei se consigo dormir. – Manifestou-se Anna num ronrono e de olhos fechados. Tinha demorado tempo demais para que alguém falasse exatos vinte e um minutos depois, constatou Demi ao olhar para o relógio. Pelo jeito, Bella e Hannah pensavam o mesmo que ela. A palavra primeiro tinha que vir de Anna, para que elas continuassem a conversa, caso tivessem coragem.

   - O que você vai fazer? – Hannah não se importou com o olhar de Bella, que numa suplica repreendia a menina. Dava até para ouvir a irmã mais velha e sensata dizer “Hann, agora não é hora para brincadeiras. O assunto é sério!”.

   - Não tem muito que fazer. – Resmungou Anna de cenho franzido sem entender perfeitamente a pergunta da irmã. – Vou para o laboratório do hospital amanhã cedo e eu mesma vou fazer um exame de sangue. Talvez mais de um. – Disse se espreguiçando. Havia uma pequena porcentagem de aquele teste estar equivocado, mas Anna duvidava que fosse o caso, uma vez que os sintomas estavam escancarados zombando da cara dela. – E se de fato for positivo. – O frio a tomou de uma forma sufocante e o coração bateu mais rápido, os olhos marejaram e Anna respirou fundo. – Eu vou ter um bebê. – Disse baixinho. Não havia problemas, havia? Se Rick não quisesse assumir, ela ficaria com o bebê. Se Inácio a expulsasse de casa, ela ficaria com o bebê. Se o conselho de medicina descobrisse futuramente que ela se envolveu romanticamente com o orientador de graduação e perdesse os direitos de exercer a profissão que tanto amava, ela ficaria com o bebê. Não tinha nada que tiraria aquela vida dos braços da garota. Viveria um dia de cada vez. Enfrentaria uma batalha de cada vez, como deveria ser e não abaixaria a cabeça para os comentários maldosos e nem para as rasteiras da vida. Ela era uma mulher, e mulheres eram incríveis e fortes.
   - Nós vamos estar sempre com você. – O clima poderia estar pesado e tenso, mas Demi caminhou até Anna e a abraçou de lado. Segundos depois Hannah se juntou ao abraço e Bella não conseguiu sustentar as três, elas caíram na cama e discretamente sorriram quando ouviram o murmuro de Anna nas palavras: eu amo vocês.

***

Uma hora de relógio. Será que chegou à uma hora exata? O despertador biológico de Anna não falhava, sempre a acordava seis da manhã em ponto, vez ou outra adiantava dez minutos ou atrasava cinco, nada mais que isso. Os olhos estavam pesados e o corpo não queria sair da cama. Estava quente e muito confortável, apesar de quatro pessoas estarem dormindo ali.

Naquela manhã não tinha obrigações com o hospital, Anna tinha combinado com o supervisor que entraria em plantão um dia depois da apresentação do TCC, que seria no dia seguinte. Ficaria dois ou três dias no hospital, então voltaria para casa para comemorar o natal ao lado da família, no dia vinte e seis retomaria as atividades e estava planejando um plantão de virada de ano. Naquele período de festas aconteciam muitos acidentes e se estar no hospital trabalhando significava salvar e zelar por vidas, Anna ficaria muito satisfeita de iniciar o ano fazendo o certo.

Bem, agora com a gravidez, seria um pouco mais difícil colocar o planejamento em prática. Mas se tinha uma coisa que era certa: testes de gravidez de farmácias não eram confiáveis. Poderia estar vencido, ter sido exposto a temperaturas que comprometeriam o processo químico, ser de uma marca fajuta. Um Beta HCG resolveria, era preciso em questão de afirmação e até dava para saber o período através de um exame quantitativo.

Quem diria que escovar os dentes agora era uma tarefa que estava comprometida? Anna quase chorou quando o gosto do creme dental de hortelã a fez induzir o vômito. Era mais um sinal.. O banho só foi possível com o sabonete líquido neutro, Anna se empacotou num jeans apertadinho claro, camisa branca de botões, suéter de lã cinza e um enorme e quente trench coat grafite.

A chave da SUV branca de Bella sempre estava disponível sobre o criado-mudo. O carro da irmã era um presente exclusivo de aniversário de vinte e um anos dado pelo pai, e Anna preferiu que Inácio a ajudasse com a faculdade a um carro zero e caro. Bella sempre compartilhava o automóvel, as roupas e tudo que tinha para oferecer. Ao olhar para irmã dormindo serenamente, Anna sorriu e quis abraça-la forte. Demi e Hannah também estavam lá para confortá-la. As garotas pirariam quando não a encontrasse dormindo, mas se esperasse um minuto há mais, Anna surtaria!

Ounch! Os muffins de Bella estavam de dar água na boca. Mas não dava para comer porque o medo de vomitar o alimento era maior. Os olhos de Anna marejaram quando ela se lembrou do bolinho de chocolate, o queixo tocou o couro do volante e um tempo depois o carro moveu-se na troca do sinal vermelho para o amarelo para depois o verde. Não demorou a chegar ao hospital, o prédio branco era enorme e mesmo naquele horário, o estacionamento estava relativamente cheio.

Os óculos escuros ajudariam a disfarçar as olheiras e o coque alto preso por grampos era para que os fios de cabelo não a atrapalhassem na hora do procedimento. Cordialmente Anna cumprimentou o porteiro, e a animação foi surpresa até mesmo para a moça. De certa forma o hospital era uma lembrança boa. Naquele edifício, Anna tinha passado boa parte dos últimos dez anos. Uma parte daquele tempo se dividia entre as idas atrás da mãe, que quase sempre a despachava porque tinha que trabalhar, e a outra parte era a prática do curso. Então a menina conhecia a todos, desde o funcionário mais simples ao presidente da companhia.

Conseguir a chave do laboratório não foi difícil, e enquanto abria a sala, Anna se lembrou de uma ou várias regras que poderia estar quebrando. Mas não tinha como esperar. Ter amizades no ambiente de trabalho só somava. A ideia era coletar o próprio sangue, mas não deu muito certo. Anna pediu a ajuda de um colega sem dar muitos detalhes do que se tratava o procedimento, só deixou escapar que queria verificar como estava os níveis de glóbulos vermelhos e brancos, um hemograma com a desculpa da suspeita de anemia.

Foi tão desconfortável e Anna não sabia o que dizer ao rapaz que pareceu surpreso e preocupado, mas a desculpa do temido último semestre de graduação colou muito bem e o rapaz, graduando em enfermagem, assentiu um pouco assustado porque ainda estava no início do curso e as reclamações dos veteranos sempre assustavam demasiadamente os calouros.

Sozinha no laboratório, o procedimento mais interessante começou com destreza. Anna prendeu o cabelo e o envolveu numa touca, ajustou os óculos ao rosto, colocou as luvas e se acomodou a bancada. O cheiro de álcool no ambiente quase a desconcentrou, mas a moça era focada demais para se deixar vencer. A coleta tinha sido a vácuo e o sangue repousava no tubo bioquímico de gel separador. A centrifugação do sangue não demorou nem dois minutos, o processo era tão rápido e então lá estava separada a parte sólida da fluida. A parte líquida continha plasma, que viria a ser o soro – plasma sem fibrinogênio, e nele estavam os hormônios.

O coração de Anna bateu rápido porque a etapa seguinte definiria se ela abrigava ou não uma vida no útero. Para isso, na fita reagente do kit do beta HCG havia duas regiões chamadas: teste e controle. Quando a fitinha entrasse em contato com o soro, deveria surgir uma faixinha horizontal colorida em cada uma das duas regiões, para o resultado positivo. Caso aparecesse uma faixinha só na região de controle, o resultado era negativo, e se por sua vez aparecesse somente na de teste, o procedimento não tinha sido feito corretamente.

Os olhos da moça pareciam olhos de corujas, atentos e espertos a mudança. A fita reagente estava na posição vertical, foi colocada no tubo que continha à amostra de soro no sentido em que as setas da fita ficavam na vertical e para baixo. Quinze segundos depois a moça retirou a fita colocando-a sobre a bandeja de alumínio. As faixinhas começaram a surgir nas duas regiões dentro de quarenta segundos, e o estomago de Anna pareceu revirar de ansiedade. Esperou por mais cinco minutos tão ansiosa que podia sentir a tensão correr pelos nervosos e se irradiar nas pontas dos dedos.

Estavam lá: uma faixa na região de teste e outra na de controle. O corpo estava produzindo o hormônio gonadotrofina coriônica humana, o HCG, hormônio produzido exclusivamente por mulheres grávidas. Quando as lágrimas molharam o rosto, Anna tirou os óculos, desjeitosamente se livrou as luvas e cobriu a face com as mãos. Era impossível o resultado estar equivocado, todos os passos foram cautelosamente feitos. E como se Deus enviasse mais uma prova que ela realmente esperava um bebê, Anna se sentiu enjoada ao sentir o cheiro do laboratório, aquela mistura de álcool com ferro. Droga.

Qual seria o próximo passo? Ainda eram sete horas da manhã, sete em ponto e faltavam dezessete horas para o dia acabar. Pior, faltavam cerca de seis mil quinhentas e setenta horas para a gravidez acabar! Enjoos, complicações familiares, pessoas chatas, sentimentos a flor da pele, e.. um.. o parto! Aquilo era dolorido, sofrido e com tanta tecnologia no mundo, as mulheres não deveriam sofrer tanto para dar a luz. Bem, Anna era a favor da tecnologia e de técnicas inteligentes, mas sabia que se levantasse uma discussão daquela em sala de aula a briga iria rolar solta por conta da maioria dos conservadores.

“Sabe com quem eu sonhei? Sim, com você. Estou ma-lu-co para te ver. Bom dia, linda.” – Rick.

Ah! Rick era todo charmoso. Começava com o sorriso genuíno e brincalhão, os olhos marrons sempre mostrando como o rapaz podia ser de um amoroso pediatra a um homem quente em questão de segundos. O cabelo castanho tinha a famosa franja de todo o hospital que sempre estava despojada e penteada pelos dedos do médico a cada cinco segundos. E aquelas covinhas na bochecha barbada.. Humm... Quando Rick sorria, Anna derretia. Era automático. Mas será que o rapaz continuaria sorrindo e a seduzindo depois que soubesse que seria papai? Eles estavam juntos não tinham quatro semanas. Pensando no tempo de gravidez, Anna usou o pretexto de continuar com o exame como se ele não fosse dela. E por um tempo ficou tão distraída fazendo analises ali e aqui, logo veio à parte manual das contas matemáticas para levantar a quantidade de hormônio presente no soro. Duas semanas e meia, algo beirando aquela quantidade de dias. E batia certinho com o período de início das noites calorosas que tinha passado com o pediatra.

Lá estavam os dois exames: o beta HCG quantitativo indicando o período da gravidez e o qualitativo, que apenas confirmava que estava grávida. Não havia mais nada a ser feito naquele laboratório. Anna inspirou fortemente e depois expirou na tentativa de conter o choro. Seria tão bom ter o abraço reconfortante da mãe, e depois era certeza que Caroline tentaria animá-la com aquela nova etapa da vida.

Estava triste, não por conta da gravidez, só era o medo que a incomodava, mas ao pensar na mãe, o coração bateu forte no peito e Anna limpou e organizou rapidamente o laboratório para depois sair dali. Talvez um plantão a ajudaria a esquecer, até porque não dava para pensar em nada pessoal quando o sangue estava quente nas veias, resultado da correria na emergência. Ou seria melhor insistir para substituir um paramédico? Suspirando, Anna arrumou a bolsa no ombro e entregou a chave do laboratório na recepção. Iria embora dormir porque ainda era o aniversário de Megan e a irmã precisava de atenção.

   - Srta. Lovato? Pensei que estivesse de folga. – Ouvir a voz grossa se formando daquele jeitinho animado com uma pitada de sedução que só Anna sabia identificar a deixou de bochechas coradas, porque alguma coisa a dizia que as meninas da recepção queriam Rick nu e também suspeitavam da paixonite que ela nutria pelo médico.

   - Estou de saída. Acabei esquecendo minha pasta no consultório. – Seria a mentira perfeita, claro, se ela estivesse com a pasta em mãos. E pelo sorriso de Rick e a forma que ele arqueou uma sobrancelha, era óbvio que não tinha colado.

   - Oh, eu entendo. Tensão pré-TCC é assim mesmo. Esquecemos até o nosso nome. – Nem tudo era culpa do trabalho de conclusão de curso, mas como todos deduziam que era, Anna assentiu forçando um breve sorriso para o pessoal da recepção. – Eu acompanho a senhorita. – Era por conta daquele sorriso e simpatia que Rick era um dos pediatras mais requisitados do hospital. Ele já era divertido com adultos, então com crianças era de deixar as mulheres de coração aquecido e calcinhas molhadas. – Por que você não me disse que estava no hospital? – Perguntou discretamente tendo que caminhar a certa distância da estagiária e orientanda.

   - Esqueci o celular em casa. – Por que estava mentindo, Anna não sabia. O medo começava a sufoca-la a cada passo e o medo de perder o namorado a deixava aflita. – Hoje é o aniversário de Megan, nós dormimos tarde assistindo séries. Minha pasta tem um arquivo importante que estou precisando com urgência para... para... – Começou a dizer procurando pela chave do consultório na bolsa. A droga! O coque tinha despencado em mechas marrons e Rick que estava logo atrás de Anna, murmurou um “Aham” sem conseguir esconder a luxuria estampada nos olhos por ter flagrado o cabelo marrom despencar em lindas mechas longas que batiam quase a um palmo acima do traseiro ajeitadinho da moça nos jeans claros. – Para conferir minha apresentação. – Era sempre daquele jeito. Uma vez que a porta do consultório estava fechada, Rick a imprensava contra a madeira e investia num beijo apaixonado guiando as mãos vez para o traseiro ou um seio da moça.

   - Minha cama fica tão fria quando não passamos a noite juntos, Anne. – A trilha de beijos no pescoço a desconcentrou. Anna suspirou excitada e logo procurava os lábios do rapaz para beija-los. – Você está linda. – Elogiou mais focado em beija-la no lóbulo da orelha e então Anna deixou que as lágrimas rolassem quando não conseguiu mais segurar a emoção.

   - Rick. – Chamou-o pelo apelido tentando não soar tão chorosa, mas o medo de ficar sozinha em todos os sentidos a deixou desesperada. Anna sustentou o olhar do rapaz, umedeceu os lábios e com muita coragem guiou a mão dele para o ventre. – Eu tenho certeza. – O rapaz tinha a olhado nos olhos e quando percebeu as lágrimas, começou a entrar em desespero, mas a mão de Anna sobre a dele no ventre e o olhar desesperado cessaram todas as perguntas.

   - Anne. – Rick desfez do abraço porque estava abalado o suficiente para ficar em pé. Recostou-se a porta ao lado da namorada e ficou de olhos fechados por pelo menos cinco minutos, e demorou mais cinco para puxar Anna para um abraço porque sabia que ela era quase uma menina e estava assustada. – Vamos fazer o beta? – Perguntou a puxando para se acomodar no pequeno sofá porque ele estava zonzo e prestes para cair a qualquer segundo.

   - Não vim buscar a minha pasta. – Disse Anna deitando a cabeça no recosto macio do sofá e olhando para o teto da sala. – Já fiz o exame. Duas faixinhas. O teste de gravidez da farmácia também. Vomitei tudo que comi ontem. – Resmungou chorosa e o rapaz a olhou preocupado. – Eu estou com medo de ser prejudicada. Se a banca descobrir, eu estou encrencada, não estou? – Perguntou o olhando e a imagem que se formava do rapaz estava um pouco embaçada por conta das lágrimas.

   - Todos da faculdade e do hospital sabem da sua capacidade. – Ele disse gentilmente colocando uma mecha do cabelo castanho atrás das orelhas rosadas. – Você tem domínio sobre o seu tema e fará uma defesa invejável. Se tivermos algum problema, temos como provar que todo o material é seu e que começamos a nos envolver só agora. – As conversas online registravam todos os acontecimentos. Existiam emails e uma cronologia de arquivos e dados que poderiam provar a integridade do material de Anna.

   - Meu pai vai me matar. – Resmungou tempos depois e daquela vez não teve como argumentar. Rick só assentiu porque sabia que Inácio iria virar outro homem.

   - Corrigindo: ele vai nos matar. Você não está sozinha. Nós fizemos juntos o nosso bebê. – Tinha para onde correr? Não. Rick não era um covarde. Um pouco mulherengo antes de começar a sair com Anna, e tinha certeza absoluta dos sentimentos que nutria por ela. A menina era nova e estava grávida. O que mais ele poderia fazer além de cuidar e amar a pequena família? – Nosso bebê. – O calor do beijo de Anna o fez sorrir interrompendo brevemente o ato, a mão gentilmente acariciou o ventre e timidamente o rapaz o beijou causando surpresa, mas também um sorriso de orelha a orelha em meio às tantas lágrimas de Anna.

***

    - Nada de notebook na mesa na hora do café da manhã, bebê. – Demorou alguns segundos para que Demi desviasse o olhar do photoshop para olhar Inácio a olhando com um pequeno sorriso nos lábios. Era regra da casa: na hora do café da manhã, todos ficavam longe do celular ou qualquer aparelho que possibilitaria distração porque a refeição mais importante do dia deveria ser feita com a família. Dianna não tinha a ensinado aquela regra, aliás, elas nem tomavam café da manhã juntas... E como morava sozinha, não existiam regras.

   - Você pode me ensinar a mexer no photoshop? – Megan estava animada. Tinha acordado a todos as sete e meia da manhã e desde então, a menina parecia que estava ligada na tomada com potência total.

   - Posso. – Não seria uma tarefa difícil. Demi sorriu para a irmã e fez como o pai disse: fechou a tampa do notebook e o colocou sobre o balcão da cozinha. Só era uma pena que os últimos detalhes do projeto da Gyllenhaal seriam feitos mais tarde, e Demi esperava que as ideias para o convite de casamento de Selena continuassem a todo vapor.

   - Você vai ensinar Megan a mexer no photoshop para fazer montagens com a nossa cara? – Resmungou Hannah. – Pensei que você era uma boa garota, Demi. – Implicar com Megan não estava funcionando para melhorar o humor entre as três. Demi estava impassível, Isabella uma pilha de nervos, e Hannah sentia as bochechas coradas durante todo o tempo pensando na palavrinha: gravidez. Ela e Augusto teriam o número de relações reduzido pela metade! Se Anna que já tinha toda a vida encaminhada estava assustada, imagina se ela, com apenas dezessete anos e ensino médio completo ficasse grávida? Ah, não seria nada interessante.

   - Vai ser divertido. – Ronronou Megan se levantando para ajudar o pai a colocar as comidas na mesa. – Você finalmente vai conhecer a torre Eiffel, Hann. Só que no corpo de uma vaca. – O intuito era que Hannah revirasse os olhos, mas quando a menina não o fez, Megan franziu o cenho e olhou para as três irmãs mais velhas com muita atenção. – O que vocês aprontaram de tão ruim? – Perguntou curiosa e quando não teve resposta, a menina arqueou as sobrancelhas e murmurou: alguém está muito encrencado.

   - Pensei que Anna estivesse de folga. – Disse Inácio se acomodando à mesa ao lado de Demi. – Isabella. – Chamou-a porque Bella tinha cruzado os braços sobre a mesa e repousado a cabeça sobre eles. – O que foi, meu anjo? – Perguntou preocupado porque Bella só ficava quieta quando estava doente.

   - Eu só estou com sono. – Soou manhoso. Talvez Bella estivesse realmente com sono, mas Hannah e Demi sabiam que a preocupação também estava inclusa. Quando levantaram e não encontraram Anna, Isabella tentou contatar a irmã de todas as formas, e não obteve resultado, o que a deixava desanimada.

   - Ela está de folga. Onde está Anne? – Perguntou Megan porque sabia todos os passos da irmã. Dois dias atrás Anna tinha dito que teria folga exatamente no dia do aniversário da menina, que não esqueceu por nada a fala da irmã.

   - Ela precisou ir ao hospital, disse que talvez volta para o almoço. – O olhar de Demi a Bella dizia: Anne está bem, daqui a pouco ela está de volta e nós precisamos mostrar força e determinação nessa nova jornada.

   - Ou para o café da manhã. – Se soubesse que receberia tantos olhares, Anna teria subido direto para o quarto. – Bom dia. – Disse altamente corada se sentando ao lado de Bella e Amber.

  - Você está bem? – Isabella perguntou com pesar e tentou ser o mais discreta possível, mas não deu muito certo porque todos estavam em silêncio.

   - Eu estou bem. – O abraço que as duas trocaram foi motivo para mais silêncio, e como eram cúmplices, enlaçaram os braços e ficaram o mais perto possível.

   - Então.. – Megan começou a dizer atraindo a atenção do pai e das irmãs. – Eu estava pensando em furar a orelha. A cartilagem da orelha para ser mais exata. – Para pedir algo, o tom de voz sempre tinha que ser manso e carregado de respeito. Megan sustentou o olhar do pai e jurou que ouviria um sonoro não. Inácio encarou a caneca com café, franziu o cenho e quando assentiu, a menina sorriu de orelha a orelha. – E a minha habilitação para pilotar? – Aproveitou a deixa. Quem sabia o pai cederia a mais uma coisa.

   - Não. – Não foi um não autoritário, mas garantiu a careta de Megan, o que resultou em muitas risadas, até mesmo do próprio Inácio. – Mas estou disposto a ensinar a dirigir o meu carro. – Megan assentiu. Era melhor que nada. Até porque estava completando quinze anos e aprender a dirigir e pilotar eram conquistas importantes.

   - Eu e a Demi. – Disse Megan olhando para a irmã ao se lembrar de uma das conversas delas. – Amber pode ir com a gente como você e a mamãe fazia comigo. – A última coisa que Inácio precisava era quem Megan ficasse triste. A animação da menina foi embora no mesmo instante que falou da mãe, e as outras meninas ficaram desanimadas na mesma proporção da irmã. O que estava acontecendo com aquele dia?

Café da manhã silencioso. Era estranho silêncio naquela casa, mas não foi tão ruim. Demi aproveitou os muffins o máximo que pode e tinha feito uma nota mental que os elogiariam para Bella assim que as coisas estivessem melhores. O cereal com iogurte e biscoitos também foram uma boa combinação, mas nada perdeu para a fatia monstruosa do bolo de aniversário de Megan. Estava geladinho! Como estava delicioso! O gosto do chantilly era sem igual junto às bolinhas crocantes de chocolate! Comer era muito bom.

Trabalho em equipe se resumia para todas as atividades na casa. Inácio saiu para trabalhar logo depois do café da manhã e deixou a responsabilidade da casa na mão das três mais velhas: Demi, Anna e Isabella. Claro que ele também tinha deixado que qualquer coisa que precisassem era só ligar. Infelizmente o pai não resolveria a bagunça da casa. Não mesmo. E como eram seis, Alicia não contava como membro que contribuía em prol da organização da casa, bem pelo contrário, dividiram-se: Megan e Hannah organizando a cozinha, Demi e Anna organizando a bagunça horripilante da sala e Bella e Amber para arrumar os quartos e ficar de olhos em Alicia.

   - Como ele reagiu? – Perguntou Demi baixinho colocando uma coberta no sofá para que pudesse erguer o colchão e leva-lo para o quarto.

   - Melhor do que eu esperava. – Disse Anna dobrando a coberta felpuda e pesada. – Pelo menos eu não estou sozinha. – Completou olhando a irmã nos olhos. Rick estava surpreso, não desesperado como ela, e pela reação do rapaz, nada mudaria bruscamente entre eles. Anna esperava que não, mas toda vez que o celular vibrava, o medo de receber uma mensagem do tipo “Eu estou a caminho do Japão, sinto muito por não poder ficar. Darei toda assistência financeira que você precisar.”. Ela confiava em Rick e sabia que ele não a deixaria, mas o medo existia e era difícil de contorná-lo.

   - Você não está. Eu estou com você. As garotas também e o papai estará. – Demi sustentou o olhar de Anna até que a irmã sorriu e arqueou uma sobrancelha.

   - Espero que sim. Não será fácil, mas se eu não tiver o apoio dele, não sei como as coisas serão. – Anna tinha ciência da mudança que aconteceria daquele dia em diante. Nem tudo daria certo, e muito menos seria fácil, mas também não significava que todas as lutas seriam com monstros de sete cabeças. E ter o apoio do pai faria toda a diferença independente da situação.

   - Ele vai cuidar de você como sempre cuidou. – Disse Demi puxando o outro colchão porque não queria que a irmã fizesse esforço físico. – Brabo ele vai ficar, é inevitável, mas depois tenho certeza que ele vai te mimar e ficar tão ansioso quanto você e o Rick para a chegada do bebê. – Inácio tinha aquela casca grossa protetora quando o assunto era as filhas, mas o coração do homem era gigante! Ele era um pai excepcional e também seria um ótimo vovô.

   - Espero que sim. – Anna sorriu timidamente pensando no bebê. A cada minuto que se passava o pensamento de ter uma vida abrigada no útero era mais familiar e trazia uma boa sensação, apesar do medo. – Você e o Joe? – Demi assentiu rindo. Estava ficando difícil esconder aquele chupão, mas ela também pensava que ficaria com o pescoço ainda mais marcado quando encontrasse o namorado a sós. A saudade começava a sufoca-la.

   - Estamos juntos de novo. Pensei muito e vou tentar. – Disse um pouco ofegante encostando o colchão no sofá e franziu o cenho quando Anna a ajudou. – Vai ser difícil ter a mesma confiança de antes, mas aos poucos nós vamos construir isso novamente. – A desconfiança existiria, e seria a maior vilã no relacionamento, mas não a impediria de continuar com Joe.

   - Vocês vão.– Anna puxou uma coberta pesada para dobra-la e depois que o fez, colocou-a na pilha de cobertas sobre o sofá e respirou fundo cansada da atividade. – É o certo, Dem. Você se arrependeria se não desse essa chance para ele. – Acomodando-se sobre as cobertas, Anna descansou o corpo nas almofadas macias e fechou os olhos quando sentiu sono.

   - Eu não vou me arrepender. – Disse Demi sorrindo porque o jeito que Anna estava deitada pareceu confortável, principalmente pelas feições satisfeitas da moça. – Eu acho que toda essa preguiça é sintoma da gravidez. – Brincou jogando uma almofada em Anna, que sorriu mesmo sem jeito

   - Você está grávida? – Ah! Naquela casa não tinha segredo que ficasse longe dos ouvidos da aniversariante do dia. Demi coçou os cabelos da nuca e Anna cerrou os olhos ao olhar para Megan. Se ela contasse, ela estaria frita!


***

   - Você está com algum desejo peculiar? – O quarto das gêmeas estava uma bagunça! Tudo fruto da festinha de aniversário de Megan que aconteceria naquela final de tarde. As irmãs de Inácio ficaram responsáveis pelo bolo e os salgados e docinhos, então tinham restado organizar a casa e faltando três horas para as cinco da tarde, começaram a se arrumar.

   - Vontade de puxar a sua orelha. – Resmungou Anna da cama porque desde que Megan tinha descoberto da gravidez, a menina não parava de fazer perguntas.

   - Vocês não param de brigar. – Os cachos feitos pelo babyliss ficaram perfeitos. Demi os tocou e sorriu. O cabelo de Megan era longo, volumoso e tinha um caimento de dar inveja, e agora com os cachos estava um mimo. – Meggy, o papai não pode saber. – Disse Demi e Megan assentiu, mas deveria ser a décima vez que a menina ouvia a frase e continuava insistindo no assunto.

   - Estou entrando. – As duas batidas à porta foram apenas um aviso que logo ela seria aberta, e um alívio porque era Selena. Demi alargou o babyliss e envolveu a melhor amiga num abraço muito apertado. – Você está me apertando. – Resmungou Selena, mas retribuía o abraço na mesma intensidade.

   - Eu sei. – Demi a beijou nas bochechas e também deu um beijinho na barriga cumprimentando o bebê. – Você está linda. – O suéter azul não pertencia a Selena, a peça era de Ed e ficava enorme no corpo esbelto da moça, mas também era confortável, quente e carregava o cheiro do rapaz.

   - Você também, Dem. – Demi sorriu de bochechas coradas, mas logo a atenção de Selena estava toda sobre Megan, que era envolta num abraço apertado e recebia felicitações sussurradas que deixaram a todas curiosas.

   - Você conhece a regra dos presentes. – Disse Amber animada para saber o que tinha no pacote cor de rosa com ursinhos brancos que Megan tinha ganhado de Selena.

Garotas reunidas em prol da beleza sempre resultariam em boas risadas e momentos inesquecíveis. Eram curiosas, cúmplices e maior parte do tempo se implicavam porque era uma forma divertida de demonstrar como se amavam. O presente de Megan foi motivo de suspense e ansiedade, e quando a menina finalmente o abriu, Selena riu porque recebeu uma enxurrada de resmungos sobre as datas dos aniversários da maioria já ter passado. Também! Quem não queria uma jaqueta jeans e uma coleção de broches e bottons?

   - Comprei esses para você. – Era certeza que Demi ficaria enciumada. Sel  tinha percebido que a amiga tentava mostrar naturalidade ao compartilha-la com as irmãs, mas não tinha jeito porque aquele ciúme era natural e dificilmente Demi o superaria. – Espero que você goste. – Eram quatro bottons. Havia o desenho com o Batman, o símbolo da mulher maravilha, um com o rosto do Michael Jackson e o último era com o desenho do top of the rock, claramente simbolizando o lugar que as duas mais gostavam em toda Nova York.

   - Obrigada, Sel. – Demi sorriu de orelha a orelha, abraçou Selena de lado e a beijou no pescoço logo repousando a cabeça no ombro da amiga. – Me deu muita vontade de cochilar com você. – Resmungou Demi se curvando para que pudessem se deitar a cama, mas o murmurou de Hannah a fez rir.

   - Selly, o que você acha dessa maquiagem? – Ao ouvir a voz de Bella, Demi fez careta no mesmo instante porque sentiu o ciúme apertar no peito, o que não passou despercebido por ninguém.

   - Já estou indo. – Selena riu de como Demi estava com cara de poucos amigos, abraçou-a e quando a olhou, sorriu porque achava muito fofo quando a amiga ficava emburrada. – Nós já conversamos sobre isso. – Disse Sel enlaçando os dedos aos de Demi.

   - Eu não vou roubar a sua melhor amiga, Demi. – O sorriso de Bella mostrava que ela compreendia a situação. Demi olhou para cada uma das irmãs que também a olhava e assentiu mesmo relutante e extremamente envergonhada.

   - Não me entendam mal. – Murmurou Demi ainda sem jeito. – Eu não consigo evitar. – Ela realmente esperava que as meninas compreendessem a situação.

   - Eu acho que você nos deve uma história, Dem. – Demi franziu o cenho quando Hannah a abraçou por trás descansando a cabeça no ombro e depois a puxou para se deitar a cama.

   - Devo? – Perguntou de cenho franzido fitando o teto do quarto e Hannah assentiu com um “Aham”.

   - Você não contou muitas coisas sobre a sua infância. – Então aquele era o ponto. Demi se ergueu para olhar para Hannah, então depois olhou para Selena como se perguntasse o que ela deveria dizer.

   - Não tenho muito que contar. – Disse olhando brevemente para Anna. Pelo que Inácio tinha dito, ela era a única que sabia a verdade sobre Dianna. – Eu fui criada pela minha mãe e minha avó num apartamento pequeno aqui mesmo em Nova York. – Não era mentira. Demi umedeceu os lábios e se acomodou mais a cama. – Eu não sabia quem era o meu pai e eu não sei o porquê que a minha mãe nunca me contou a verdade... Passei boa parte da minha infância sozinha, não tenho parentes por parte de mãe então eu não tinha primos para brincar. Conheci a Sel no ensino fundamental e nós ficamos amigas, vivemos boas aventuras, crescemos juntas e na faculdade compartilhamos o mesmo apartamento. Minha avó faleceu poucos meses depois que sai de casa e.. Foi difícil, minha mãe ficou muito abalada e nos distanciamos. Aaah.. Foram corridos e puxados os meus quatro anos de faculdade, eu estudava e trabalhava numa lanchonete para me manter. Nessa época eu tinha terminado com o meu primeiro namorado e pouco tempo depois comecei a namorar um rapaz da faculdade. Assim que formei fui contratada pela Gyllenhaal, eles pagavam muito bem e juntando o meu salário com as minhas economias consegui comprar o meu apartamento. Acho que é só isso. Fiquei um tempo solteira, acho que apenas um ano desde que tinha começado a namorar com dezesseis, aproveitei para sair com alguns rapazes e me divertir, até que conheci o Joe. – Ninguém precisava saber que Dianna e Amélia eram prostitutas e que tentaram fazê-la seguir o mesmo caminho. Aquele lado obscuro não viria à tona.

   - Deveria ser chato não ter ninguém para brincar. – Comentou Amber prestando atenção em cada palavra da irmã.

   - Era muito chato. – Resmungou Demi se lembrando de que nem mesmo assistir a televisão era possível, e quando o fazia, o volume tinha que ficar no mínimo para não incomodar a mãe e o “amante” da vez. – Mas eu me divertia sozinha. Eu tinha lápis de cor e giz de cera para desenhar. Alguns livrinhos para ler. Tive muitas bonecas, mas eu não gostava muito delas. – Demi sorriu se lembrando de como o quarto era cor de rosa na maioria dos detalhes sempre combinando com o branco e o dourado. As bonecas ficavam acomodadas em nichos feitos exclusivamente para elas. Eram barbies e bonecas intituladas meu bebê com bochechas rosadas, olhos azuis e sem nenhum fio de cabelo artificial na cabeça.

   - Nós ainda brincamos de boneca. – Disse Selena concentrada no delineado de Megan. – Mas não foi por muito tempo, quando a mocinha entrou na puberdade, os meninos não davam trégua. – Sel riu de como Demi ficou corada com as risadas das irmãs, mas ainda sim assentiu e apontou para Selena pronta para entrega-la.

   - Ela vivia se fazendo de santa e aprontava dez vezes mais do que eu! – Disse Demi e Selena arqueou uma sobrancelha e riu.

   - Para vocês terem ideia, ela usava uma saia jeans micro quando queria caçar machos. – Selena ignorou os protestos de Demi só porque queria pirraça-la, o que deu muito certo porque as bochechas da moça estavam coradas. – Demetria, você sabe que eu não estou mentindo. – A gargalhada veio logo em seguida e Selena deixou o delineado de lado só para caminhar até Demi e abraça-la porque ela estava claramente constrangida.

   - Você é a pior melhor amiga que existe. – Resmungou Demi tentando se desvincular do abraço de Selena.

O clima de risadas até que continuaria, estava divertido, mas quando Anna se levantou as pressas para correr para o banheiro em mais um enjoo, todas ficaram preocupadas e deixaram tudo que estavam fazendo para acolher a irmã, o que não deu muito certo porque o banheiro não era grande o suficiente para abrigar sete pessoas ao mesmo tempo.

   - Eu estou bem. – Anna precisou lavar o rosto e respirar fundo se acomodando no vaso sanitário depois que fechara a tampa. – Só estou um pouco enjoada e tonta. – Disse quando Bella se aproximou para ajuda-la. – Eu quero dormir e só acordar quando esse bebê nascer, Bell. – Resmungou chorosa porque aquele enjoo alternado com a vontade de devorar o mundo, fazer sexo e dormir era horrível! E quando a tontura vinha? Anna nem mesmo conseguia pensar direito, só queria deitar e dormir.

   - Você está grávida? – Selena perguntou um tanto surpresa e Anna assentiu de olhos fechados recostando a cabeça no ombro da irmã. Tinha acontecido tudo tão rápido. Sel ainda podia se lembrar de Demi planejando o encontro de Anna com Rick, e agora a moça estava grávida.

   - Descobri de ontem para hoje e não estou me aguentando. – Anna arriscou esboçar um sorriso para Selena, mas o cheiro de frutas do cabelo de Bella a conduziu a vomitar o resto do café da manhã que já tinha sido engolido por insistência do pai.

   - É melhor ela descansar. – Disse Selena assumindo o lugar de Bella.

   - Lave o rosto e respira fundo. – Demi se prontificou a ajudar, assim como Hannah e as outras decidiram tirar as coisas que estavam sobre a cama de Anna para que ela pudesse deitar.

   - Eu estou entrando. – A voz de Inácio foi motivo para espanto, e ninguém soube disfarçar ao certo o nervosismo misturado a tensão. – Tem alguma coisa de errado? – Perguntou preocupado e se sentindo envergonhado por ter tantos olhares sobre ele.

   - Problemas femininos. – Selena foi a única no quarto com coragem o suficiente para dirigir a palavra a Inácio num momento crucial e tenso como aquele.

   - Querem que eu vá à farmácia? – Com o passar dos anos as bochechas de Inácio não ficavam vermelhas. Não era todo pai que se dispunha a comprar remédios para cólica e absorventes, por mais que às vezes as meninas ficavam envergonhadas de pedir, no fundo ficavam agradecidas pelo pai estar disposto a ajudar independente da situação.

   - Está tudo bem, eu só vou descansar um pouquinho. – Anna estava tão cansada que nem mesmo a tensão das irmãs conseguiu envolvê-la. Acomodou-se a cama sentindo o corpo pesado e ansioso para repousar, e assim fez pelas próximas horas.


Continua... Eu resolvi dividir esse capítulo porque não gosto de ficar muito tempo sem postar para vocês, também sou leitora e fico mal quando as minhas autoras somem. Bem, oi! Tudo bem com vocês? Espero que realmente me perdoem a demora, eu comecei a escrever esse capítulo super animada até essa parte da Anna fazendo o exame de sangue, mas depois eu desanimei tanto que não sabia mais o que escrever. Isso acontece nesse processo de criação, então resolvi postar para vocês e se puderem e quiserem, podem dar sugestões ou comentar sobre as expectativas para o resto da história. Boa noite meninas, muitíssimo obrigada pelos comentários, um abraço bem apertado e até a outra parte desse capítulo, que eu espero não demorar muito a postar. Qualquer coisa é só mandar um tweet ou uma dm no meu twitter: @mylittlediley